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terça-feira, 27 de junho de 2017
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Inocentes e carma
Pergunta – Mas, por exemplo, ela passa fome porque produziu karma para isso, é assim?
Monge Genshô – Sim. Tem karma para nascer num mundo onde há fome. Assim como você tem karma para nascer como ser humano e inevitavelmente morrer em no máximo noventa anos. Esse é seu karma. Não existem vitimas inocentes. Existiriam vítimas se houvesse um Deus criando um ser de cada vez, porque ele teria o poder de não deixar acontecer determinada situação. Mas como para o budismo tudo é continuidade, não existe nenhuma inocência. Mesmo que você esteja vendo uma criança que sofre, ela não é inocente se você olhar um milhão de vidas.
Pergunta – Como desenvolver a compaixão nessa situação?
Monge Genshô – Seres são inumeráveis, faço voto de liberta-los, todos. Todos os seres, mesmo não inocentes, sofrem e tem dor, você também não é inocente, nem eu. Desta forma eu posso saber como é a dor do outro e me compadecer porque sei que a dor dele é como a minha. É como o exemplo do pesadelo, uma pessoa que sofra com um pesadelo, realmente sofre. O que você faz quando vê alguém sofrendo com um pesadelo? O acorda. É exatamente isso que Buda tenta fazer com os homens, coloca sua mão no ombro de quem está tendo seu pesadelo de vida e diz, “acorde”. Ao despertar todo pesadelo desaparece, essa é a maneira de se livrar do sofrimento. Todos que sofrem são vitimas inocentes se você olhar apenas suas vidas agora, mas todos estão vivendo sonhos. Assim como não existe a vitima inocente, não existe algo chamado culpa. É algo muito extenso para que você diga “É culpado”, por isso não vale a pena cultivarmos culpas. Temos que tentar despertar e assim vermos a realidade como é. Todas as vidas tem envelhecimento, doença e morte desde a infância. Quando eu nasci já havia penicilina, foi minha sorte, pois tive difteria, se tivesse nascido dez anos antes teria morrido. Se eu tivesse nascido dez anos antes você diria que eu era um vitima inocente da difteria? Não, eu teria karma para nascer numa época em que não havia cura. Apenas isso.
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segunda-feira, 24 de junho de 2013
Ver o vazio dos agregados elimina o sofrimento
Quando o Boddhisattva vê claramente o vazio dos agregados, livra-se de todo o sofrimento, ele ainda sabe como é a dor do outro. Assim como você, que vê uma pessoa tendo um pesadelo. Ele sofre, geme, sua, você vai lá, sacode o ombro, acorda, ele leva um susto, acorda de um sonho. Ele livrou-se de um sofrimento. Mas aquele sofrimento era real. O sofrimento mesmo imaginário, é real. Os sofrimentos de todos os seres do mundo são reais embora todos eles sejam sonhos. E não adianta dizer que vai passar. Tem que trazer a pessoa para a realidade, para que ela possa acordar do sonho, que é a única solução definitiva.
Por isso às vezes o que a gente diz é muito duro. Há que trazer a pessoa para a racionalidade, mas às vezes não há como retirar o sofrimento. O sofrimento vai continuar lá porque o sofrimento é emoção e não é racionalidade.
“Sharishi” é uma forma abreviada, carinhosa, de chamar Shariputra.
Shariputra era um dos principais discípulos de Buda e famoso por sua sabedoria. Ele era mais velho que Buda e morreu antes de Buda. Shariputra já era mestre espiritual e tinha muitos discípulos. Ele ouviu Buda, se sentiu um ignorante, tornando-se discípulo de Buda e todos os seus alunos foram junto com ele.
Isso aconteceu várias vezes na vida de Buda. Eram grupos inteiros de pessoas para acompanha-lo. Mestres com seus discípulos. Este é o caso de Sharishi-Shariputra.
Aí o Sutra do Coração da Sabedoria diz: “Forma não é mais que vazio, vazio não é mais do que forma”. Saikawa Roshi diz que meditou 4 anos apenas nesta frase, para resolver isso, quando voltou da Tailândia onde por anos fora monge Theravada. Então, não é tão fácil de resolver, de sentir profundamente este conceito.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
A vida é um sonho nítido
(continuação)
Há uma outra história, com balde, num famoso conto Zen, sobre uma monja que carregava um balde cheio de água, era noite e a luz da lua se refletia na superfície da água do balde, de repente o fundo do balde partiu-se, a água toda escorreu e ela viu: nem água nem lua, e neste momento despertou. O que é que vemos nas nossas vidas de sonhos, tão nítidos, que não é um reflexo na superfície, como a lua que se reflete na água? Esta vida é um sonho nítido, um discípulo perguntou a Joshu que morria: - "Mestre, diga alguma coisa! " e ele já com 118 anos disse: - "Não tenho nada para dizer." O discípulo insistiu: - "Mas nos diga alguma coisa, nos deixe alguma coisa !", e Joshu respondeu: - “A vida é um sonho”, e expirou. Sim a vida é um sonho, mas um sonho muito nítido e como é tão nítido, nos perdemos nele. Sempre acorremos quando temos um amigo sofrendo de um pesadelo, vemos que ele sua, geme, sofre. Nos vamos lá, sacudimos seus ombros e dizemos: - "Acorda! Acorda! Ei, acorda!" E ele despertando diz: - Ah! Ai...era só um sonho"" , mas ainda o coração está acelerado. Nós nos perguntamos se é tudo ilusão, se a vida é um sonho, por que os mestres estão ensinando? Porque se compadecem do sofrimento do pesadelo e por isso tentam acordar seus alunos para que eles possam dizer: "Ah! Era só um sonho!"
Como o poema de Fayan:
“Por toda parte que eu vá, a lua da noite gelada cai como quer, nos vales adiante”, demonstrando o caminho incomparável da verdade última.
Monge Genshô, (Palestra como Shusô, na noite que antecedeu seu Hossenshiki, outubro de 2008)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Acordar do sonho
“...liberta-se instantaneamente dos sofrimentos que surgem da (ignorância da lei da) mudança incessante do nascimento-e-da-morte. Se um Buddha pudesse evitar, você pensa que ele permitiria que um único ser sensível caísse no inferno?. Sem a Auto-percepção não se pode compreender coisas como estas.”(Texto)
Aqui há três ensinamentos importantes. Primeiro se nós compreendermos que nossa mente é Buddha, é como virar uma chave e isso é que faz a Escola Zen ser conhecida como uma escola instantaneísta, em um único instante você pode despertar, pode se iluminar. Num único momento levando a crise bem longe, nós podemos, repentinamente, acordar do pesadelo. E este acordar-se é a própria iluminação. È enxergar a sua mente Buddha que na realidade não é nada do que foi construído em volta, mas a verdadeira natureza que não depende de nascimento e morte.
A base de tudo, a vacuidade do qual tudo o que nós vemos é fenômeno. Não é na realidade sólido e verdadeiro. Uma das escolas buddhistas, a Escola Yogachara, levou bem longe essa análise dizendo que qualquer coisa surge e desaparece instantaneamente, que é por causa de uma plêiade de condições que esse copo aqui na minha mão surge, mas um infinitésimo de tempo depois que ele surge ele desapareceria se estas causas e condições não estivessem presentes para faze-lo surgir de novo, então na verdade o surgimento de todas as coisas é uma sucessão de infinitésimos de manifestações.
Todas as coisas são sustentadas por uma rede de conexões, de causas e condições que fazem com que surjam. Se essas causas e condições cessassem, instantaneamente as coisas desapareceriam. É como este sol entrando aqui na sala. Se a estrela sol desaparecesse, instantaneamente a luz que nós vemos desapareceria porque teria sumido a condição que sustenta esta manifestação da luz. Na verdade se isso acontecesse, antes que alguém diga, levaria oito minutos para nós percebermos, que é o tempo que a luz leva para chegar do sol até aqui, mas não importa no nosso exemplo. Todas as coisas são sustentadas por condições e nós também e todas as coisas que nós olhamos. Então essas coisas são ilusórias nesse sentido. Não é que elas não existam, mas elas são apenas manifestações, aparências.
E isso é o que acontece conosco também, nós todos somos meras manifestações. E tudo o que nós estamos vendo também é mera manifestação. Há algo sólido atrás de tudo isso, mas essas manifestações só se sustentam porque as causas e condições que as fazem surgir permanecem. Isso faz com que tudo o que nós vemos seja automaticamente impermanente. Todos os universos existentes são impermanentes. Na tradicional cosmologia Buddhista, que não importa se correta ou não, sempre se admitiu a existência de muitos e muitos universos cíclicos que surgem e desaparecem, porque esta é a natureza das manifestações. Surgir e desaparecer. Mesmo que dure bilhões de anos uma manifestação ela um dia esgota a sua energia e desaparece, e isso deve acontecer também com o nosso universo.
Então, existe alguma chance de nós permanecermos com a nossa espécie ou o nosso mundo? Não, nenhuma chance de permanecer para sempre. Nem o nosso universo inteiro pode permanecer para sempre. O que pode permanecer para sempre? Só a vacuidade. Por isso essa vacuidade não é o nada porque ela é aquilo do qual tudo surge o que é bastante diferente de um nada. Segundo, compreendendo que sua mente é Buddha libertamo-nos instantaneamente dos sofrimentos que surgem, da ignorância da lei da mudança incessante. Por quê? Porque se nós percebermos esta eternidade a qual pertencemos, cessa o sofrimento que provém da impermanência. Mas não basta nós entendermos isso com a nossa lógica. Não basta estudar física como as pessoas fazem hoje e dizem: a física moderna diz isto, isto não faz o sofrimento cessar. A única maneira de fazer o sofrimento cessar é sentar em zazen e enxergar a mente claramente e assim ter clareza, e essa clareza iluminando tudo faz com que nós percamos o sofrimento que provém de vermos as manifestações temporárias e nos apegarmos a ela.
Por isso sofremos em relação aos filhos, por exemplo, porque é temporário o tempo de vida deles, um dia nós os deixaremos ou eles nos deixarão. Esperemos que nós os deixemos. Um dia eles saem de casa, eles mudam e deixam de ser crianças adoráveis para serem adolescentes complicados, depois deixam de ser adolescentes complicados e um dia, voltam como adultos amorosos, então não existe estabilidade, nem sequer nesses seres que nós amamos tanto, com quem temos essa ligação genética, de sangue. Outro é que se Buddha pudesse evitar ele permitiria que um único ser sensível caísse no inferno ou seja, sofresse? A resposta é que Buddha não tem esse poder, ele é um mestre só, se tivesse ele eliminaria o sofrimento.
Ele apenas tentou dar a solução do sofrimento. A escapatória do inferno e do sofrimento é esta compreensão clara, mas não a compreensão do intelecto, e sim a compreensão afetiva, uma compreensão integral que só pode ser conseguida através do despertar da própria mente. E terceiro, sem a auto percepção não se pode compreender coisas como estas, ou seja, nenhuma solução que possa vir de fora, não pode vir de Buddha, não pode vir de nenhuma divindade, de ninguém pode vir a solução para o despertar. A solução para o despertar só é alcançável pela investigação de nossa própria mente. Nós é que temos que acordar do sonho e por isso o treinamento tem que ser tão duro. Porque o nosso mergulho na ilusão é forte demais, é extremamente poderoso. Nós como manifestações nesse mundo movidos por essas energias kármicas ficamos assim profundamente deludidos.
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terça-feira, 6 de março de 2012
Acordar da ilusão

Sem uma fé firme nisto que é o coração do ensinamento de Buddha, é impossível progredir muito na sua prática.
A segunda qualidade indispensável é um ensinamento de forte dúvida (daigidan). Não é uma simples dúvida, notem, mas uma dúvida maciça por que nós e o mundo parecemos tão imperfeitos, tão cheios de ansiedade, conflitos e sofrimentos, quando de fato nossa fé profunda nos diz exatamente que a verdade é o oposto.(TEXTO) Então nós olhamos o nosso mundo cheio de sofrimento, cheio de problemas e no Buddhismo o ensinamento é: não, isto é perfeito e maravilhoso, tudo já é perfeito como é, quem está enxergando torto é você, tudo é contra a nossa experiência, é só sentando que a gente pode ver aquele lampejo maravilhoso, então talvez se possa ver tudo como maravilhoso e perfeito e atinge-se uma grande e perfeita felicidade, mas ela só é atingida passando por esta grande dúvida, porque o nosso mundo nos diz o contrário, o nosso mundo nos diz que nós nascemos e morremos e o Buddhismo nos diz o quê? Que o nascimento e a morte são delusões, que nós não temos mortes verdadeiras...
P. Mas existe um sofrimento...
Monge Gensho: Sim um sofrimento num mundo relativo, mas num mundo absoluto ele também é ilusório. Este sofrimento também é sonho, é um pesadelo, mas é sonho, se você acordar nem este sofrimento é real, as mortes não são reais, nada disto é, tudo isto é sonho interpretado, agora aquele que está dentro do pesadelo sofre, não sofre? Esta é a questão do Boddhisattva – não existem seres para serem salvos, no entanto o Boddhisattva vem ao mundo e ensina o Dharma e se esforça para diminuir o sofrimento no mundo, por quê? Porque aqueles seres que sonham estão sonhando ilusões, mas enquanto sonham sofrem terrivelmente porque quando você tem um pesadelo você sofre, não sofre? Não é completa ilusão o pesadelo? Estão torturando você, estão matando você, seus filhos estão morrendo, qualquer coisa assim, horrível, você chora e geme...
P. A angústia é a mesma...
Monge Genshô: Como se fosse verdade...você está lá gemendo, chorando e se contorcendo na cama e um amigo vai lá e sacode você e diz: acorda!acorda! E quando você desperta você vê que tudo aquilo era ilusão, não é? Muito bem, os Buddhas e Boddhisattvas são aqueles que sacodem os ombros dos que dormem, não é que aquele sofrimento não exista, por isto, por compaixão os Boddhisattvas sacodem os ombros dos que dormem, dos que tem pesadelos, existe sofrimento? Sim, Mas é ilusão este sofrimento.
(Comentários sobre texto de Yasutani Roshi em palestra)
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