quinta-feira, 17 de maio de 2007

Para discutir a doutrina budista

Para discutir pontos doutrinários há listas próprias para os interessados. É possível discutir nelas, com a presença de alguns grandes professores, treinados no exterior, e com o domínio das línguas em que os textos foram escritos. Pode-se, por exemplo, debater se a mente que prossegue com seus impulsos, vida após vida, carrega consigo uma identidade. Se a palavra reencarnação, usada em uma tradução brasileira, tem o sentido do que quis dizer um mestre zen séculos atrás, mergulhado na convicção budista da inexistência de EUS permanentes. As listas de discussão budistas principais são as abaixo listadas:

Buddhismo-L - lista genérica de discussão buddhista. Todas as linhas.
Para se inscrever: listabuddhismo-subscribe@yahoogroups.com

Theravada-L - lista de discussão sobre o Buddhismo Theravada.
Para se inscrever: sudhamma-subscribe@yahoogroups.com

Zen Chungtao - lista de discussão sobre o Buddhismo Zen.
Para se inscrever: chungtao-subscribe@yahoogrupos.com.br

Budismo Shin - lista de discussão sobre o Buddhismo da Terra Pura.
Para se inscrever: budismo_Shin-subscribe@yahoogrupos.com.br

Vajrayana-L - lista de discussão sobre o Buddhismo Tibetano.
Para se inscrever: vajrayana-subscribe@topica.com

Usa-se música na meditação zen budista?

A resposta é não deve ser colocada, ou seja , ser proposital. Porém qualquer som que surja espontâneamente do mundo é uma porta de entrada para o praticante em zazen.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Há correntes budistas que crêem em reencarnação?

Não, claramente não há. No entanto o termo tem sido usado, mesmo em textos budistas, causando grande confusão, visto termos uma idéia diferente, no ocidente, de reencarnação, daquilo que é entendido como continuidade cármica no budismo. Sobre o assunto o Colegiado Buddhista Brasileiro, entidade que reune todas as grandes escolas tradicionais do budismo presentes no Brasil, emitiu uma carta pública que consta na íntegra, neste blog, em postagem do dia 20 de abril. Desta um trecho esclarecedor:

"Segundo o Sutra do Diamante, o mais antigo documento impresso localizado, nada permanece tal como alma ou coisa que carrega e transmite algo. E no Cannon Páli que reune as mais antigas escrituras, compilado por volta de 300 AC, fica clara a doutrina de Anatman (não há partícula permanente) em contraposição ao Atman (há alma, ou algo para reencarnar) doutrina do hinduísmo.
O Carma (os impulsos decorrentes de ação) é que gera uma identidade, e não uma identidade carrega um carma. Cada ser que surge, embora manifeste impulsos cármicos, é inteiramente novo em sua identidade, em seu eu ilusório pessoal.
Encarnações, como a palavra indica, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte.
Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões."

Dom Timóteo, abade do Mosteiro de São Bento-BA

“Com Dom Timóteo aprendi uma única e grande coisa. Ele me disse que havia escolhido o caminho do monge quando sua esposa falecera. Tornara-se um erudito, um homem manso, também um herói que enfrentara a tropa que invadira o mosteiro após uma desordem em uma passeata de estudantes durante a ditadura. Mas quando a morte se aproximava, ele morreu em 1995, em mais uma conversa que tivemos, ele me falou que aprendera que a essência era estar profundamente presente no que quer que se fizesse. Esta lição da presença absoluta em um momento, me levou até o zen. Ela permeou meu caminho à procura de um treinamento que me fizesse apreciar meu trabalho e dar a ele uma percepção espiritual. Se a espiritualidade não puder ser levada à vida diária ela não tem sentido.”

terça-feira, 15 de maio de 2007

As folhas que caem

Não achamos trágica a morte das folhas, vemos a continuidade da vida, da floresta. A achamos linda. No entanto os mesmos fenômenos na existência humana nos perturbam. Não vemos sua beleza. Estão perto demais de nós. Se fossemos capazes de perceber que nascimento e morte em nossas vidas, tem o mesmo significado que nas folhas da floresta, poderíamos viver vendo a beleza. A transitoriedade de todas as coisas é inerente a elas, nosso sofrimento vem do apego, do desejar a estabilidade das coisas instáveis. Queremos que tudo dure para sempre. Por isto os homens inventaram religiões onde há vida eterna, depois da morte, em paraísos, reencarnações, coisas assim. Uma maneira de escapar da transitoriedade.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Koan - O gato cortado ao meio

Koan significa caso público, caso registrado. É um diálogo entre mestre e discípulo, que foi registrado, sobre o qual você pode pensar. Por exemplo, os discípulos estavam disputando por um gato. Normalmente não existem, ou não é para existir, animais de estimação nos mosteiros, mas de repente aparece um e é adotado. Então, havia um grupo de monges no mosteiro disputando um gato. O mestre Nan Sen chegou na sala, pegou o gato, levantou-o no ar, tirou a navalha que serve para cortar o cabelo e disse: - Digam uma palavra de Zen e o gato se salvará. Um monge falou: o gato é meu, outro: não mate o gato. O mestre cortou o gato ao meio. Isto no budismo é absurdo. Mas, ele matou, assumiu o risco de fazer isto em benefício de muitos outros seres, até hoje estamos falando nisso. À noite chegou um monge que estava viajando. O mestre relatou a história. O monge pegou as sandálias e as colocou sobre a cabeça e saiu, e o mestre disse: se você estivesse aqui teria salvado o gato. O koan é assim:- Me diga o que você teria dito para salvar o gato. Até hoje eu ouvi uma só pessoa que salvou o gato metaforicamente. Ele levou um ano tentando, mas conseguiu. É como a resposta quem é você? Se alguém dá uma resposta que aprendeu filosoficamente, você vê que esta resposta é uma resposta só da sua cabeça. Traga-me uma resposta das suas entranhas. E esse é um dos problemas do koan, porque originalmente aconteciam diálogos entre mestres e discípulos, na época de ouro do Zen, e eram muito fortes estes diálogos, verdadeiras as respostas. Com o tempo isto foi sendo escrito e tornou-se caso público, como essa história do gato que eu estou contando. Mas vocês não estavam lá nem estavam disputando o gato. Então não era a sua vivência pessoal. É agora uma referência a um caso passado.

sábado, 12 de maio de 2007

A Forma no Zen

Não é o Zen falar bonito sobre o Zen e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas quando estamos fazendô coisas no zendô, com todas as regras que tem o Zen, aí nós erramos. Quando nós erramos, rimos, porque todos erramos. Mas quando erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O temor de desfazer-se do EU

Estamos apegados às nossas crenças, identidade, amigos, etc. Quando pensamos em abandonar qualquer dessas coisas a que nos agarramos, surge imediatamente um temor. Esse medo e aflição são produto do mecanismo de auto-proteção do ego. O ego está agarrado àquilo tudo e parece que ele equivale àquelas coisas, crenças , afetos , pessoas.

Nosso eu sempre está querendo se ampliar, somar coisas à sua identidade, memórias, amigos, prazeres; quer ser eterno, não abre mão de uma permanência impossível, quer continuar o sonho, como um louco agarrado à sua fantasia. É preciso coragem para largar todo esse apego . É saltar em um precipício sem nada saber sobre o que está lá embaixo.

No entanto, aquele que salta descobre-se subitamente liberto de inúmeras amarras e condicionamentos, que eram nossos donos. Acreditávamos que nós éramos exatamente aquele conjunto de apegos. Como as pessoas que dizem: 'eu sou assim'. Como se esse 'assim' criasse uma identidade que ele chama pelo seu nome.

A nossa verdadeira identidade está muito mais acima desse sonho de peça escolar, é uma identidade luminosa, abrangente, que percebe a inseparatividade de todas coisas, que é ilimitada, não condicionada pela existência cíclica, pelas identidades individuais, compreendendo tudo, percebendo com nitidez sua eternidade não sujeita à mutabilidade de um mundo submerso em condições.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

A entrada

Um discípulo perguntou: Onde é a entrada? O mestre perguntou: você ouve o ruído do riacho? Sim, respondeu o discípulo. É ali, disse o mestre. Essa resposta é a mesma para nós: a entrada é ali. Mas enquanto você ouvi-lo fora de você, você não entrou, não passou a entrada. Mas não pense em entrar. Só sente e ouça. Se sua mente se cala você pode entrar. Enquanto sua mente estiver falando: eu sou fulano, eu estou aqui sentada, eu estou cansada, meu joelho dói, enquanto você estiver pensando eu, eu, eu...você não pode entrar porque o passaporte para entrar nessa entrada é não ter passaporte, enquanto você tiver passaporte, impressão digital, retrato, nome, não pode entrar.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A ilusão e a vida

É possível viver na vida sabendo que é ilusão e ainda assim usufruir da vida? Sim e muito mais porque a alegria da vida deixa de estar cheia dos sofrimentos inerentes aos apegos. Não é a vida em si que produz sofrimento. Quem produz sofrimento é nosso apego à permanência na vida, porque desejamos estabilidade, porque desejamos nos agarrar às coisas da vida. Elas são muito fortes. Nossos filhos, nossos amores, nossa casa, colocamos apego nessas coisas e elas são impermanentes, então obrigatoriamente teremos sofrimento, mas nós podemos ter profundo amor sem apego, sabendo que é transitório, impermanente e ilusório. Que é um sonho maravilhoso que estamos vivendo, mas que não tem solidez, então é perfeitamente possível usufruir e viver, e ao mesmo tempo ter uma mente livre. Ter conquistado a liberdade. Não vai haver apego, ódio, ilusão. Não vão haver as três coisas que produzem o sofrimento: o apegar-se, o ter aversão e a ilusão.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Quem somos nós?

Mas quem somos nós? Estamos pensando isso, esse fenômeno do nosso cérebro funcionando, essa ilusão em que fechamos os olhos, dormimos e vem outra ilusão, quem somos nós realmente, além desse sonho momentâneo?

Esta não é uma resposta para ser dada com uma solução de fé. No Zen o monge não vem aqui e diz: é assim, acreditem. Não, tentem e descubram, através da meditação, quem são realmente, porque posso dizer algumas coisas a respeito, mas não posso dar respostas para ninguém, todo mundo tem que ver com os seus próprios olhos.

Quando a gente consegue responder a pergunta “quem é você?” para um mestre, de forma satisfatória, é uma libertação deste papel que estamos representando, é uma solução, é uma realização espiritual libertadora e é isso que a iluminação é – libertação dessa condição de nascimento e morte.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Na outra margem

A pergunta é: nós estamos vivendo ou é a vida que está nos vivendo? De certa maneira nós estamos vivendo, mas de outra maneira mais ampla a vida inteira está nos vivendo. Nós somos apenas parte da vida. Nós é que pensamos que somos especiais, indivíduos que precisam se iluminar para ver as coisas tais como são. Se vocês olharem pela janela e perguntarem, mas e esta árvore ali fora, no meio de toda esta floresta, ela precisa se iluminar? Não, ela não cogita, não pensa. Ela vive naturalmente. Como ela vive naturalmente nem teme a morte. Ela partilha a existência dela com a floresta. Ela não é indivíduo. É a própria floresta. Quando ela morre dela nascem outras árvores. Ela aduba o solo.Coisas assim acontecem. A floresta é que é o ser, o grande ser, e as árvores em si, nascendo e morrendo, não tem muita importância. Existe um equilíbrio nisso. Nós conseguimos entender isso olhando para a floresta. Nós temos enorme dificuldade para entender isso olhando para os seres humanos. É por isso que quando morre um ser humano nós choramos ou nos entristecemos. Quando nascem nos alegramos, é assim porque nós vemos todos os seres humanos como indivíduos, porque olhamos para nós como indivíduos. Se nós apagássemos esta noção de que somos indivíduos separados e nos sentíssemos a humanidade, ou mais do que a humanidade, nos sentíssemos como - a vida; nascimento e morte não teriam mais importância. Por não conseguirmos enxergar assim é que tememos a morte, por isso nós sofremos, ficamos na margem de cá, porque a margem de lá seria a percepção com sabedoria de Prajna Paramita. A percepção da outra margem não tem essas angústias. Porque ela também não tem mais a noção de um eu. Budismo parece muito complicado. Falamos muito, ensinamos muito sobre muitos aspectos filosóficos, mas se nós fossemos resumir o budismo seria com isso – não há um eu.Não há um eu intrínseco a coisa alguma. Se nós conseguíssemos desconstruir esse eu tudo estaria resolvido.

sábado, 5 de maio de 2007

Faz sentido no Zen?

Uma aluna escreve:

"Uma vez eu li um trecho, se não me engano em um livro chamado "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido", onde Ouspensky citando Gurdjieff dizia que "A vida começa a fazer sentido quando descobrimos que ela não faz sentido algum".
Assim como vi em um livro de Victor Frankl um trecho que me parece maravilhoso onde ele diz que "O homem não é quem pergunta o sentido da vida, mas sim aquele à quem essa pergunta é feita, e a qual ele responde com a própria vida."
Essas idéias estão de acordo com o Zen?"

R: Sim, elas fazem muito sentido no Zen!

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Barra de chocolate e reverência

Estava dirigindo quando parei, em uma sinaleira, perto da comunidade zen budista de Florianópolis. Sentado na calçada, um mendigo barbudo, com uma trouxa ao lado. Andando pela chuva fina vejo chegar um jovem aluno do zendô. Ele leva nas mãos uma grande barra de chocolate. Sem olhar para os lados, indiferente aos carros, leva a barra até o mendigo e a entrega. O beneficiado parece algo surpreso, mas a recebe. O jovem faz uma reverência em gasshô (mãos postas) como se estivesse olhando uma estátua de Buda. Depois retorna pela rua sob a água que cai, sem se apressar. Passaram-se semanas, não ouvi a menor referência ao acontecido.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Meu pai e sua fantasia

Saio com Daniel, meu filho de dez anos, de uma palestra na UDESC, que fiz com o monge da Ananda Margha, Jinanananda. Um rapaz à saída veio me dizer: - "Quando o vejo nas palestras não sinto que há um ser humano ali." Fico algo surpreso que ele não veja o que para mim é tão evidente, sou humano, com defeitos e qualidades como qualquer um.

Pergunto a Daniel, quem ele vê, quando compenetradamente assiste as longas palestras que os monges fazem, com um ar tão interessado. E ele responde seguramente:
- Sempre meu pai, fantasiado de monge!

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Onde estava no feriado de 1 de maio.


Visita do Papa

Um jornalista me liga, seu jornal deseja saber como os budistas vêem a visita do Papa ao Brasil.

Respondo:

"Como algo maravilhoso, que o país seja visitado por grandes líderes espirituais é uma coisa excelente. Mais pessoas terão reavivado sua fé, e olharão para dentro de si mesmas. Os resultados disto só podem ser bons."

terça-feira, 1 de maio de 2007

Pensamentos Mágicos

...."Vivendo a partir do que somos saímos de uma vida centrada em nós para uma vida centrada na realidade. Abandonando os pensamentos mágicos, despertando para a mágica do momento atual, damo-nos conta da graça do Nada de Especial... o Zen vivido."

Charlotte Joko Beck