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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Buda e deificação.



Pergunta – Monge Genshô, logo depois que Buda  morre parece que ele já começa a ser “deusificado”. Outros mantiveram essa abordagem ou tiveram esse “espírito” mais cético também?

Monge Genshô – No Zen também, porém o Zen, por tradição, tem professores muito rebeldes, os Mestres Zen defenderam ferozmente sempre sua independência e tentaram sempre retornar a origem, mas nos sutras mahayana, e o Zen está profundamente inserido no movimento mahayana, que é o movimento que começa mais ou menos 500 anos depois da morte de Buda, movimento inclusivo, que inclui os leigos dando-lhes importância etc, os sutras desse movimento já se caracterizam por transformar Buda num ser transcendente. Então, no inicio desses sutras, nos mais antigos, Buda aparece como um professor, chegou, sentou, o aluno fez tal pergunta, e ele respondeu, e às vezes a resposta de Buda era: “Quem foi que te disse isso? Eu não falei isso. Eu prometi isso? Não, não prometi não”. Ou, “Ó homem tolo”! Então ele era um professor incisivo.

Já quando chegaram os sutras mahayana, Buda aparece como um ser transcendente, convidando Bodhisattvas, Deuses, os deuses hinduístas aparecem pra ouvir palestras, aí numa sala como esta eentram 5.000 pessoas, etc.

Aluno – Então fico pensando se esses textos não teriam um sentido metafórico?

Monge Genshô – Se coloque no lugar dos escritores dos sutras, eles aparecem como escritores, mas sem assinatura. Não tem autor. Todos os sutras antigos são assim, não tem autor assinando, só começa a aparecer “isso foi dito por fulano de tal”, na nossa tradição, lá pelo ano 600 d.C., com a entrada do Zen na China. Antes os textos são às vezes escritos em chinês, traduzidos para o sânscrito, que já é uma língua morta no tempo de Buda, para ganhar prestígio, e o sutra, tem toda essa roupagem transcendente, ele perde a característica “pé no chão” dos sutras mais antigos que são do tempo do Triptaka mas, eles ganham em misticismo, eles ganham aspecto místico.

Se virmos por exemplo o sutra “Sandharmapundarika”, que nós citamos na hora das refeições, e que é o Sutra de Lotus, ele é um sutra evidentemente escrito mais de meio milênio após a morte de Buda e durante o seu tempo de vida, ele foi aumentando de tamanho. Cada vez que havia um conflito, um problema, na China por exemplo se dava muita atenção às relações familiares,  à piedade filial, à reverencia pelos ancestrais, etc, então os chineses tinham dificuldade de aceitar o budismo, então colocaram um capítulo sobre esses assuntos, e aí introduz-se dentro do sutra um aspecto confuncionista, e aí o sutra aumentava. Depois achavam que as mulheres receberam pouca atenção no capítulo das mulheres. Aumentaram o sutra. E assim foi.

Essa é a realidade da exegese histórica. Mas haverão escolas que dirão que esse sutra foi dito por Buda, e se você disser que historicamente isso não é verdadeiro, eles dirão que o sutra ficou escondido, porque as pessoas não estavam preparadas para ele etc.Então há muitas coisas assim em escolas budistas.

O Zen se beneficiou nos últimos 150 anos com a formação de universidades e centros históricos e à medida que se estuda seriamente os textos e a história, as coisas começam a ficar datadas, e começa-se a fazer raciocínios a respeito. Isso mudou a perspectiva do Zen, nós nos beneficiamos muito dessa visão mais exata dos tempos de hoje. Nós sabemos que dos sutras mahayana nenhum foi escrito no tempo de Buda. Todos eles são de autoria de um tempo posterior. Mas, tem uma outra observação a ser feita, o budismo é uma construção contínua, ele está sendo construído aqui e agora, nós temos um budismo brasileiro em construção, temos coisas que são características por exemplo da nossa sangha, que são diferentes até de outras sanghas budistas, porque por uma visão nossa, vemos alguns problemas e dizemos que não vamos permitir determinadas coisas.

Por exemplo, os leigos em muitas sanghas através do mundo usam roupas como essa, o koromo, até em outros países. Outro dia um senhor  me mandou uma foto dizendo que tinha uma roupa de monge. Não é uma roupa com a manga assim, na realidade é um koromo para leigos, que tem uma diferença no seu corte, na sua estrutura. Aí eu perguntaria: para quê que os leigos querem usar um koromo?  Não gosto muito disto, porque nas sanghas, e é da natureza humana, as pessoas gostam muito de títulos, cargos e roupas. Então se a gente permite, começa a ter gente já querendo “parecer” que é Monge. E para quê? monge tem que ser um cargo desagradável, tem que ser chato, ruim ser monge. Yoko San está aqui pra testemunhar. Ele se tornou monge e começaram a aparecer todos os problemas de monge e um belo dia ele chegou para mim e disse que não queria mais ser monge, que queria desistir. É mais confortável ser leigo. Agora, querer ser monge sem os desconfortos de monge, isso não é possível.