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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Os Seis Reinos

 

Pergunta: O que são os espíritos famintos e as dez direções?
Monge Genshô:
As dez direções são: norte, noroeste, nordeste, leste, sudeste, sudoeste, sul, oeste, em cima e embaixo. No oriente costuma-se dizer “dez direções” para expressar algo em todos os lugares, em todas as direções no plano e também nas 3 dimensões. Isso é interessante porque quando a gente fala sobre as direções cardeais, falamos sobre o pensamento de quem opera num plano só, viajando no mar, sem subir e nem descer. Então, quando falamos em dez direções, falamos sobre pensar além do plano, pensar também em cima e embaixo. Muitas coisas que vemos nos textos budistas têm origens culturais orientais, algumas hindus, outras chinesas e outras japonesas. Às vezes isso cria confusões desnecessárias, por isso é melhor conhecer a cultura para saber interpretar.

Tradicionalmente há uma divisão em seis reinos de existência. O reino mais baixo é o reino dos infernos, onde os sentimentos predominantes são a raiva e o ódio. Nós podemos fazer paralelos para o nosso mundo, porque nós podemos transitar por esses reinos. Não é que os reinos em si existam em um determinado lugar. Eles são expressões de estados em que um ser, ou seja, uma consciência pode existir. Então o reino dos infernos é onde há ódio, raiva, violência e solidariedade zero. Nós temos o reino dos infernos hoje, por exemplo, na Síria: chovem bombas do céu, matam-se famílias, crianças e ocasionalmente o reino dos infernos aparece em outros lugares. Ontem houve um atentado na Turquia, morreram centenas de pessoas, outras centenas ficaram feridas e isso vai gerar um recrudescimento da repressão do governo turco, causando represálias dos grupos oprimidos como os curdos e, assim, gira a roda do reino dos infernos.

O segundo reino é o reino dos espíritos famintos, também chamado de reino da ganância. Os espíritos famintos nunca estão contentes. Eles andam pelo mundo como fantasmas, querendo acumular coisas e ter sempre mais. Eles têm gargantas muito estreitas e corpos imensos, então a garganta deles não é suficiente para o tamanho de seus corpos, por isso estão sempre desesperados desejando mais. Os que roubam riquezas são um exemplo de espíritos famintos, porque nunca estão saciados. Por mais que você dê muito a eles, eles nunca estão satisfeitos e por isso eles não conseguem parar. Com os juros de hoje uma pessoa que tiver 1 milhão de reais aplicados vai ganhar 14% ao ano, isso dá mais ou menos 1% ao mês, o que daria uma renda mensal de 10 mil. Com quanto vocês estariam satisfeitos? As coisas funcionam assim: se você ganhar 5 mil, em breve você leva uma vida de 5 e se ocorrer algum evento inesperado não terá o suficiente. Se você passou para outro patamar, você tem gastos daquele patamar. Então perguntamos: por que quem tem 1 milhão não para? Porque vivem nesse patamar e não acham que essa quantia é suficiente. Dentro de todos nós aqui, mesmo que a gente não saiba, também tem um fantasma faminto que nunca vai ficar plenamente satisfeito. É triste ver que isso sucede também dentro das instituições religiosas. A gente descobre, comendo com oryoki, que é possível comer com 3 tigelas, com apenas 3 opções de comida e que isso é saudável. Você não vai ficar gordo e não precisará jogar nada fora. O oryoki é uma lição de simplicidade. Quando recebi a transmissão o Mestre me deu um de presente feito de laca, brilhante, preto, bonito, as peças se ajustavam perfeitamente uma dentro da outra, era um artesanato muito cuidadoso. Há lojas para monges no Japão que vendem esses produtos: oryokis, sinos, mantos, tudo feito de forma maravilhosa e isso vai contaminando ao longo do tempo todas as estruturas. Quando Buda fez o manto dele ele fez de retalhos de mortalhas, de tecido rejeitado, jogado fora, de lixo. Ele recortou os pedacinhos que eram bons, os juntou e essa é a origem do manto de Buda. Mas hoje, na medida em que o tempo vai passando, as pessoas vão querendo cerimônias bonitas com outros tipos de materiais. Tudo isso está dentro do segundo reino. Um dia veremos mantos bordados de ouro, com pedras preciosas, etc.

Pergunta: Há alguma forma de não ser assim?
Monge Genshô:
Eu acho que isso está dentro de nós, sempre queremos uma coisa melhor. É como colocar ar-condicionado no carro. Depois de colocar ar-condicionado no carro, como ter um carro sem ar-condicionado? Toda história da humanidade é assim. No palácio de Versalhes não tem o conforto dessa casa de retiros, porque não tem banheiro, não tem chuveiro e o rei baixou uma ordem para recolherem os penicos pelo menos uma vez por semana, então imaginem o que era o cheiro do palácio. Antes, acho que o mundo era muito, muito fedorento. Para chegarmos nesse ponto de higiene demoramos muito e hoje jogamos nossos detritos no mar e contaminamos o mundo. Então ainda precisamos dar mais um outro passo, precisamos chegar num outro patamar, apesar do mundo nunca ter sido tão confortável como agora. Os espíritos famintos nunca cansam, nunca estão satisfeitos e, não se enganem, todos nós somos espíritos famintos e cada vez que vocês subirem um patamar qualquer de gasto, vai haver um outro patamar que vocês vão ambicionar. A maioria gasta tudo que ganha e se inventarem 14º, 15º e 16º salários, as pessoas gastarão tudo. Tudo isso ilustra o fato de que nós sempre queremos mais e quando tentamos consertar esse tipo de situação há enorme descontentamento.

Depois dos fantasmas famintos há um outro reino, o reino animal, ou o reino do obscurecimento. Esse estado é o estado de não compreensão, onde não adianta explicar. É como explicar algo para o seu cachorro. Esse obscurecimento é característica do que a gente chama de reino animal, mas apesar do nome muitas pessoas vivem nesse reino. As características do reino animal são: grande preguiça, come e deita, teoria de poupar energia, não fica em pé se pode estar sentado ou deitado, etc. É um estado de torpor. A pessoa chega em casa após um dia difícil e toma umas cervejas para relaxar. Bebe até ficar num estado de torpor, não conversa, não fala nada complicado, quer apenas fazer alguma coisa que não exija muito do seu pensamento, como alguém que senta na frente da televisão para ver um jogo de futebol, se enrola na bandeira e fica insultando o juiz, gritando palavrões, etc. Esse estado de torpor, de obscurecimento mental, é o estado animal. Não tem nada a ver com lucidez ou com clareza.

Nós passamos por esse sentimento também na hora de acordar de manhã às 4 horas no sesshin. O estado de torpor que faz alguém desejar ficar mais tempo na cama é característico do mundo animal e de todas as pessoas que não querem compreender nada. No mundo animal não há crítica nenhuma e isso não é uma coisa infensa aos seres humanos, tanto é que existe a síndrome de Estocolmo, em que uma pessoa é sequestrada e se apaixona pelo sequestrador. Isso foi analisado em um caso de uma sequestrada que se apaixonou pelo sequestrador na Suécia, ou seja, ela perdeu o senso crítico de tudo o que aconteceu e passou para um outro estágio mental.

Então o reino animal se caracteriza por ignorância, falta de senso crítico, falta de lucidez, torpor e imediatismo. Nós vivemos no reino animal quando sentamos na frente de um prato de comida muito cheio e comemos mesmo sabendo que não podemos comer daquele jeito, porque vamos engordar ou porque vamos passar mal. Exageramos porque não pensamos na consequência a longo prazo, só no momento imediato e isso é o comportamento mecânico atribuído ao reino animal. Claro que há outras considerações: não podemos dizer que não haja inteligência ou autoconsciência no reino animal, porque dependendo do animal existem graus diferentes de consciência, uma coisa é uma minhoca, outra é um pássaro, ou um golfinho. Assim também são os seres humanos e passamos para o reino seguinte: o reino humano.

A característica do reino humano é a variedade: ele pode sofrer, ficar alegre, pode ser espiritual, pode se comportar como um animal, pode ser ganancioso, pode ter raiva, como no reino dos infernos, etc. Ele tem tudo à disposição e por isso tem uma grande oportunidade para a iluminação. É por ter todas as experiências que você as conhece e tem suficiente inteligência para se criticar. Você pode sentar e perceber coisas como: “está acontecendo isso comigo”, “estou indo em tal direção”, “eu sinto tal inquietação”, “eu sinto tal oposição” e assim por diante. Nenhum sentimento é estranho para um ser humano, ele é capaz de entender todos. É possível entender o sentimento dos assassinos porque dentro de cada um tem um assassino em potencial, tem um ser ganancioso, tem um ser de raiva e ódio, tudo isso está dentro de todos nós. O que você vai demonstrar depende do que você treina, do que você pratica e o quanto você investe numa característica sua. Você pode fazer crescer uma característica e diminuir outra, depende de como você pratica. Para isso você tem que olhar sua mente, suas palavras, seus atos e é isso que na realidade nós fazemos aqui.

Nós tentamos interferir em todas as áreas: na mente através do zazen, nas ações de corpo pedindo que as pessoas façam determinados gestos, etc. Se tudo isso for feito automaticamente, oportunidades serão perdidas. Se uma pessoa vem servir você numa refeição, você tem que fazer gasshô, mas não é fazer gasshô por fazer e sim se lembrar “sinto profunda gratidão por ser servido, será que eu mereço ser servido, será que eu sou uma pessoa que realmente merece essa comida que chega aqui para mim?”. Recitamos a oração: “recebamos este alimento conscientes dos inumeráveis esforços necessários para que chegue até nós”, ou seja, não adianta dizer só a frase, você tem que pensar que alguém arou a terra, choveu, alguém plantou, alguém cuidou, alguém colheu, alguém transportou, houve um caminhão, um motorista caindo de sono andou dirigindo para carregar isso, tudo foi colocado dentro de sacos, passou por um beneficiamento, foi colocado por um repositor numa prateleira de supermercado, foi comprado e se nós fizermos a descrição de quantas pessoas estão envolvidas para que uma colher de arroz chegue no prato, nós vamos chegar à conclusão que foram milhares. Milhares de pessoas trabalharam para que tivesse aquele arroz ali no prato, porque cada parte dependeu de coisas que vieram de lugares diferentes do mundo. Máquinas que foram usadas tem componentes que foram fabricados em outros países para que aquela comida estivesse no seu prato. Você está consciente dos inumeráveis esforços que foram necessários? Estar consciente é a prática. Nada pode passar por nós como uma coisa que a gente faz automaticamente, sem prestar atenção. Dentro daquilo que a gente está fazendo tem uma quantidade enorme de ensinamentos embutidos e você tem que decodificar. Se você não estiver decodificando, você não vai entender o porquê.

Como seres humanos nós temos a oportunidade de ter consciência de todas as coisas. Eu sei que a quantidade de pessoas conscientes no mundo é baixa, na verdade muito baixa, porque nós vemos a todo instante a inconsciência funcionando e repercutindo os atos das pessoas. É necessário examinar esses atos. Se todo mundo agisse como eu, como seria o mundo? Dá para fazer isso? Aquilo é possível? Então, a oportunidade de ser um humano é a oportunidade de se dar conta de tudo isso, de praticar e de se iluminar. Todos os reinos inferiores não têm essa oportunidade.

O estágio seguinte é o das Asuras, que foi traduzido como: reino dos semideuses. Os semideuses são poderosos e estão sempre lutando, sempre querendo vencer. O reino dos semideuses está bem representado nas livrarias, com livros do tipo: “tenha sucesso”, “seja um vencedor”, “como ser um milionário”, “seja uma mulher poderosa” e temas assim. Esses livros expressam um desejo de competição, de ganhar sobre os outros, porque quando falamos em sucesso é porque há derrotados. É como o super-homem de Nietzsche subindo a pirâmide sobre os corpos dos outros homens derrotados. Não é a ideia de juntar coisas para si, isso aparece como um subproduto, e sim a vontade de estar acima dos outros. Esse reino é bem característico do mundo dos executivos, dos desportistas, dos políticos, etc.

Há um defeito no reino dos semideuses com relação ao mundo dos homens. Os homens têm altos e baixos, já os semideuses são vencedores, eles têm coisas, têm poder e estão sempre focados em ganhar, então compaixão não é algo que entra nesse reino. Compaixão aparece mais entre os seres humanos, que às vezes perdem tudo, às vezes ganham alguma coisa, mas permanecem sempre lutando na vida. Quando você olha para a sangha o que você vê são predominantemente seres humanos. Gente com um espírito animal não vem para a sangha, já que é melhor ficar em casa fumando um baseado ou bebendo cerveja. Pessoas com espíritos animais embrutecem, sentem menos, dormem mais, não têm vontade de lutar e adiam tudo para depois. Precisa de uma certa energia para uma busca espiritual, você precisa ser um ser humano e ter algum sofrimento para vir para a sangha. Um executivo bem sucedido também não vem para a sangha, porque enquanto ele está vivendo como um executivo, ele está vivendo na luta, o tempo todo. Eu teria andado muito mais no caminho espiritual se não tivesse perdido uma boa parte da minha vida sendo um executivo. Levantava de manhã, almoçava no trabalho, ou num almoço de negócios, jantava, ia a um coquetel, chegava em casa cansado e no outro dia começava tudo de novo. Não havia pausa ou tempo para outras atividades, assim como não havia energia para outra coisa a não ser essa luta do trabalho. Nessa posição você sente os sofrimentos intrínsecos da competição, mas não lhe faltam coisas ou poder, porque ele é poderoso e esse poder é encantador. O poder está lá no sobrenome da empresa num cartão de apresentação, você pode mostrar o crachá e é respeitado por isso, então você se sente poderoso. Essa é a característica dos semideuses e, sendo assim, eles não vão sentar para fazer zazen, nem têm tempo para isso.
   
O próximo reino é o dos deuses. O mundo dos deuses é outro estado, superior, porque não precisa lutar mais. Tudo veio de graça, como uma moça que nasceu muito linda, ganha dinheiro para ser fotografada e ganha muito mais do que jamais poderíamos imaginar. Ou o caso de grandes talentos quando não precisam de esforço. É muito diferente o comportamento de um pianista que precisou estudar muitos anos, passou horas e horas fazendo grande esforço, de alguém que ganhou fama e dinheiro repentinamente e sente que de certa forma não merece e fica tonto com aquilo. Nessa situação, o dinheiro escorre pelas mãos deles e surgem muitos amigos falsos e essas são características do estado do mundo dos deuses. Sem o esforço que os semideuses têm que fazer, sendo grandes herdeiros, ganhando Ferrari aos 18 anos, fazendo viagens pelo mundo todo de forma natural, sentindo dificuldade nenhuma, não sentem necessidade de se esforçar. Não há tantas pessoas no mundo nessa situação, mas essas pessoas não têm interesse algum pelo caminho espiritual, porque não sentem um sofrimento provindo do mundo externo. Todo o sofrimento que surge é um sofrimento interno. Às vezes ocorre suicídio por falta de sentido na vida, mas quando essa pessoa vai falar sobre o seu sofrimento, sobre as suas dificuldades, as pessoas normais sentem vontade de rir, porque para elas não é sofrimento real, ela nasceu em berço de ouro e não precisa fazer esforço algum, mas não quer dizer que não sintam angústia.

Temos um exemplo interessante: Buda nasceu no mundo dos deuses, ele era príncipe, seu pai tinha tudo, então deu tudo para ele. Não havia dificuldade nenhuma e só quando ele pensa na velhice, na doença e na morte, é que ele cai em si sobre a quantidade de angústia que o homem tem ao olhar sua própria finitude. Tudo o que eu tenho vai envelhecer, apodrecer e morrer. Todas as coisas que eu amo eu vou deixar de ver. Todo esse mundo em que estou vai desaparecer para mim. E não sei o que acontecerá depois da morte, isso é desconhecido, ninguém voltou para dizer como é do outro lado. Todos estão condenados, Buda pensou isso. Apesar de estar no mundo dos deuses ele teve esse lampejo, mas para conseguir fazer a prática espiritual, o que ele fez? Abandonou tudo, porque se ele ficasse lá no palácio não conseguiria praticar. Então ele abandonou tudo e se tornou um asceta sem roupa, sem comida, passando fome, mendigando, se martirizando, perdendo todo o conforto, etc. Foi assim que ele foi procurar e descobriu que estava exagerando quando despertou. É isso o que interessa para nós.

O que é o despertar? É uma característica que ocorre no reino humano, que é clareza, lucidez e compreensão perfeita do que tá acontecendo. Por que acontece assim? Como acontece? De onde vem isso? Todo o edifício teórico do budismo está construído em cima disso e os reinos não passam de representações didáticas que nos dão classificações para entendermos esses estados mentais que ocorrem em todos nós. Todos nós temos essas características e nós devemos ser agradecidos por sermos seres humanos com problemas humanos, porque é por estarmos nessa situação que temos a capacidade de despertar. Despertar é uma palavra melhor que iluminação.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Satori


 (continuação)
E o que é satori? Satori é a possibilidade de andar assim quase todo o tempo, andar na iluminação por escolha. Se a situação está muito complicada, então eu posso simplesmente mudar meu modo de funcionamento para o “modo iluminado”. Se eu posso mudar para o modo iluminado, eu posso até morrer, sem problemas, não é? Porque a própria morte está sendo vista sob uma outra perspectiva, que é o que acontece com o monge que queima numa fogueira sem manifestar nada. Não é que a dor não exista, o sofrimento não exista, não é que a morte não exista. Existe, mas a morte não é o que é para todos os “eus”, porque ele sente que morte e nascimento são apenas eventos de uma onda cármica pois, na realidade, você é eterno por natureza, não é este evento de agora. Este evento de agora é o evento do seu “eu”, e este evento do seu eu, deste momento, é importante para quem vive no sonho, para quem sai do sonho, não é, porque o sonho é todo construído. Essa é a essência do que nós estamos fazendo.

E eu acho importante nós desmistificarmos o que é iluminação, porque a iluminação está disponível agora. Se não estivesse disponível, fazer sesshin seria um sacrifício inútil. Ela está disponível. Você, em algum momento, percebe que as circunstâncias daquele instante são tão maravilhosas, tão tranquilas, tão calmamente felizes que você gostaria que aquele momento durasse para sempre. Você poderia viver sempre assim, você não queria que acabasse. Essa é uma experiência iluminada. Você só precisa trazer isso para sua vida, de verdade.  Aí tudo está certo. É para isso que nós praticamos, não é para mais nada, pois então praticamente todas as perguntas estarão respondidas, se você tem esse tipo de experiência.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pergunte ao ferreiro


Quando Buda andou pelo mundo ele era um homem comum, normal, sendo assim a forma como os primeiros Sutras o tratam. Esse conjunto de Sutras chama-se “O primeiro cesto”. Existe então, um conjunto de escrituras que se chama “Tripitaka”, que significa “Os três cestos”. “Tri” em sânscrito quer dizer três e não por acaso se parece com o nosso três, pois o sânscrito é parente do português, como vimos na palestra de sábado sobre o “Trikaya”, os três corpos.

O primeiro cesto são os “Sutras” - os discursos de Buda. Sutra literalmente quer dizer “fio” e dele derivou a palavra Sutura, que significa “costura que é feita com fio”. Por que então Sutra? Porque podemos seguir a linha do ensinamento como seguimos um fio.

O segundo cesto chama-se “Vinaya” - o cesto das regras monásticas. À medida que o tempo ia passando iam sendo criadas novas regras, exemplo, quantos mantos os monges podem ter? Definiu-se que quatro mantos seriam suficientes e, assim por diante, foram sendo criadas regras de conduta e regras para ordenação monástica, como por exemplo, a de que um monge não poderia ser ordenado sem a anuência de sua família. Os jovens monges só poderiam ser ordenados se os pais concordassem. O homem casado que resolvesse ser monge só poderia o ser, com a anuência da esposa e um monge só poderia ser ordenado na presença de outros cinco monges. Com isso temos mais de trezentas regras para as mulheres e duzentos e cinquenta e poucas para os homens. Por que essa discriminação com as mulheres? Porque os homens não menstruam e nem engravidam, essas regras eram ligadas a ter que cuidar dos filhos e coisas típicas da condição feminina.

O terceiro cesto chama-se “Abhidharma” -  os comentários feitos por seguidores de Buda sobre os ensinamentos. O mais interessante desse processo todo é que congelou-se no Tripitaka, o cânone mais antigo, os discursos em que Buda aparece como um homem que vem e senta, passa os ensinamentos e que, eventualmente, alguém lhe faz perguntas ou discorda. Ele responde e nunca se furta a um debate. Algumas vezes recusa-se a responder dizendo que o assunto em questão não interessa ao que ele se propõe a ensinar. Perguntas do tipo, “Qual a origem do mundo?”, “O que acontece após a morte?”, “Deus existe?”, não eram respondidas sob o argumento de que não eram verificáveis. Ele dizia que seu ensinamento era sobre a origem do sofrimento, sua cessação, felicidade, iluminação e o despertar. Esse é o assunto que tem real importância, dizia Buda. Outros assuntos não interessavam ou não eram de sua alçada, eram de responsabilidade de oleiros, cientistas ou guerreiros. “Qual a melhor maneira para se fazer uma ferradura”? “Não sei, pergunte ao ferreiro” era sua resposta.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Não acalente um objetivo



Pergunta - Mas ao sentar para meditar, a gente senta sem um objetivo de responder à essas perguntas, a própria pratica  vai trazer essas respostas,. Eu não pratico tanto quanto deveria, e percebo que a gente senta e permanece a mesma coisa, os pensamentos vem e passam, alguns momentos parece que não pensa nada daí vem aquela coisa – Óh, consegui não pensar em nada – e aí pronto, já voltou tudo, mas é isso mesmo, é isso que vai acontecendo? O que eu percebi com o tempo, é que antes eu sentava e ficava agitada, louca que terminasse logo, agora eu sento e sinto já até um certo prazer, um pensamento de que é bom. Eu sinto que o grupo é muito importante, em casa parece que é uma mentira as vezes...É isso mesmo, é assim mesmo?

Monge Genshô – Está certo. Porem eu diria que sentar tentando não pensar em nada é tentar alcançar algo não real, afinal estar consciente do momento presente é uma forma de pensamento, porem sem elaborações. De modo que o praticante do Zen em seus estágios iniciais  deve sentar apenas tentando não seguir os pensamentos, deixar que os pensamentos passem, e há momentos em que tudo ficou tranqüilo simplesmente porque ficou tranqüilo, mas para não festejar isso é necessário não ter esse objetivo. Então como apontei no inicio, o erro aí é o objetivo. Por isso essa técnica de sentar no Soto Zen é chamada da Shikantaza – apenas sentar – não acalente um objetivo, não tente alcançar nada, isso é bastante importante. Se você medita, insights surgem. Mas esses entendimentos, também não podem ser o objetivo, eles surgem naturalmente, coisas que nós não entendíamos e passamos a entender. 

Quando a gente vê os praticantes é fácil perceber como são os alunos, é fácil entender o que está acontecendo com o treinamento deles pela maneira como eles perguntam. Primeiro querem manifestar opiniões, depois fazem perguntas mais difíceis, depois não fazem mais perguntas, quando deixam de fazer perguntas a gente sabe que o aluno passou um determinado ponto. É como se as questões tivessem se dissolvido. Quando ele chega na frente do professor, mesmo que ele pense – Acho que vou perguntar isso –  ele pensa – Não, não é preciso – ele sente que não tem sentido fazer a pergunta, então essa já é uma outra fase. Mas é lógico que isso não pode ser fingido, então quem sente necessidade de fazer perguntas, faz perguntas, e o professor responde. É necessário esse contato, mas sem a prática não acontece nada. 

 É necessário ter esforço, mas esforçar-se também não leva a nada. Se a gente pratica começa a entender, se eu me esforço não funciona, se eu não me esforçar não vou a lugar nenhum. Quando a gente começa a sentir prazer em ficar sentado já foi um grande progresso. Porque o pior estado é o daquela pessoa que não consegue parar, um estado muito agitado, muito turbulento. Na realidade  um mundo infernal.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Opiniões


1) O processo de ensino do Dharma implica que um aluno faz perguntas a um professor. Nesta etiqueta não há espaço para um debate tipo "discordo" " concordo", o que há é um esforço para esclarecer as dúvidas sobre o Dharma.
2) Não tem, para quem ensina o Dharma, nenhuma importância se as idéias são aceitas ou não, ou se alguém se afasta do budismo porque algo no Dharma não parece satisfaze-lo, tempo não faltará para que tudo se esclareça... O Dharma não será modificado por motivos de preferências pessoais e ele tem uma história razoável de 2600 anos de enfrentamentos filosóficos, sobreviver a este teste de muitas mentes brilhantes é um motivo para desconfiarmos de que há sólidos raciocínios a embasar cada declaração.
3) Desta maneira o esforço de anos de alguns professores de responder milhares de mensagens em listas e perguntas em público implica que ao perguntarmos nos colocamos na posição de saber o que o Dharma expõe. Não há , por parte dos professores que conheço, o desejo de defender alguma posição particular e pessoal, por este motivo ouvimos, aceitamos ou não, livremente, mas não tratamos de provar um ponto contrário ao Dharma. Isto seria negativo para a prática, do ponto de vista do zen em especial, pois significa a defesa de opiniões, e este desejo é considerado um dos mais negativos e geradores de mau carma, assim os professores não devem incentivar tal tipo de debate.

Resposta em lista budista em 2005.

terça-feira, 3 de março de 2009

Perguntas e prática

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Bodhidharma

P: Existe alguma pergunta que mereça ser perguntada, e que não pode ser respondida pelo praticante através da própria prática?



Em tese não, todas as perguntas da vida espiritual podem ser solucionadas na prática pessoal, isto foi o que sucedeu com Buddha. Porém, mesmo ele, se apoiou em treinamento com mestres antes de sua iluminação. Os professores auxiliam muito, ao ajudar o aluno a evitar os caminhos errados, já testados anteriormente. Como na ciência em que Newton diz "pude ver mais longe porque subi nos ombros de gigantes" referindo-se a seus grandes antecessores, como Galileu e Kepler. Nós subimos nos ombros dos mestres, eles podem nos ensinar a evitar os venenos mentais do apego, da aversão e da raiva, por exemplo, impedimentos certos para o progresso individual.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Perguntas sem fim


"E eu fazia perguntas e as fazia desesperadamente, como a quem faltasse ar. Ainda tenho perguntas e certamente tenho dúvidas, mas agora quando ouço as pessoas fazendo perguntas, vejo um pouco melhor o que é que elas estão fazendo. Entendo o que sentem e sei que perguntas geram mais perguntas e respostas não são coisas que apagam o fogo e a ânsia. Observo. O fogo e a ânsia são bons. As perguntas provam a existência da sensação de urgência. Em fim, não são a respostas dos mestres que acalmam o adepto; é a presença deles que facilita o processo e a paciência deles ao enfrentar o rio de perguntas até se esgotar, até se reconhecer que existem outros recursos."
(J. Gross, escrevendo desde Los Angeles sobre o zen)

Devido ao retiro de carnaval só retornarei a postar quarta feira próxima

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Perguntas do grupo de Goiânia


- Por que precisamos sentar com as mãos e os polegares unidos durante a meditação?

R: Este é o chamado mudra universal. Tem profundos significados. Por enquanto basta saber que os polegares são indicadores da atenção, se dormimos eles caem, se temos pensamentos fortes eles se comprimem e sobem, devemos mantê-los mal se tocando.

- Durante a meditação sinto o meu corpo esquentar muito, qual o motivo?

R: É normal, e um bom indicativo de concentração. Este calor chama-se “tapas”.

- Não consigo ficar sem pensar em nada, como observar e estar atento, se o zen nos diz para não focarmos nossa atenção em nada?

R: Não tente não pensar em nada. Deixe que os pensamentos passem sem apegar-se a eles, sem segui-los ou julga-los. A cada momento volte a atenção para o momento presente, este lugar, esta sala, aqui estou sentado com todo o universo. Não foque nada em partcular, apenas ouça e deixe os sons atravessa-lo.

- Durante a meditação, parece que todos os pensamentos que não tive durante o dia resolvem aparecer, isto é comum? Como controlar isso?

R: Não controle, deixe que passem, “o vasto céu não é perturbado pelas brancas nuvens que passam”.

- Não consigo meditar com freqüência diária, e quando sento para meditar fico inquieto, e nos dias que não realizo a meditação me sinto culpado por não sentar, como me livrar dessa culpa? Como conseguir meditar com freqüência? E como me livro da impaciência?

R: Não tente se livrar de nada, somente sente, reserve um tempo para fazer isto todos os dias, mesmo 10 m é um bom começo. Não cultive culpas, elas são inúteis, e fruto do ego. Quanto a impaciência ela passará, estabeleça o tempo em que vai sentar e não se levante por nada antes que acabe. No início sentar com os outros é melhor, se meus amigos estão suportando eu também devo ser capaz de aguentar... Depois de algum tempo sua mente se aquietará e vc será capaz de meditar por horas, então nada no mundo será insuportável ou perturbador.

domingo, 3 de agosto de 2008

Como é o processo de ensino do Dharma?

1) O processo de ensino do Dharma implica que um aluno faz perguntas a um professor. Nesta etiqueta não há espaço para um debate tipo "discordo" " concordo", o que há é um esforço para esclarecer as dúvidas sobre o Dharma.
2) Não tem, para quem ensina o Dharma, nenhuma importância se as idéias são aceitas ou não, ou se alguém se afasta do budismo porque algo no Dharma não parece satisfaze-lo, tempo não faltará para que tudo se esclareça... O Dharma não será modificado por motivos de preferências pessoais e ele tem uma história razoável de 2600 anos de enfrentamentos filosóficos, sobreviver a este teste de muitas mentes brilhantes é um motivo para desconfiarmos de que há sólidos raciocínios a embasar cada declaração.
3) Desta maneira o esforço de anos de alguns professores de responder milhares de mensagens em listas e perguntas em público implica que ao perguntarmos nos colocamos na posição de saber o que o Dharma expõe. Não há , por parte dos professores que conheço, o desejo de defender alguma posição particular e pessoal, por este motivo ouvimos, aceitamos ou não, livremente, mas não tratamos de negar um ponto contrário ao Dharma. Isto seria negativo para a prática, do ponto de vista do zen em especial, pois significa a defesa de opiniões, e este desejo é considerado um dos mais negativos e geradores de mau carma, assim os professores não devem incentivar tal tipo de debate.