segunda-feira, 18 de abril de 2016

As pessoas não sabem mais o que é felicidade




Monge Genshô:  Este lugar onde estamos aqui é o samsara, e este lugar onde estamos aqui é o nirvana, só depende de quem está olhando, e quem está olhando pode achar maravilhoso  uma mesa com pão e frutas, isso é maravilhoso, mas  se a pessoa tiver a mente errada, mal treinada, ela vai olhar e dizer: “eu queria estar num lugar onde servem caviar, eu queria alguma coisa muito especial, eu quero tomar um vinho de 6 mil a garrafa”, e só assim ele acha que teria alcançado algo, mas todas as pessoas que alcançam este  nível vivem grande insegurança, por que tudo aquilo que você tem pode ser perdido, porque não é interno, está tudo do lado de fora e inevitavelmente vai ser perdido porque um dia, até você que é o possuidor, vai morrer, e a família vai brigar pelo dinheiro que sobra e os filhos vão processar uns aos outros e  coisas assim que eu vejo frequentemente no mundo empresarial.

As pessoas assim perderam a noção do que tem valor na vida. Não sabem mais o que é felicidade.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Samsara é o mundo das comparações




Monge Genshô: Uma vez eu fui a Mônaco, um lugar onde moram  pessoas muito ricas diferentes de um viajante economizando, no porto havia um iate de 20 metros. Aqui, um iate de 20 metros é de um milionário, o sujeito tem um iate sensacional, mas ali em Mônaco não é nada porque do lado tem um de 100 metros,  tem quase transatlânticos de Sheiks Árabes, alguém gastou uma fortuna enorme para mostrar para os outros bilionários. Então para ser mais sensacional que o outro, manda colocar torneiras de ouro nos banheiros ou qualquer coisa assim. Este é o mundo do samsara, de comparações, ele não cessa e as pessoas que baseiam suas vidas nisso sempre são insatisfeitas, o mundo do samsara é um mundo de insatisfação.

Agora o nirvana é o local sem paixões, sem ventos, não tem mais o vento de uma paixão ou de uma ambição movendo você, então aquilo que você tem  já é maravilhoso. (continua)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Casamento à beira do mar


Dia 9 de abril, na Praia Brava em Florianópolis, o casamento zen budista de Francine e João David. A cerimônia zen budista se caracteriza pela ênfase na emoção e na promessa, são os noivos que lêem um para o outro seu juramento pessoal. Neste em particular o mar como fundo propicia excelentes metáforas sobre a vida, o tempo, a transitoriedade e o amor profundo.
Mais sobre casamentos zen budistas em http://casarzen.blogspot.com.br/

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Livro para iniciantes budistas

Este livro foi escrito pensando em, sob forma de ficção, ajudar praticantes budistas a conhecer o zen e suas práticas tais como realizadas, para leigos, em um retiro. Para adquiri-lo basta escrever para   http://daissen.org.br/contato/





Descrição

A verdadeira viagem não é feita com os pés, mas com o coração e a alma. No decorrer dos milênios, homens e mulheres cruzaram fronteiras, navegaram os mares e subiram montanhas, e muitos deles procuraram não apenas a aventura das paisagens diferentes e excitantes, mas também se interessaram pelo que iriam encontrar a respeito de si mesmos. A viagem interior deverá ser longa, profunda e sujeita a incertezas. (...)

Petrúcio Chalegre, consultor de empresas renomado, conhece bem o olho do homem ordinário, tendo participado ativamente, durante décadas, no mundo dos negócios, com suas paixões e ambições, competições e sofrimentos, como um consultor responsável por trazer o equilíbrio necessário. Genshô, o monge do budismo zen, tem praticado o caminho do Buddha durante décadas e dirigido uma comunidade devotada à disciplina e à beleza dessa forma japonesa do Budismo. Agora os dois se juntam para escrever um livro sobre alguém comum, Ido, alguém como qualquer um de nós, envolvido nos caminhos do mundo, com suas alegrias e dificuldades, mas que um dia resolveu sair.

(...) Nós andaremos junto com ele, convivendo no ambiente zen budista de tranquilidade e desafio, participando de seu novo dia a dia à medida que tenta mudar de vida. Nesse caminho teremos oportunidade de conhecer o cotidiano numa comunidade budista, desde o amanhecer até a hora de dormir. Ouviremos conselhos, frases sábias dos superiores do mosteiro e saberemos como Ido superará as dificuldades. Mais importante, poderemos viajar com Ido também para nosso próprio interior e dar os primeiros passos para a transcendência.

Ricardo Sasaki
Diretor do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda
Dhammacariya Dhanapala
Mahasadhammakotikadhaja




Samsara e Nirvana são modos de ver as coisas



Aluno - Parte do caminho de ver as coisas como realmente são, também passa pelo fato de compreender este ciclo, do samsara de vida e morte. Eu me pergunto, esta insatisfação seria uma desistência da vida como ela é aqui?


Monge Genshô - Não sei se entendi bem onde você quer chegar, mas é bom nós compreendermos que samsara e nirvana são modos de ver as coisas, aqui no nosso mundo diário, samsara é o mundo da perambulação onde você procura a felicidade em coisas diferentes, você vai procurar uma coisa e depois outra e depois outra e nunca está satisfeito, nós procuramos novos amores, novos empregos, procuramos trocar de carro por que eu vou ficar feliz se eu trocar de carro. Isso eu ouço muito.

Eu tenho um amigo que cujo objetivo é ser bilionário. Ele acha que vai ficar feliz quando for bilionário, porque a mãe dizia a ele que um homem sem dinheiro não é nada, então ele só pensa em ganhar dinheiro e acha que quando alcançar este número, quando tiver um bilhão, ele será um homem feliz e realizado, isto é típico do mundo do samsara, mas, quando alcançar, vai ter um outro problema porque na lista da Forbes, quem tem um bilhão é um bilionário fraco, porque tem gente com 100 bilhões. Ele será pobrezinho no meio dos bilionários. (continua)

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Nós somos movimento cármico


Monge Genshô: Nós somos movimento cármico que levanta poeira de manifestação. Nós estamos aí, nos manifestando, temos uma aparência visível. O redemoinho também tem uma aparência visível por causa de toda a poeira que ele levanta. E no centro de todo esse movimento um eixo aparente, e nós chamamos esse eixo de EU. E dizemos 'eu sou'. Mas esse 'eu' do 'eu sou' do redemoinho é vazio de existência própria. Isso é que quer dizer o vazio, todas as coisas são vazias, vazias de que? De existência própria. Todas elas são interdependentes, interconectadas, nenhuma delas tem existência por si mesma. E o EU, que é o centro de todo esse movimento, auto-consciente da sua existência, diz 'eu existo', 'eu tenho existência inerente'. Nós pensamos 'eu tenho existência inerente'. Mas nenhuma coisa no universo tem existência inerente, todas as coisas são vazias. Quando nós paramos o movimento de redemoinho, o que acontece com o eixo? Não existe mais eixo. Na verdade o redemoinho se manifesta na atmosfera. Então o redemoinho nada mais é do que a atmosfera em movimento, e o eixo nada mais é do que a aparência provocada pelo movimento dentro da atmosfera. Então, no fundo, nós não podemos dizer que o redemoinho é a atmosfera? (continua)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Voz de Budha


Monge Genshô: O latido dos cachorros é a voz de Buda. Todos os sons são a voz de Buda. São manifestações possíveis dentro deste universo. Quando dizemos 'a voz de Buda' estamos dizendo a palavra Buda num conceito diferente, muito abrangente. É o grande ser, que é o universo inteiro, a vacuidade, tudo aquilo que se manifesta como forma. Ora, os cães, os latidos dos cães, são forma. Os cães são forma, o latido dos cães são forma.  A questão, no fundo, é: por que nós não ouvimos os sons de Buda? Por que nós não ouvimos a voz do grande ser?  Por que não ouvimos essa voz? Não ouvimos essa voz porque nossa mente não para e está perdida no redemoinho da sua própria manifestação.

Redemoinho é uma excelente metáfora. Ela me ocorreu um dia por causa do seu eixo. Imaginem um redemoinho girando. Ele é movimento. E esse movimento de ar suga poeira do solo e outras coisas e assim ele se torna visível. E você vê o redemoinho no ar, e o redemoinho tem um eixo. Todos os redemoinhos têm um eixo. Os furacões são nada mais do que grandes redemoinhos, e têm um eixo, o olho do furacão. E tudo gira em volta daquele eixo. Esse eixo é uma aparência, só é visível porque tem coisas girando em volta. O eixo em si, ele por si mesmo, não existe, ele é vazio, vazio de existência própria, ele não tem um eu inerente, o eixo do redemoinho não pode dizer 'eu sou' o redemoinho. Ele não pode dizer isso. Alguém pode perguntar 'o eixo existe ou não existe?'. Ele existe. Mas também não existe, por não ter existência própria. Na verdade, cada um de nós é como um redemoinho.(continua)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Sentamos todos juntos, todos um com o outro



Aluno: Como conseguir meu insight?
Monge: Bom, aqui um grande engano, porque quando você senta, não é para você ter “o meu insight”. Nós sentamos todos juntos, todos um com o outro. Quando o outro se move não é ele que se moveu, todos nós nos movemos e a sangha se moveu. Você não pode pensar “eu fiz, eu penso, eu procuro o despertar”, porque se você procurar o despertar não existe nenhum despertar de um eu, por isso que é aquele dito: Estudar o Zen é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Você tem que esquecer de você e ser um com os outros. Você não consegue abraçar alguém, e estou conectado com ele, eu e ele. Não é isso. É “eu e ele somos uma coisa só, a dor dele é a minha dor, a felicidade dele é a minha felicidade, somos todos, uma coisa só”. Deixe a visão de eu pela visão de unidade, é por isso que tantas práticas no budismo para isso, não é você sentado aqui, e o pássaro cantando lá fora. Você é o pássaro. Você é o canto. Não existe uma separação entre mim e ele, por isso você não pode depois sair, pegá-lo, matá-lo e levar para o refeitório para a gente comer, porque isso não se pode fazer, porque aí você criou a separação mais absoluta possível. Por isso que quando você come separa um pouco de comida, para dar para ele. Para comer junto com os outros seres. Toda a prática é cheia dessas mensagens, não pense “eu”, pense unidade. (continua)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O jejum no Zen Budismo



Aluna: Existe a prática do jejum no Zen?
Monge Genshô:
Há mestres que recomendam o jejum para os monges como prática para curar as doenças, mas como nós praticamos todos juntos não é permitido você fazer jejum no sesshin. Existe um mestre no Japão, num local onde esteve meu mestre, onde eles fazem jejum de 10 dias, e eu vi Saiwaka Roshi fazer esse tipo de jejum,  tem certos riscos você passar 10 dias só bebendo água, você precisa estar bem para fazer isso, e o problema não é tanto o jejum, os dias de jejum, é a saída, voltar a comer, como retornar a essa vida, isso tem que ser cuidadoso, etc. Mas jejuns de 1 a 3 dias não são complicados. Porem não faça jejum de mais de 1 dia sem beber água. Uma técnica fácil é fazer de uma janta até a outra janta, são 24h. Você jantou de noite, e não comeu todo o dia e janta no dia seguinte, o efeito geralmente é maior sensibilidade, você fica mais emotivo, mais sensível. O cérebro é muito plástico, à medida que você cultiva determinados sentimentos, eles se reforçam. Isso funciona para o bem e para o mal. Você pensa constantemente em raiva, você se torna cada vez mais raivoso. Se você expressa, mais ainda. Se você age, mais ainda. Mas isso também vale para compaixão, amorosidade, como todas as emoções positivas.

Mas se você quer que seu cérebro mude, você tem que cultivar e prolongar as coisas positivas. Ontem, eu falei,  cuidado com o que você vê. Você está alimentando a mente, e acaba colocando para fora o que você “ingeriu” de informação. Então você tem que tomar cuidado com o que faz, e pode nutrir a mente através do cultivo das emoções positivas, das coisas boas.

Às vezes, as pessoas dizem: “o budismo parece que cultiva a indiferença, falta de desejo, então a pessoa vai ficar uma pessoa insensível”. Nada disso! Tudo que eu conheço dos mestres Zen é o contrário como vocês já devem ter percebido, às vezes até atrapalha, porque você se emociona demais, mas é resultado de você cultivar sentimentos de gratidão, compassividade, amorosidade com as pessoas. (continua)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Ninguém será colocado numa gaiola

Monge Genshô: Vocês já devem ter notado no Zen, como é a postura que eu ensino nas sanghas: Veio, que bom que você veio, está aqui com a gente e sentou. Não veio mais, está bem, não tem problema nenhum, não telefonamos para a pessoa para dizer “por que você não vem mais?”. Alguém já recebeu telefonema assim, não? Porque isso é errado. Se daqui há 20 anos ele voltar para o Zen para praticar porque aquela prática é interessante para ele agora, se for em outra vida que ele sentir simpatia pelo budismo, está bom, não tem importância nenhuma. Vai e volta, como os pássaros, é bonito quando ele passa e você vê, ninguém será colocado numa gaiola, nós não temos isso, por isso não tem conversão, não tem cerimônia de conversão, batizado, não tem e quando alguém senta e diz eu gostaria de fazer um rakussu, um voto, ele pode perfeitamente receber a resposta: - espere mais um pouquinho, pense mais, se dê tempo.
 E quando alguém pede para ser monge, a resposta é invariavelmente não, comigo também foi assim, na primeira vez que pedi para ser monge me disseram “não, não vejo porque você quer ser monge”. Tive que esperar 1 ano, voltei e pedi de novo. “É a segunda vez que você está pedindo?”. É a segunda vez que eu estou pedindo. “É não.” Peça de novo, ano que vem. Aí, eu esperei passar mais um ano. Pedi, aí que ele concordou. Monja Sodô esperou 4 anos. Depois de 2 anos, ela perdeu a paciência e me disse algumas coisas, eu ouvi. Depois, ela voltou e pediu desculpas. Disse que fez a coisa errada, etc e tal. “Eu posso ser monja?”. Eu disse “mais 2 anos”. Então ela esperou 4. Aí ela está no mosteiro no Japão, feliz, maravilhosa. (continua)