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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Koan


Palestra Proferida por Monge Genshô
Sesshin de Carnaval: 17 a 20 de fevereiro de 2007
Título: Comentários sobre Teishôs de Taizan Maezume Roshi
Tema: A árvore sem raiz
Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô



Taizan vai falar sobre koan.
Muitas pessoas pensam que a escola Soto Zen não usa koan,isto é um engano. A diferença é que a escola Rinzai põe ênfase nos koans. E a escola Soto põe ênfase no shikantaza, a meditação sentada, e deixa o koan como uma coisa auxiliar. No entanto, os mestres Soto costumam usar koan. Aquela pergunta quem é você? Não é um koan,aquilo é umhua-t''ou (jap. watô). É outra técnica, questões que pressionam. Mesmo os praticantes que estão há anos praticando têm muita dificuldade para responder essa pergunta de forma satisfatória.
Koan significa caso público, caso registrado. É um diálogo entre mestre e discípulo, que foi registrado, sobre o qual você pode pensar e tentar responder. Por exemplo, os discípulos estavam disputando por um gato. Normalmente não existem ou não é para existir animais de estimação nos mosteiros, mas de repente aparece um e é adotado. Então, havia um grupo de monges no mosteiro disputando um gato. O mestre chegou na sala, pegou o gato, levantou-o no ar, tirou a navalha que serve para cortar a barba e disse:digam uma palavra Zen e o gato se salvará. Um monge falou: o gato é meu, o outro: compaixão! não mate o gato! O mestre cortou o gato ao meio. Isto no budismo é absurdo. Mas, ele matou, assumiu o risco de fazer isto em benefício de muitos outros seres porque até hoje estamos falando nisso. À noite chegou um monge que estava viajando. O mestre relatou a história. O monge pegou as sandálias e as colocou sobre a cabeça e saiu, e o mestre disse: se você estivesse aqui teria salvado o gato. O koan é assim: me diga o que você teria dito para salvar o gato. Até hoje eu vi uma pessoa que salvou o gato, metaforicamente. Ele levou um ano tentando,mas conseguiu. É como a resposta quem é você? Se alguém dá uma resposta que ele aprendeu filosoficamente, na hora você vê que esta resposta é uma resposta só da sua cabeça.Traga-me uma resposta das suas entranhas. E esse é um dos problemas do koan porque originalmente aconteciam  diálogos entre mestres e discípulos, na época de ouro do Zen, e eram muito fortes estes diálogos, verdadeiras as respostas. Com o tempo isto foi sendo escrito e tornou-se caso público como essa história do gato  que eu estou contando. Mas vocês não estavam lá nem estavam disputando o gato. Então não era a sua vivência pessoal. É agora uma referência a um caso passado.
O melhor koan é o koan da vida da pessoa, mas precisa um professor realmente bom para isso. Então de certa forma burocratizou-se, institucionalizou-se o koan e começou-se a ter respostas codificadas e isso foi o enfraquecimento da escola Rinzai porque precisa muito bom professor para lidar com este problema. Tem que brigar com o aluno e precisa um  aluno forte também, um aluno que pode ser esbofeteado. Quando Dogen foi para a China, ele tinha sido criado, era monge desde os doze anos de idade, na escola Tendai ou Tientai que é uma escola do Vajrayana japonês. Hoje a grande corrente Vajrayana que nós conhecemos é a Tibetana. Mas existe o Vajrayana japonês como as escolas Tendai e Shingon. Então Dogen quando chegou na China ele viu um Rinzai decadente, modificado, não gostou e foi procurando até encontrar Tendo Nyojo que representava a Escola Caodong de Zen, que é a escola Soto, uma escola que se originou do sexto patriarca (em nossa linhagem) da China. (Comentário de Monge Genshô)
(continua)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Contar é estratégia inicial no Soto Zen


(Cerimônia de Jukai, praticantes fazem votos tradicionais perante um mestre e a comunidade)

Pergunta: Quando faço zazen começo contando a respiração e me parece que ela modifica um pouco, na Índia há mestres que proíbem a contagem...
Monge Genshõ: Contar é uma estratégia inicial para ter um foco. Na Índia há um milhão de diferentes abordagens. Na Escola Soto Zen nós sentamos, começamos com uma respiração abdominal, começamos com uma respiração profunda, proposital, umas três vezes para esvaziar os pulmões. É possível fazer assim também (inclina o corpo para a frente, relaxando). Essa última técnica  Saikawa Roshi ensinou. E depois disso não ficamos tentando fazer uma respiração especial. Saikawa Roshi mesmo me comentou que algumas técnicas de respiração podem provocar efeitos muito perturbadores. Nós podemos dar explicações fisiológicas para isso também. Se vocês quiserem tentar uma respiração assim...(profunda e rápida) dentro de 20 segundos estarão tontos -hiperventilação. E continuando mais um pouco podemos ter alucinações. Isso é possível conseguir simplesmente com hiperventilaçao e dá mal estar generalizado no corpo. Isso muitas vezes acontece com pessoas que estão muito nervosas e começam a respirar (ofegantemente) e se sentem muito mal, nauseadas. Para corrigir a gente dá um saco de papel para colocar no rosto e diz - respire aqui dentro. E a pessoa nervosa respira um ar viciado dentro do saco e começa a se sentir melhor muito rápido também, porque o que havia era excesso de oxigenação no sangue – hiperventilação. Então, voltando para o zazen, isso que eu acabei de explicar é unicamente fisiológico. Às vezes coisas que são fisiológicas são usadas em práticas ditas espirituais para fazerem as pessoas acreditarem que a prática em si tem algum valor. É só um efeito químico no caso.
No zazen simplesmente esvaziamos e depois deixamos que esta respiração que é natural, é a maneira como os nenês respiram, se estabeleça. Relaxamos o abdômen e respiramos assim porque esta é a respiração natural. Com roupas apertadas, cintos, tensão nervosa, as pessoas às vezes estabelecem a respiração levantando os ombros o que provoca dores nas costas e é uma respiração pouco efetiva, há partes do pulmão que colapsam, deixam de funcionar.
 Não basta praticar zazen, fazer práticas espirituais. Você tem o corpo como instrumento e deve fazer atividade física. Os monges durante muitos séculos tinham que trabalhar no mosteiro, trabalhar na lavoura, rachar lenha, carregar pedras, então não precisavam uma atividade física especial. Então as pessoas faziam exercícios naturalmente. No último século nós fomos ficando muito sedentários, tudo ficou muito fácil e isso está prejudicando esse aspecto dos nossos corpos, embora a saúde em geral tenha melhorado por causa da melhor alimentação etc. Mas os monges Zen nos mosteiros com alimentação frugal, correta, com trabalho e meditação, tornaram-se famosos por sua longevidade com lucidez. Longa vida lúcida. Já falei tantas vezemas nosso atual superior na ordem Miyazaki Zenji abade do mosteiro de Eihei-Ji está com 106 anos(nasceu em 1900)  e está ainda como abade e em atividade. É claro, é um caso excepcional. Joshu (um famoso mestre Zené tido como vivido 116 anos e quando ele estava morrendo um aluno perguntou: mestre diga-nos alguma coisa. Ele disse: eu não tenho nada para dizer. Mas diga-nos alguma coisa. Ele disse: - a vida é um sonho - e morreu. Cento e dezesseis anos.

 (Miyazaki Zenji morreu em 2008 com 108 anos, o texto desta palestra é anterior em dois anos)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Escola gradual e escola abrupta


P. Fala-se muito nos textos na questão de iluminação, mas é o caminho do passo a passo, no momento que começa a sentar e meditar e vai tendo um progresso...
R. Duas abordagens, existe abordagem gradual e abordagem súbita ou abrupta então no Budismo nós temos os dois tratamentos, a escola Soto é mais conhecida pelo seu treinamento gradual, é a nossa, treinamento seguro e calmo, a escola Rinzai é conhecida pelo seu tratamento abrupto, koan, pressão, pressão mesmo, dura, kyosaku é aplicado de frente, senta-se de frente para a sala não para a parede, entrevistas com o professor até cinco vezes ao dia, com grande pressão, gritos etc com a intenção de quebrar o ego, insultos, idiota, imbecil, saia daqui, vá sentar de novo, não me venha aqui sem uma resposta, aí os alunos mais velhos vão até o aluno novo na hora da entrevista com o mestre, mas eu não tenho respostas ainda, eles pegam pelos braços e pelas pernas e jogam para dentro da sala do mestre. Um monge que  treinou num mosteiro Rinzai me disse que o kyosaku era aplicado de uma forma tal que quando ele ia tirar a roupa ela estava grudada com sangue na pele, então é outro processo, esta é conhecida como escola abrupta.  Ele diz assim:  "vocês não podem acreditar o que acontecia na sala de meditação" e esta cena de pegar pelos braços e pernas e jogar aconteceu com ele, depois mestres como Yasutani Roshi vieram para o ocidente e misturaram um pouco o Soto com o Rinzai, estão usando koans, mas com uma prática não tão rígida e na semana passada eu estive com uma amiga que é mestre Rinzai da Escola Son Coreana   que descende de Lin Chi, ele tem a mesma forma de prática, os kinhin são rápidos, senta-se de frente para a sala, eu já fiz retiro com ela, mas existe esta pressão mesmo do koan, o mestre usa bastão, ameaça bater com bastão em você na entrevista e mesmo fizemos uma prática que não existe praticamente no Soto, que é quando o professor vai embora os alunos ficam na sala até a manhã seguinte, zazen sem parar nem dormir, não agüenta mais, faz kinhin, volta para a almofada, sem intervalo, sem refeição, sem nada, até a manhã seguinte, aí na manhã seguinte começa às  quatro horas o sesshin normal de novo, tudo e não teve sono. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Morte do Zen budista e vegetariano Steve Jobs


Faleceu há algumas horas, com 56 anos, nos EUA, o zen budista Steve Jobs, por duas vezes líder inconteste da Apple, foi ligado a Kobun Chino Otogawa um monge da escola Soto Zen, tentou domar um temperamento irascível e tão exigente que levava ao desespero seus colaboradores, ao mesmo tempo é cultuado como um realizador brilhante que com sua obsessão por produtos ideais mudou a face do mundo moderno.
Sua empresa lançou novidades que as pessoas sequer sabiam que queriam, produtos que se tornaram a seguir ícones do mundo digital, este sucesso guindou a Apple ao posto de uma das empresas mais valorizadas da terra.
A contradição aparente entre sua vida de CEO e empreendedor com sua ligação com o budismo aparecia em sua simplicidade na vida pessoal, seu hábito de andar descalço mesmo comprando no supermercado, seu vegetarianismo que partilhava com sua espôsa mãe de 3 dos seus filhos ( teve uma filha com uma namorada anteriormente) e a seu desapego por móveis suntuosos. Ele fazia o que queria, lutava por um resultado brilhante, mas não por enriquecimento em si e sim porque era o que desejava fazer, trilhava seu caminho sem se importar com a opinião alheia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Jöriki


P: Se estivermos ao ar livre, podemos fazer Zazen igualmente? Por que meditamos em frente à parede?

R: Podemos sim, e as vezes se faz isto nos mosteiros, exige melhor concentração. A parede tem a vantagem de diminuir os estímulos ao máximo possível, é uma prática mais dura. Na escola Rinzai usa-se meditar de frente para o centro da sala, é mais ameno e adequado para principiantes, mas na Soto zen não se faz esta concessão.

P: Outra pergunta: o que é jiriki? Vi num site que o "jöriki" é uma decorrência natural do Zazen, mas não é o Zazen. Só que não diziam o que era Jöriki.

R:
"The Encyclopedia of Eastern Philosophy and Religion":

"Jöriki: literalmente, "poder da mente"; aquela força particular que surge da mente concentrada e que é produzida através da prática do zazen. Jöriki torna a constante presença da mente possível tal qual a habiliadde, mesmo em circunstâncias adversas, de fazer a coisa certa. Segundo Yasutani, aquele que desenvolve o joriki deixa de ser um escravo das paixões (...), mas enquanto o jöriki traz poderes espetaculares, este não conseguem romper as raízes de nossa visão ilusória do mundo."


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Koans nas diferentes escolas zen




O papel dos koans no Soto, Rinzai, e outras escolas.

Concentrar-se em koans durante a meditação e outras actividades é particularmente importante entre praticantes da seita Rinzai do Zen. No entanto, o estudo da literatura de koans é comum a ambas as escolas, Soto e Rinzai. Há um equívoco comum de que as escolas Soto e afins não usam koans, mas muitos praticantes Soto são de fato muito familiarizado com koans.

De fato, a seita Soto tem uma forte ligação histórica com koans. Muitas coleções de koans foram compilados por sacerdotes Soto. Durante o século 13, Dogen, fundador da escola Soto no Japão, citou cerca de 300 koans compilados no volume conhecido como o Grande Shobogenzo. Outras coleções de koans compiladas e anotadas por sacerdotes Soto incluem a Flauta de Ferro (japonês: Tetteki Tosui, compilado por Genro em 1783) e Versos e comentários sobre casos centenários de Tenchian, (Japonês: hyoju Hyakusoku Tenchian, compilado por Tetsumon em 1771). No entanto, de acordo com Michael Mohr, "a prática de koans ... foi amplamente expurgada da escola Soto através dos esforços de Gento Sokuchu (1729-1807), décimo primeiro abade de Entsuji, que em 1795 foi nomeado abade de Eiheiji." 6, P245.

Um número significativo de pessoas que meditam com koans são afiliadas à seita japonesa Kyodan Sanbo, e a várias escolas resultantes da seita na América do Norte, Europa e Austrália. Sanbo Kyodan foi criada no século 20, e tem raízes tanto na tradição Soto como na Rinzai.

(Texto traduzido do Inglês por Monge Genshô)