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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Não existe a ego-entidade



(Continuação) No meio da assembleia estava o venerável Subhuti: “venerável Subhuti ergueu-se, descobriu o ombro direito”, por isso também usamos o manto com o ombro descoberto, essa é uma demonstração de respeito, “depois ajoelhou-se e solicitou a Buda que os instruísse sobre quais critérios eles deveriam agir e como deveriam corrigir seus pensamentos”. Isso é muito interessante para nós, porque vocês se sentam em zazen com suas mentes, seus pensamentos e devem agora, depois de algumas sessões de zazen, estar pensando: “eu estou fracassando, não consigo nada”. Buda disse: “muito bom, Subhuti, o Tathagata está sempre atento a todos os bodhisattvas, protegendo-os e os instruindo bem. "Agora escuteis e guardeis minhas palavras no coração, eu irei declarar-vos quais critérios os bons homens e as boas mulheres que buscam a realização do incomparável esclarecimento devem agir e como eles devem corrigir seus pensamentos”. Então, Buda continua: “Subhuti, todos deveriam disciplinar seus pensamentos do seguinte modo: por mais vastos, incontáveis e imensuráveis que sejam os números dos seres que tenham sido liberados, em verdade nenhum ser foi liberado. Por que é assim? É assim porque nenhum bodhisattva, que seja um real boshisattva, aprecia a ideia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser ou uma individualidade separada”. (Continua)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Fique no Presente



Aluno – Os rituais, o transe, é zazen também?

Monge Genshô – Não. Na realidade, é uma maneira de você ser aquilo que está fazendo. É outra maneira de estar no presente. Eu sou a própria recitação, a recitação do conjunto das outras pessoas que estão recitando junto comigo. Eu sou aquele conjunto. Então, sendo o conjunto, você abdicou de si. A música tem muito disso: quando você toca numa orquestra, quando você canta num coral, existe essa sensação de conjunto, de estar fazendo tudo junto.

Aqui nós teremos uma coisa parecida hoje, quando formos fazer samu. Depois do almoço trabalhamos todos juntos, todo mundo faz um pouquinho, e nós vamos fazer uma porção de coisas para a comunidade, para o local onde nós estamos. Nós estamos trabalhando juntos, em conjunto. Esse “estar juntos” fazendo uma coisa que não sou só eu, diminui essa percepção de individualidade e nos dá a noção de conjunto. É outra forma de praticar.

A palavra “transe” aqui está sendo usada no sentido técnico, não é algo místico, é só um fenômeno cerebral. É um fenômeno cerebral que você usa para estar no momento presente, para abdicar dessas cogitações sobre passado e futuro, ficando só no presente. É uma técnica de treinamento, não é mais do que isso. Não é que o texto seja sagrado e produza efeitos miraculosos. Não, não é isso. Os efeitos são conseguidos através da própria técnica. A técnica é testada há mais de dois milênios, então está bem funcional, foram sendo introduzidas coisas com o tempo, marcações de ritmo que ajudam. Isso foram aperfeiçoamentos. Essas técnicas se consolidaram como válidas, não foram abandonadas.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Sem opiniões


Monge Genshô – É o primeiro zazen do ano. O que você gostaria que fosse falado?

Aluna – Não tenho ideia, monge.

Monge Genshô – Não ter ideia é uma coisa muito boa, pois na realidade o que acontece é que nós colocamos nossas ideias nas coisas. E esse fato de nós colocarmos nossas ideias nas coisas é o que mais atrapalha o ser humano. Saikawa Roshi costuma dizer que os peixes, os pássaros, os ursos, eles não tem problemas, eles conseguem viver a vida naturalmente, e quando chega a hora da morte, morrem, e não se angustiam com essas coisas, e só os homens realmente são tão angustiados, e por que? Porque os homens colocam as suas ideias nas coisas, suas interpretações.

Eu vejo muitas pessoas discutindo coisas como 'ah, é melhor beber água gelada porque o corpo tem que consumir calorias para aquecer a água, então a água gelada emagrece'. Aí vem outra pessoa e diz 'não, a água gelada faz mal para o estômago, você devia tomar sempre chá quente ou água quente, essa é uma crença comum no oriente, porque isso não perturba a digestão, e isso tem bastante sentido, se você beber algo gelado junto com a refeição o organismo tem que aquecer aquilo antes de conseguir fazer a digestão'. E as pessoas então começam a discutir um tema como esse e a discussão vai se tornando cada vez mais azeda até o momento em que alguém resolve chamar o outro de ignorante, tacanho, ou egóico, então as pessoas começam a lutar por causa disso. A melhor maneira a respeito disso é aprender a não defender ideias, opiniões. Se nós defendemos opiniões nós colocarmos nossa opinião nas coisas.

 Quando nós estávamos na aula de como colocar o rakusu um aluno perguntou 'ah, mas não pode ser assim de outro jeito?'. É natural, nós somos acostumados a ser instados a ter uma ideia própria. Nos EUA isso é muito mais forte. Como houve um grande cultivo da individualidade pede-se que o aluno tenha uma ideia, e isso na realidade tem um benefício, porque o fato de se instar as pessoas a terem ideias próprias faz com que haja criatividade, invenções, novas maneiras de fazer as coisas, então existe uma virtude nisso. Mas no pensamento do zen essa questão da individualidade foi levada tão longe no ocidente que começou a criar problemas para as pessoas, e estas então tem dificuldades ou infelicidades por causa disso.

Então eu vejo virtudes nessa questão da ideia própria, mas quando estamos treinando uma arte ela atrapalha. Quando se está estudando música, por exemplo, ou em qualquer arte, como aprender a cozinhar, e o aluno diz 'mas será que não é melhor assim, será que não posso fazer de outro jeito?' e fica interrompendo o professor a cada momento perguntando sobre uma outra maneira de fazer as coisas perturba seu aprendizado. No  zen, isso vai um pouco mais longe, não só não se espera que o aluno venha a apresentar uma ideia própria como se presume que ele tem que chegar com uma mente  completamente vazia. E ele  não tem que criticar nada, ou achar coisa alguma. O aluno vai chegar no mosteiro e se espera não que pergunte ou que peça explicações, mas que roube do mestre e dos mais antigos a maneira certa de fazer as coisas. Então a gente olha, observa e imita. E não pergunta nem o porquê, porque o 'porquê' vai vir depois. E o 'porquê' pode ficar muito obscuro durante bom tempo.

 Por exemplo: Dogen  costumava ir ao riacho que ficava perto de Eihei Ji e pegar um balde de água. Depois que ele pegava o balde de água ele derramava no riacho de volta metade do balde e levava só meio balde. Essa era uma prática espiritual em relação à água, aos recursos, ao que existe, ao que a natureza dá. E fica meio obscuro para um aluno que chega, que pode pensar 'mas se trouxe meio balde, por que não traz um balde inteiro?', 'então vai fazer duas viagens e trazer dois meios baldes? Isso na realidade é absurdo, isso não é eficiente'. Ele não sabe o que estamos procurando. Estamos procurando uma outra coisa completamente diferente. Há muitas coisas que no treinamento zen vão parecer absurdas à primeira vista. Então, o que o aluno tem que fazer? Simplesmente fazer do jeito que foi dito, sem pensar. Esta é a maneira de aprender. Depois que ele dominar aquela técnica, então chega o momento de ele poder fazer alguma alteração. Mas só quem pode fazer alteração é quem dominou a técnica completamente, não quem está chegando. Então no oriente, não se espera que o aluno pergunte, e muito menos que pergunte 'por que?', se espera simplesmente que ele quietamente faça conforme foi mostrado, e isso significa abdicar da sua opinião, abdicar do seu eu, e da sua maneira normal de pensar, e deixar para depois. E pode-se levar muito tempo para perceber por que uma coisa é feita de uma maneira e não de outra.

Você entendeu a resposta, ficou claro? Na sua vida como engenheiro não é para agir assim, na realidade tem que procurar outra maneira de pensar, outro modus operandi, outra maneira de agir, e no caminho espiritual  agir completamente diferente. A gente tem que saber mudar o modo, não é para levar este modo para a engenharia, pois na engenharia pode haver uma solução melhor, então a invenção é necessária, a mudança é necessária, o pensamento crítico é necessário, é necessário que esteja bem aceso. Mas quando estamos no caminho espiritual não é a hora para o pensamento crítico ou da invenção.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Vendo a natureza original


P. Quer dizer que somente o nosso consciente faria parte do fluxo do meio. A única preocupação que eu deva ter é lapidar, não posso lapidar o meio, mas eu tenho que participar dele e respeitá-lo, respeitar o fluxo do meio.

Monge Genshô: O que você pode alterar é o seu canal de interpretação, o seu programa, nós já temos os sentidos, os olhos, os ouvidos, nós percebemos o mundo em volta mas tudo isto é interpretado por programas cerebrais. Estes programas que nós temos na nossa mente são influenciados pelos nossos hormônios, eles nos dão mensagens e reagem de determinadas maneiras que nos estão incutidas pela nossa própria formação biológica, pela nossa cultura, por tudo que nós aprendemos. A questão é quão verdadeira é a nossa interpretação desse mundo através destes sentidos, não é? Nós olhamos uma fruta vermelha numa árvore e sabemos que ela está madura, não só nós, os macacos também sabem, isto está embutido na nossa programação há milhões de anos e nós gostamos da cor vermelha no meio do verde e quando nós vamos ao supermercado as embalagens são vermelhas, amarelas, de cores quentes porque elas usam este condicionamento que nós temos de nos sentirmos atraídos pelas cores que significam comida madura e doce, temos todos estes condicionamentos dentro das nossas mentes e tudo isto nos impede de ver a realidade tal como ela é. É útil isso? Sim, é útil, serve para nossa operação no mundo, assim como nosso corpo serve para nossa operação no mundo, mas a clareza da mente original não é esta interpretação condicionada. Ela está além disto, quem está sentado aqui pode ouvir a cigarra e pensar ah, eu associo as cigarras com o natal e daí o som das cigarras me faz feliz, e outra pessoa, eu associo cigarras com insônia, com uma experiência desagradável que eu tive numa fazenda onde eu fiquei e aquelas cigarras me incomodavam e quando ouve cigarras se sente incomodado, onde está esta interpretação? O som em si não está na mente, só a interpretação.



P. Voltando um pouco, aceitar o outro é fácil, o problema está em a gente se aceitar...

R. Acho que são dois problemas, não é? Sartre escreveu uma frase famosa que era: o inferno são os outros. É uma frase do existencialismo. E do outro lado também nós olhamos para nós mesmos e sentimos coisas assim e às vezes para escapar da própria vida tem gente que se suicida, se mata, não aceitação extrema, e às vezes a não aceitação do outro leva a que? Ao crime, a morte do outro etc. Ora, a questão é que estas aceitações em si não são diferentes, tanto faz os outros ou eu porque esta distinção também é uma distinção falsa e ela só existe porque nós acreditamos nesta individualidade e é por isto que a gente sofre tanto com a perspectiva da morte porque nós acreditamos que isto é o fim de uma coisa preciosa que é a nossa individualidade. Imaginem cada um de vocês no seu leito de morte, pensem um pouco, estou ali e vou morrer. Esta perspectiva nunca parece agradável e a humanidade tenta arranjar alguma fantasia para escapar disso e estamos cheios de fantasias nas nossas culturas para escapar desta realidade da morte. A principal delas é a existência de uma alma que sobreviva a morte e que seja eu mesmo e que este corpo seja só uma casca e aí então está tudo solucionado porque eu passo a ser eterno e só morre o corpo e não tem problema ou eu ganho um outro corpo novinho em folha sem os problemas deste aqui que já envelheceu, mas eu continuo, sou preservado. Esta maneira de pensar é nada mais do que uma tentativa de escapar da realidade. O Budismo não olha as coisas assim, ele diz , não é isto, não é a morte que é um problema, é o nascimento que é um problema. Na verdade esta realidade última que nós estamos procurando encontrar na meditação está além de nascimento e morte porque se penetrarmos nesta realidade última, nesta natureza original não existe nascimento e morte, nem tempo, e tudo isto que nós estamos olhando aqui agora e queremos conservar, essa existênciazinha e este euzinho é apenas uma bolha, manifestação da realidade última. Nesta natureza original não existe isto. Penetrar na natureza original é tornar-se, em outros termos, a própria divindade, a própria vacuidade, além de tempo, além de espaço, além de início, além de fim e é por isso que quando a gente ouve isso pode entender claramente como é verdadeiro, porque não tem engano, não tem nenhum truque de dizer eu vou sobreviver a esta morte com a alma e o espírito, ir para o céu, o paraíso ou o inferno ou qualquer coisa assim, não é nada disto, a natureza original está além da própria existência deste universo tal como nós o vemos, tal como ele se manifesta. A nossa natureza original é ela que manifesta este universo e é isto que na realidade nós somos e sendo assim não há nascimento nem morte.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Individualidades


Mais uma sessão de meditação, Sesshin da Comunidade Zen Budista de Florianópolis.

P: Eu não entendo como todas as coisas são ilusórias mas existe uma realidade subjacente, mas sei que posso compreender se o senhor me explicar.

R: Existe uma realidade, porém você só tem acesso a ela através de intermediários, como as sensações e as interpretações de seu cérebro, seus conceitos etc...portanto tudo que você percebe é ilusório, transformado, um mundo de aparências.

P: Existe um texto em que Shiva fala: "Eu como por todas as bocas, eu respiro por todos os corpos, eu sofro por todos os corpos". Isto poderia se aplicar?

R: Não, porque há um Shiva falando, ele é também uma construção mental dos seus crentes.

P: É como se houvesse uma fusão de indivíduos, como se não existisse realmente individualidades separadas? É como se o eu que estivesse escrevendo esse texto fosse um outro você? O budismo aceita essa idéia de fusão de individualidades?

R: As individualidades são manifestações como sonhos, porque você a sente ela se manifesta em fenômenos como são nossos corpos, mas em termos absolutos ela é evanescente como uma bolha de sabão, não sobrevive à morte.

P: À medida que eu digo "Eu sou o universo", logo existem seres em outros seres do universo que tem a minha individualidade além de mim?

R: Todas as individualidades são ilusórias, o que realmente somos é a própria corrente de causa e efeito.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Carma e individualidade


Akiba Roshi, Mestre no Angô de Yokoji, sai do Hattô com seu oryoki.

P: Por que se retrata o corpo humano como altamente difícil de obter e o único útil para a transcendência?

R: Porque é uma condição em que estão presentes simultâneamente tanto o sofrimento quanto a possibilidade de entendimento, a dificuldade de obter um nascimento humano é uma questão de olhar a multiplicidade de manifestações cármicas em comparação com os nascimentos humanos.

P: Neste caso, considera-se que o carma permanece oscilando entre reino animal, reino dos deuses, etc e reino humano de forma aleatória, rodando, até que um dia surja o desejo por liberação? É completamente ao acaso? O carma não se desgasta seguindo uma lógica?

R: Parece que você retorna sempre a tentativa de ver o carma como individual ou como uma espécie de unidade, não é assim, somos produtos cármicos não indivíduos que carregam carma, mas existe parcela de influência cármica coletiva, de país, de época, de nosso planeta etc...a forma de manifestação de um quantum cármico depende de condições de amadurecimento para tanto, assim também as condições para o desejo de liberação. Os carmas tendem a se esgotar sim.

P: Pelo que tenho estudado, cada um de 'nós' somos carmas que têm perambulado eternamente, desde um momento que não tem início. Mas embora esses carmas individuais não tenham início, eles terão um fim.

R: Não, não são carmas individuais, manifestam-se como indivíduos mas não são indivíduos. Aí há uma compreensão linear do tempo, com início ou fim, este não é assim, na verdade, segundo Dogen, tudo é tempo condensado em um único ponto.

P: Como assim? Quando os carmas individuais são dissolvidos, no Nirvana, eles se juntam a outros carmas que estiveram perambulando eternamente em samsara?

R: Quando há Nirvana é porque o carma se esgotou. Não há nada a ser juntado, não há nada com que se unir.

domingo, 27 de junho de 2010

Qual a razão de existirmos?


Monges felizes em sua desimportância. Yokoji, angô 2010.

P: Qual a razão da atual experiência terrena, na qual gozamos ou experimentamos o que designamos de individualidade, neste estágio terreno de nossas existências?

R:Muito boa pergunta, qual a razão da existência? Note que a pergunta é em certa medida antropocêntrica, ou estás a perguntar qual a razão da existência das formigas, dos mosquitos, das pedras? A resposta é: nenhuma razão, somos fenômenos como as bolhas dentro de uma garrafa de refrigerante, gás carbônico que momentâneamente tem a forma de bolhas, que retornam ao que realmente são, gás carbônico, nada mais.
Queremos uma razão porque temos uma noção de importância própria, mas esta importância simplesmente não existe. Por isto criamos deuses, e céus permanentes que protejam nossa identidade, espíritos que continuem falando pela eternidade a fora, desejos de permanência do ego, nada mais. Nenhuma razão, somos fenômenos nada mais, por isto se diz no zen que não tenho nada para te dar, só uma bola incandescente para ser engolida, a verdade de que somos desimportantes como indivíduos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Alguem para retornar



P: Qual é a prova de que o Nirvana é eterno, de que existe este estado último, quando inúmeros agregados nascem e renascem constantemente formando a cadeia de samsara?

R: Eternidade não é um atributo de coisa alguma em um universo cíclico, Nirvana não é um lugar portanto nem podemos dizer que " existe" trata-se de um estado de esgotamento de energias cármicas, impulsos que levam a novas manifestações.

P: Pode-se ter a certeza do eterno, mas como se pode ter certeza absoluta de que não haverá mais enredamento nenhum, de nenhum nível, em samsara mesmo após o Nirvana?

R: Por definição Nirvana seria um estado sem enredamento, portanto se os há não se tem um Nirvana.

P: Por que mesmo um ser que alcançou o Nirvana não pode ser tomado de um estado súbito de inconsciência e 'esquecimento' e retornar ao samsara, sem se dar conta de nada?

R: Porque não existe isto de um ser, uma individualidade, só existem os impulsos cármicos, se um ser dissolveu-se no Nirvana ele está extinto, exatamente o caso tradicionalmente atribuído a Buda Shakyamuni.

P: O que refuta esta idéia? O que refuta a idéia de que estivemos alcançando a liberação e retornando a samsara eternamente, sem perceber nada? Neste caso, o Nirvana seria apenas um breve momento, que nenhum iluminado saberia identificar até onde iria.

R:Se alcançamos a liberação, a alcançamos simultaneamente de todo o conceito de ser um ser separado, um indivíduo, portanto não há ninguém para retornar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dogen e a individualidade


"Portanto, quando o grupo se senta, sente-se junto com eles; quando o grupo [gradualmente] se deita, deite-se também. Em atividade ou quieto, em unidade com a comunidade, por todos renascimentos e mortes não se separe do mosteiro. Destacar-se não traz benefício; ser diferente dos outros não é nossa conduta. Isto é a pele, carne, ossos e medula dos budas e ancestrais, e também abandonar nosso próprio corpo e mente."

Dogen ( 1200-1253)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O que acontece quando morremos?


"O que acontece conosco quando morremos?" perguntou uma mulher. "Se nós não vamos para o céu ou inferno nem renascemos em outra vida, o que acontece conosco?".
"Isso é o Ego falando" eu disse. "O ego fica pensando sobre si mesmo como uma criatura eterna. O ego habita no 'tempo' mas 'eterno' significa fora do tempo. Assim poderíamos também perguntar o que acontece com a gota de chuva quando cai em seu devido tempo? Muitas coisas podem acontecer; mas para nossas propostas, nós dizemos que em seu estado material, não é nem criada nem destruída e aceita que eventualmente retornará ao oceano. Nossa 'individualidade' como uma gota de chuva desaparece quando nos fundimos com o oceano mas nossa natureza como água continua a mesma ... nós retornamos à fonte, mas é uma fonte da qual nunca saímos."
"Quando nós reconhecemos que o ego não existe em qualquer sentido real mas somente como um artifício da mente, não há mais nada que precise de explicação e a noção de renascimentos é vista nada mais do que um jogo intelectual. A pessoa, como a gota de chuva, se funde ao mar e o Dharmakaya, um mar onde individualidade, em qualquer modo de concepção, está totalmente apagada. Se separa uma molécula de água do oceano em uma gota quando um de nós morre e outro nasce? Talvez sim, talvez não, mas é uma questão fora do Zen porque é intelectual. Quando tentamos usar o intelecto para agarrar a realidade nós sempre retornamos as mesmas limitações da mente. Se respondermos a questão intuitivamente, nós diremos que nunca houve separação entre a gota d'água e sua fonte".

Trecho de texto de Chuan Zhi Shakya, OHY
Tradução por Aluízio Leye Larangeira

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Individualidade e ilusão


Como o carma pode funcionar para cada indivíduo, se a individualidade é apenas ilusão? A parte que me causa problema é imaginar que a individualidade é totalmente ilusória. Se o que o que o senhor diz é a verdade, parece que se anularia a noção de progresso: o universo daria sempre no mesmo. Para que ter consciência se, na cena final, na vitória final,vai-se compreender que o ego e a individualidade são sustentados pela desejo ardente de defender o ''eu''? O ser consciente chega a essa realização e a consciência, com esse valioso conhecimento e com vidas de experiência, se apaga?

Muito interessante a pergunta. Até porque é exatamente assim que o universo parece se comportar. Ele não parece ser infinito. Se o fosse, quando você saísse ao relento, à noite ,o céu seria branco, reluzente como o sol, porque para qualquer ponto que você olhasse, veria uma estrela e, na infinitude, não haveria pontos sem luz.

Para o Budismo, os universos são cíclicos e múltiplos. Não se destinam ao surgimento de seres, simplesmente acontecem ''big bangs'' e colapsos finais em que tudo desaparece, ou em entropia, ou em implosões. Mesmo assim, tais explicações não importam ao Budismo, que não tem como objetivo dar explicações científicas, mas visa à libertação. Obtida esta, o próprio Budismo deve ser abandonado, como um barco que serviu para atravessar um rio.

O carma tem repercussões nas ondas de manifestação individuais, que não são o mesmo ''eu'', tal como a chama que acende uma vela não é a mesma chama. Mas, de outro ponto de vista é a mesma chama... Assim são as vidas, chamas que são passadas, sem individualidade, mas guardando suas características.

Os tempos universais têm progresso, mas ele não é contínuo e há retrocessos. Não tenho dificuldade em imaginar a onda de um criminoso nazista se manifestando em um cachorro sarnento em um país miserável por milênios, até que seu carma se esgote... Também basta colocar o pé na Alemanha para ver que os jovens alemães de hoje sofrem o carma que herdaram do passado de seu país. Temos o carma de nosso país, de nossa família, de nossa onda individual, de nosso planeta...

A unidade a que pertencemos tem tudo. Nós é que nos perdemos nesta pequenas e limitadas manifestações individuais. Nada há para ser perdido. Nem para ser obtido. A iluminação é libertação desse eu aprisionado, limitado, sem conhecimento. Um universo cessa quando seus carmas se esgotam, quando a energia se equilibra sem distinções. Querer guardar algo, obter algo para um eu individual é a cegueira básica que impede a iluminação.

A iluminação já está aqui, agora, só não a vemos porque a ilusão do eu deseja obter sabedoria, poder, vitórias, conhecimentos, mergulhando-nos em um sonho sem fim. É por isso que despertar desse pesadelo é que faz de um homem um Buda. Buda, afinal, quer dizer, Desperto, O que acordou.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Monge, como me livrar da identidade que me aprisiona?

Tenho repetido para mim mesmo que trocar minha identidade para a de um monge não resolve nada e apenas cria outra prisão. A única boa motivação é a voltada para os outros.
Este momento é realmente bom, um insight, porém ele é limitado, é evidente que o budismo é somente um método e um caminho de apoio, com Sangha, professor e etc... mas ele não passa disto e não serve para uma identidade "budista" de maneira alguma.
É realmente difícil enfrentar o fato de que estamos mergulhados nesta crença de individualidade e que sobre ela não devemos acrescentar mais coisa alguma, menos ainda adesivos de budista ou o que quer que seja a mais.
Mas nesses momentos devemos aproveitar a grande oportunidade do zazen, em especial não o largue, não cogite de nada nele, não se examine, apenas sente e deixe que tudo se aprofunde, faça isto mais intensamente agora. Lembre-se que a iluminação é uma grande espada, com ela você jogar o budismo fora, cortar a cabeça de seu mestre!