sábado, 21 de março de 2009

Como do caos pode brotar ordem?


P: Se não há um Deus que interfira, o que mantém a estabilidade da minha mente cotidiana? Como do caos, de um universo sem criador, sem mantenedor e sem objetivo, pode brotar ordem?

R: Olhe em volta, o universo é caótico, a ordem relativa surge do equilíbrio da luta entre miríades de forças, que elas sim, são bem delimitadas, mas um evento externo pode causar extensas extinções e aniquilar toda a vida de um planeta.
Desejamos que haja um “pai” substituto que cuide de nós, que mantenha a ordem, mas se você não cuidar de sua mente ela se transformará em um caos de forças sem controle, como acontece com os que se drogam, ou mergulham em ódios e raivas.
Você pode tentar encontrar apoio em uma fé qualquer, em um ser superior que lhe dite regras, sejam quais forem, mas isso não é a libertação, é o aprisionamento. Olhe a natureza, a ordem surge do fluxo da vida, não é uma ordem simétrica, é o que pode surgir do movimento, um flutuar que por si mesmo tem uma beleza indescritível, como os desenhos que as nuvens fazem nos céus.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Yoga para o zen



Exercícios baseados na yoga podem ser úteis para auxiliar na prática do zen. Ajudam a obter uma postura melhor e aliviam dores musculares provenientes da imobilidade. Yoko San, membro da Sangha de Florianópolis, ensina esta técnica para os amigos regularmente. Na foto praticantes zen de Florianópolis fazem esta atividade num intervalo de retiro com o auxílio desse instrutor.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O zazen pode me desequilibrar?




Todos estamos meio doentes por vivermos mergulhados em pensamentos e fantasias. O zazen nos devolve o equilíbrio de podermos acordar, em lugar de viver em sonhos, às vezes em pesadelos. O zazen é nossa mente original, a mente cotidiana é que é desequilibrada.

No entanto é bom saber que pessoas com problemas sérios devem antes ser adequadamente tratadas, a meditação é solitária, e nestes casos é preciso acompanhamento e intervenção constantes, que não são a especialidade dos centros de meditação e sim de profissionais de saúde mental.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Respiração


(As fotos do Rio Bonito são gentileza de Cássia)


P: Minha respiração fica muito superficial na meditação, que faço?

R: Durante algum tempo (isto é provisório) você vai prestar atenção na respiração, faça uma inspiração profunda, abdominal, e deixe que a expiração seja lenta, mais longa, mas controlada, expire até o fim e então deixe que surja a inspiração, teste isso até ser automático, depois deixe que uma respiração natural se instaure, ela vai ficar menos superficial.

terça-feira, 17 de março de 2009

O observador cria a realidade objetiva ou a realidade interna?


Não seria correto afirmar que projetamos um universo, mas sim que damos realidade interna a ele através de nossas interpretações, de modo que ele existe coletivamente mas é sutilmente diferente para cada um de nós, não tanto que não possamos partilhar impressões entre nós, através da literatura, por exemplo.

As coisas existem, o que elas não tem é um eu inerente, são vazias de um eu, vazio não quer dizer não realidade mas sim vazio de um eu.
Existem dois extremos que o Buda contestou, um o eternalismo, o outro o nihilismo, por esta razão o budismo ( principalmente na descrição de Nagarjuna, patriarca do zen e de outras escolas relevantes) é o caminho do meio entre estes dois extremos. Se você nega a existência objetiva torna-se nihilista se você afirma a existência eterna dos fenômenos torna-se eternalista, ora nem as coisas são eternas nem não existentes, elas são somente transitórias e percebidas distorcidamente dada a nossa mente classificatória e discriminativa. É calar este mente discursiva, julgadora, que permite a percepção pura, iluminada, ver as coisas tal como são (talidade).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Gasshô, reverência, prostração




Nas fotos vemos três formas, a prostração em que ajoelhado se encosta a testa e os cotovelos no chão elevando as mãos ao lado da cabeça, a reverência em gasshô que é inclinar o corpo a frente, gasshô: a postura de mãos unidas.


P:Por que fazemos as prostrações se não há "ninguém" (Deus, Buddha, etc) para observá-las? Qual o significado da prostração na qual levantamos as palmas das mãos?


R: Levantamos as mãos para receber os passos de Buddha, para que ele possa andar sobre nós. Isto é uma antiga história, em que narra-se que, numa vida anterior, um jovem encontrando um Buddha e havendo uma poça de lama no caminho, prostrou-se ao chão e levantou suas mãos para receber os passos de Buddha, este caminhou sobre o jovem e, voltando-se, predisse que 500 vidas mais tarde ele seria o Buddha de uma nova era, o jovem seria mais tarde Shakyamuni. Fazemos as prostrações para nós mesmos, enquanto acreditamos em nós, quando superarmos isso, de eu e os outros, todo o universo se prostrará junto conosco e Buddha poderá andar por toda parte.

sábado, 14 de março de 2009

Depois dos retiros


P: Sinto que perdi o "fio da meada". Quando voltei do Sesshim estava tão sensível. Parece que havia "tocado algo" grandioso. Agora estou mais "mental" do que nunca. O que será que aconteceu??


R: Para manter aquele estado, pós sesshin, você precisaria praticar mais meditação, não deixar cair, isso sucede com todos, alguns, com dois zazens diários, conseguem segurar os efeitos do sesshin, mas a isso precisaria acrescer uma prática cuidadosa dos preceitos, e também, um esforço contínuo de plena atenção durante o dia. Nenhuma das duas coisas é fácil, por isso os mosteiros acabaram existindo, para proporcionar um mergulho permanente e mais apoiado, tanto por cerimônias como por um ambiente especial em volta. Mas, de qualquer modo, isso é temporário no zen, e os monges devem retornar para o mundo em algum momento, não viverão num ambiente artificial para sempre.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O mais importante


Num sutra, o rei Hashinoku falava com a rainha:

- O mundo é vasto, mas a quem amas tu mais do que a ti mesma?

- Eu gostaria de dizer-te que te amo mais do que a mim mesma; na verdade, porém, é a mim que mais amo - respondeu ela.

E o rei replicou:
- Com efeito, eu também sou mais importante que qualquer outra pessoa.

Assim falavam eles. Falavam palavras justas mas, por causa dos eus do ego, não podiam chegar a um acordo. Decidiram, então, ir visitar o Buda Shakyamuni e contaram-lhe a conversação que tinham travado.

- É certo que vossas respostas respectivas não estão erradas - respondeu ele. - Afinal, todo homem se ama a si mesmo e cada qual é importante para si. Apesar disso não pertubeis os outros. Quando nos amamos demasiado a nós mesmos perturbamos os outros.

Taisen Deshimaru

quinta-feira, 12 de março de 2009

A liberdade do crer no zen


Um monge perguntou ao mestre:
- O senhor foi aluno do grande mestre zen fulano de tal, não foi?
- Sim
- E o senhor aceita tudo que o grande mestre lhe ensinou?
- Aceito metade e rejeito metade.
- Mas como?! Como o senhor rejeita metade do que esse grande mestre disse?
- Se eu aceitasse tudo não seria digno de meu mestre!

quarta-feira, 11 de março de 2009

A confiança


Trechos de entrevista para a Folha da Região (SP)

P: Por que o budismo é baseado na visão das coisas pelo conhecimento e compreensão, e não pela fé ou crença cega? É a compreensão que nos possibilita a confiança (baseada no conhecimento)?

R: Porque o budismo não é uma revelação ou algo vindo do alto, a sabedoria é acessível a qualquer pessoa que se dedique adequadamente à meditação, como ele é experiencial não necessita de uma crença.

P: Como as pessoas podem alcançá-la, mesmo nos momentos mais difíceis da vida, sem desanimar?

R: A vida se revela a cada passo, se assumirmos que é assim não precisamos desanimar, basta dar um novo passo e mesmo as coisas que pareciam negativas podem se revelar novas oportunidades e caminhos inesperados. Seguir caminhando é a essência da vida.

P: A partir da confiança é possível driblar e vencer os problemas? Como?

R: Ela permite que os problemas sejam enfrentados, se pensarmos que nada adianta a inação não nos tirará do lugar, permaneceremos no problema atual.

P: Qual a diferença entre confiança e esperança?

R: A esperança, em geral, aguarda que algo fora de nós nos ajude, depende então de uma fé, a confiança ajuda na ação, ou seja depende de nós mesmos alterar nosso carma, nada sobrenatural nos ajudará, só nós mesmos podemos fazê-lo. Esta postura é claramente zen budista, nem todas as abordagens budistas seguem este pensamento.

terça-feira, 10 de março de 2009

50 anos da ocupação do Tibete pela China

Nos 50 anos da ocupação chinesa vale a pena ler uma entrevista sobre a verdadeira situação dos budistas tibetanos: aqui

Presente aqui e agora


Às vezes se pensa que o zen é desligar-se do mundo, dos sentimentos, para isto uma boa história zen:

Um mestre zen ia, com discípulos, por uma pequena cidade, numa casa de subúrbio, um velório, as pessoas choravam um morto, ele entrou na casa, abraçou-se com as pessoas e chorou copiosamente. Uma hora depois ele saiu, o rosto inchado, e os alunos espantados:

- O senhor conhecia esta pessoa? Era seu amigo?

- Não..

- Então porque se emocionou tanto? Por que entrou lá?

- Ah! ... Eles estavam muito tristes...e eu me entristeci com eles...

segunda-feira, 9 de março de 2009

"O Sagrado e o Profano"


Respostas a um aluno de filosofia,num trabalho sobre "O Sagrado e o Profano" livro de Mircea Eliade.

P: No Zen Budismo o tempo é dividido em Sagrado e Profano, existe em contraposição a história, um tempo real e imutável ou circular?

R: No zen o tempo é declarado um ponto, nele estão contidos passado e futuro, todos os seres são tempo. Não há distinção, ou dualismo, entre diferentes tipos de tempo.

R: Existe, no Zen Budismo, uma forma de acesso a esse tempo Sagrado? Através de rituais, por exemplo?

R: Sim, existem rituais, eles são encarados como métodos para ajudar a despertar, meios hábeis, não proveem acesso a algo chamado “o sagrado”.

P: O “agora”, do “aqui e agora”, alcançado no estado de Samadhi, pode ser considerado esse tempo sagrado, real, em contraposição ao tempo histórico e especulativo, considerado, por sua vez, como falso?

R: O tempo histórico, linear, é um método classificatório para organizar o mundo, é útil para tanto, mas, de novo, nem é falso nem verdadeiro, é uma construção mental, uma ferramenta.

sábado, 7 de março de 2009

Só os monges podem se iluminar?


Foto da mestra zen Charlotte Joko Beck

Não, os leigos tem as mesmas possibilidades de se libertar dos monges, só que no caminho monástico do zen existe reconhecimento formal, por um mestre, de alguma realização espiritual e ela é formalizada numa cerimônia chamada transmissão (shiho).

sexta-feira, 6 de março de 2009

"ESTÁ NA HORA!? – A Psicologia das Linhas do Tempo"


“As culturas orientais nos trazem outras formas preciosas de representar o tempo. Para o Budismo Zen, o tempo é um ponto e tudo que você chama de passado e de futuro nele está contido. O Zen não considera a existência do tempo linear, representação natural em nossa cultura. À pergunta “Quando é o início dos tempos?”, no Zen se responde “Desde tempos sem início”. A vida é uma continuidade sem tempo. Quando comecei minha conversa com o Reverendo Genshô, monge da escola Soto Zen, minha primeira pergunta sobre o tempo foi respondida com “Meu tempo é estar com você agora. Vivi toda a minha vida para estar com você agora”. Conversamos sobre o passado e o futuro: “O passado é um registro provavelmente de distorções. Não tem crédito especial. Cada vez que revejo algo em minha mente, ele é diferente. O futuro é mera expectativa. Posso terminar essa entrevista e cair morto. É uma construção mental. É como um sonho, uma bolha de sabão, uma fantasia não estável.” Sua linha do tempo, e era essa a busca central de nosso encontro, como linha não existe. Consistentemente ele apontou o passado, o futuro e o agora para dentro de sua cabeça: “É um grande espaço, percebido aqui, na mente evocável”. Sua linha era um ponto – ou um espaço. Em nossa conversa sobre memórias do passado e eventos futuros, suas mãos movimentavam-se ora para frente e para trás, ora para os lados, sem um padrão consistente. Alguns exemplos de sua vida diária não deixaram dúvidas sobre suas características NT, como era de se esperar pela localização do “ponto” do tempo dentro de sua cabeça. Insistente, busquei descobrir sua linha do tempo através do movimento das representações mentais ao longo do caminho de acesso às memórias, como já demonstrado neste capítulo. As imagens de memórias do passado e do futuro não se deslocavam em nenhuma direção – simplesmente se construíam ou se desvaneciam no mesmo lugar, o lugar de seu ponto do tempo.

O filósofo japonês e Mestre Zen Eihei Dogen Zenji (1200-1253) em seu célebre texto Uji (Ser-Tempo), coloca uma interpenetração ou quase identidade entre “ser” e “tempo” e fala desse ponto do tempo:

“Tempo não apenas passa - ainda que mesmo então ele não seja separado do eu - mas ao mesmo tempo está contido em cada instante presente, mesmo aqui e agora em mim, e em cada um daqueles pontos do meu ser-tempo os outros tempos estão incluídos. Ainda que meu instante presente seja sempre um ponto na passagem do tempo, este ponto único inclui os outros pontos passados e futuros.”

Para um Zen Budista, o tempo e o ser têm uma indissolubilidade, cada ser-tempo vive seu ser-tempo e o tempo próprio é uma experiência única e distinta do ser-tempo de outros. E o tempo não passa como um fluir de ir e vir, ele apenas e completamente é. O ser, nos seus movimentos, muda, e não o tempo, ele é estável. Este contem toda a experiência, incluindo um passado distorcido não importante e um futuro sobre o qual a afirmação de “provável” não tem sentido, apenas um "possível"de tamanho infinito. “Existe somente o presente imediato, no qual todo o tempo e todo o ser está englobado” (Dogen).”
( Extrato do livro "ESTÁ NA HORA!? – A Psicologia das Linhas do Tempo" de autoria de George Vittorio Szenészi MSc. Mestre em Psicologia, instrutor da Terapia da Linha do Tempo desde 1994, convidado pessoalmente por Tad James, seu principal criador. É Certified Trainer do American Board of Neuro-Linguistic Programming, Master Hypnotherapist e professor credenciado pelo American Board of Hypnotherapy. Especializado em PNL e Saúde pelo Institute for the Advanced Studies of Health. Professor de Psicotraumatologia e das psicoterapias da Psicologia da Energia. Diretor da Metaprocessos Avançados e Presidente da Sociedade Brasileira de Terapia da Linha do Tempo.)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Cosmogonia


P: Como o budismo concebe o universo, tradicionalmente?

O budismo partilha a herança hindu da idéia do universo como gigantesco, com míriades de mundos e do tempo como incrívelmente vasto, mais um aspecto: a visão do universo como algo cíclico que surge e se apaga em éons, ciclos gigantes de surgimento e cessação, mais ainda, a idéia de universos paralelos, mundos de não forma por exemplo.

Porém esta visão, embora confortavelmente próxima da presente na ciência atual, não é um artigo de fé, trata-se da visão presente nos sutras que foram escritos antes do século III AC , o que se acredita a respeito não impede nem ajuda a prática espiritual budista. No zen a idéia de tempo foi levada por Dogen (1200 - 1253) até o de um único ponto em que tudo está contido, um conceito elástico que só foi alcançado, parcialmente, na ciência no século XX.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Como posso superar o medo e o desejo?



Isso implicaria em superar o EU, e isso demanda um imenso trabalho, a própria iluminação. É importante saber que o zen não pretende formar santos, mas sim, homens despertos.

O primeiro passo é aprender a conviver com a condição humana sem rejeita-la. Após isso, uma pessoa razoavelmente equilibrada pode praticar meditação, mas para tanto, no modelo zen, precisa começar praticando a humildade, aceitar um professor, reconhecer os mais antigos, curvar-se nas cerimônias, isso é um primeiro e importante abalo neste eu que não quer dobrar-se.

terça-feira, 3 de março de 2009

Perguntas e prática

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Bodhidharma

P: Existe alguma pergunta que mereça ser perguntada, e que não pode ser respondida pelo praticante através da própria prática?



Em tese não, todas as perguntas da vida espiritual podem ser solucionadas na prática pessoal, isto foi o que sucedeu com Buddha. Porém, mesmo ele, se apoiou em treinamento com mestres antes de sua iluminação. Os professores auxiliam muito, ao ajudar o aluno a evitar os caminhos errados, já testados anteriormente. Como na ciência em que Newton diz "pude ver mais longe porque subi nos ombros de gigantes" referindo-se a seus grandes antecessores, como Galileu e Kepler. Nós subimos nos ombros dos mestres, eles podem nos ensinar a evitar os venenos mentais do apego, da aversão e da raiva, por exemplo, impedimentos certos para o progresso individual.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Como o zen budismo explica...


Acreditar em uma solução ou outra, lógica ou não, para o zen tem pouca importância. Se o problema é aqui agora para que pensar nisso? Que adianta? É questão de curiosidade? A ciência já não é boa para explicações? E não tem a grande vantagem de poder ser revista a todo momento, e aperfeiçoada?

Faz lembrar o mestre zen que perguntado sobre o que sucedia depois da morte disse que não sabia, o interrogador se enfureceu, então, como ele, um mestre, vinha com uma resposta dessas, como ele não sabia? E o mestre: - Não sei, ainda não morri.

O fato é que o budismo não foi criado para dar explicações, perguntei em um mondo (debate público) ao meu mestre , Saikawa Roshi: - Como surgiu o primeiro carma? E ele: - Quando você descobrir me conte.

domingo, 1 de março de 2009

Sesshin fev / 2009 em Florianópolis


Foto final/ Michel Seikan

Membros dos grupos ligados à Sangha de Florianópolis vieram de Rio do Sul, Joinville, Rio de Janeiro, para sentar em meditação e praticar o silêncio durante o carnaval. Quatro dias de meditação, palestras, caminhadas, sempre mantendo o conversar fora do programa, para que a mente possa se aquietar com menos estímulos.
Mais fotos aqui