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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Palavras ou exemplo?




Palavras  Buddha costumava retirar ao fim dos seus discursos, tal sua desconfiança em relação a sua imprecisão. Nós as usamos, porque embora muito imperfeitas, é tudo que temos. Mas Buddha mesmo avisou que haveria tempo em que restariam só os ensinamentos e a iluminação estaria perdida, e haveria tempos ainda mais obscuros em que só restariam rituais e mesmo os ensinamentos estariam distorcidos. Assim observe os mestres para saber se eles são só palavras vazias e não agem de acordo com os ensinamentos, a estes, outros mestres do passado, deram o epíteto de charlatões. Por isto não são as palavras a essência mas o exemplo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Caminhe como a Água






Aluno – Estou lendo um filósofo que fala sobre a secularização. Nos dias de hoje, numa sociedade tão secularizada, distante, profana, ele propõe algo como uma sociedade pós-secular, onde os dois mundos poderiam e deveriam conversar, e eu percebo o Zen no ocidente com uma apresentação um tanto quanto secular no discurso, que possa ser talvez palatável para o ocidente e ao mesmo tempo com seus rituais e tradições. O que o senhor acha dessa dualidade?

Monge Genshô – Eu acho que a ideia é interessante, acho que o budismo tem essa enorme capacidade de adaptação. Essa imagem da água, que a gente diz no Zen, “seja como a água”, ela está muito certa para o Zen. Eu acho mesmo, quando olho para a minha atuação no mundo como profissional e como monge simultaneamente, que ela expressa isso, que esse é o meu problema. Então, você tem que saber transitar nos dois mundos e acho que há uma grande perda nessa secularização no mundo ocidental e no mundo oriental.

Nós não devemos idealizar o mundo oriental, pois o mundo oriental se rendeu ao ocidente culturalmente e daí adota técnicas, formas, costumes, e a prática espiritual está sendo de certa forma esquecida, jogada fora. Isso aconteceu fortemente no ocidente com algumas igrejas que resolveram se secularizar, aí começaram a jogar fora seus rituais, a jogar fora a maneira como os religiosos deviam se vestir, etc. No início se pensava que isso ia aproximar e trazer o povo para dentro da instituição religiosa, mas não foi isso que aconteceu. E essa tentativa de secularização do caminho espiritual trouxe um enfraquecimento do caminho espiritual. Então nós não podemos ceder à secularização .

Na hora de ser monges nós temos que ser monges verdadeiramente, nós temos que praticar verdadeiramente, nós temos que ir a fundo verdadeiramente, e não começar a ceder. Isso o ocidente também tem visto no Zen. Isso é frequente.

Você vai na Europa hoje e as monjas não querem raspar o cabelo, as monjas querem se maquiar, os monges querem mudar as roupas, ou querem se desligar da instituição. No discurso de “serem livres” começa a se perder a própria essência do Zen. É como se o Zen fosse diluído, como se fosse colocado mais água e fosse diluindo, enfraquecendo, e aí, de repente, você não tem mais aquilo que era o original.

A mesma coisa vem acontecendo no oriente, a mesma tendência de transformar a religião num mero negócio ou na venda de rituais, e isso não é uma coisa que tem acontecido só com o cristianismo ou com o budismo. Tem acontecido com tudo. Não existe caminho espiritual fácil ou diluído. Essa diluição é uma coisa que me dá uma sensação de pena, porque vamos perdendo a essência. Em todos os lugares isso tem acontecido. É uma tendência mundial em todas as religiões, em todos os caminhos espirituais, e a força, a mágica da ciência e da técnica vai fazendo parecer que o caminho espiritual é algo descartável.

E ao mesmo tempo nós vemos um grande mundo que parece perdido, infeliz, e daí começa a procurar a solução da felicidade na própria técnica, na própria química      , por isso nós temos as pílulas da felicidade, as pílulas contra depressão, etc. Então eu vejo um mundo que se perde. Para nós é um grande desafio aprendermos um caminho espiritual sério e trazê-lo para o mundo como ele é, sem abdicar da tecnologia, sem abdicar de nada, da abundância que a tecnologia trouxe, e sem abdicar disso  conseguirmos manter viva a chama do caminho espiritual.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O eu a ilusão básica



(Continuação)   Monge Genshô:  Bud significa acordar (das ilusões). Mas as pessoas estão todo o tempo se apoiando em ilusão. Qual a ilusão mais poderosa? A ilusão que atrapalha todo mundo? Eu. Esta poderosa ilusão, chamada “eu”, é arrasadora. Porque ela tem dados de realidade poderosos. Todos estão sentados aqui agora, abrem os olhos e vêem os outros. Registram a impressão – eu estou vendo os outros. Então eu enxergo, eu recebo uma informação, eu sou um centro de informações, processo, penso, tenho formações mentais e todo esse conjunto de formações mentais propiciados por minhas experiências sensoriais me diz que eu sou o observador, o registrador. E quando alguém diz - este eu aqui é construído, uma ilusão, você não consegue acreditar nisso. Porém, se eu disser assim, você acredita profundamente na sua existência pessoal, no seu eu.

Monge Genshô: Quem está aqui pela primeira vez? Você, quem é você?
Aluna: Quem está aqui agora.
Monge Genshô: Quem está aqui agora, mas, quem exatamente?
Aluna: Lívia.
Monge Genshô: Mas Lívia não é você, é o nome que seus pais lhe deram. Lívia não serve. Quem é você, além dos nomes que seus pais lhe deram?
Aluna: Eu sou o resultado do que aconteceu em minha vida.
Monge Genshô: E você registrou esse resultado onde?
Aluna: Na minha cabeça.
Monge Genshô: Então você é o resultado das suas memórias, certo? Inclusive até aquele de que seus pais lhe deram tal nome, não é isto?
Aluna: Sim.
Monge Genshô: Mas, se você perder sua memória hoje e acordar amanhã de manhã numa cama de hospital com amnésia, nós iremos visitar você e dizer - nós sabemos quem você é, você é Lívia. E você dirá - não me lembro. Você não tem mais memória, certo? Mas todo o resto está aí, então perguntaria de novo: quem é você? Não vai saber, pois você é essencialmente construída com memórias acumuladas, com registros de experiências. Mas de suas memórias você já não se esqueceu de grande parte? Então essa construção, vamos dizer assim, é um pouco aleatória, seletiva, não é? Poderia até ser outra. Só escolher outras memórias e seria outra pessoa. Então, seria possível, se fôssemos capazes de interferir no seu cérebro, selecionar memórias que você quer lembrar e outras que não quer lembrar e construir outra pessoa. Então, quem é você, se você é só isso? Alguém que está sentado aqui pode contestar isso? Você é alguma coisa além de suas memórias?

Vocês conhecem quem tem nascido de novo e mantido memória da vida anterior com tal inteireza que pode dizer - eu sou aquele?  Às vezes a gente vê registro de pessoas com memórias parciais, mas é um flash. Se fosse memória integral, seria como manter o seu eu de uma vida para outra. Vamos dizer assim, se o eu é construído com memória o tempo todo, este eu aqui é o mesmo de hoje para amanhã? O que você acha? É o mesmo? Mas a memória não mudou? Se vai mudando as memórias, mudando, mudou muito. Seria o mesmo eu?

Aluno: Acho que contém.

Monge Genshô: Ah, contém. Então aquele eu vai conter um fragmento do novo eu. Onde é que quero chegar - o eu de hoje não é o eu de ontem. Se você não se lembra da vida passada, qual foi o eu que sobreviveu de uma vida para a outra?
Aluna: A essência.
Monge Genshô: E o que é essa essência?
Aluna: O que eu sou.
Monge Genshô: O que você é não era constituído por suas memórias? Mas se não tem memória nenhuma, o que sobrou?
Aluna: A minha essência.
Monge Genshô: Mas qual é a sua essência? O que é você além de suas memórias?
Aluna: Não sei dizer.
Monge Genshô: Ninguém saberia dizer pois seu eu é essencialmente constituído por suas memórias. Por isso aquela que acorda sem memória  responde - "não faço a menor ideia".  (continua)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Sutra do Coração da Sabedoria


Pirogravura realizada por Cassio Dias, Saikawa Roshi à esquerda.


Saikawa Roshi: Durante o zazen eu falei um pouco sobre o Sutra do Coração da Sabedoria. Sei que alguns de vocês estão fazendo sesshin (retiro) pela primeira vez e outros são bem mais iniciantes no Zen, por isso eu gostaria de falar sobre esse texto básico. No título “Maka Hannya Haramita Shingyo”, “Maka” significa grande, mas não como oposição a pequeno.

Quando falamos em “grande” no Budismo, estamos nos referindo ao infinito, sem fronteiras, sem limites. “Hannya” é o mesmo que “Prajna” que significa sabedoria, mas não a sabedoria da vida diária. Na vida diária uma pessoa sábia é uma pessoa que parece ter bastante conhecimento e é muito inteligente. No budismo sabedoria é saber como somos no momento presente, você abrir seus olhos e perceber-se um com todo o universo. Isso é sabedoria para o budismo.

Os ouvidos podem ser um com o som, o nariz pode ser um com o aroma, a língua pode ser um com o sabor, não importa se você gosta ou não, seja um. O corpo pode ser uno com o suave, duro, quente ou frio e a atividade da mente também pode ser uma com tudo que aparece, esse tipo de percepção é chamado de sabedoria, é “Prajna”. 

“Paramita” significa ir para o outro lado, a outra margem. Historicamente esse lado e o outro lado são uma representação simbólica. O outro lado é o nirvana. O caractere para “Shingyo” é mente, mas pode ser lido de outras maneiras e, portanto ter outros significados como, por exemplo, essência.

O Sutra “Hannya Shingyo” é normalmente traduzido como o Sutra do Coração, mas na verdade eu traduzo como o “Sutra da Essência da Coleção dos Sutras do Prajna Paramita”. O Sutra Prajna Paramita é uma coleção de seiscentos volumes. Aquele Sutra que eu recitei na purificação do Dojo é o quinquagésimo septuagésimo oitavo (578°) Sutra. O Sutra do Coração fala sobre a essência de passar para o outro lado.

**Colocação do tradutor, Monge Genshô - “O Roshi (venerável mestre) está explicando que os ideogramas têm muito mais significados em cada símbolo do que lemos na tradução, então, quando lemos em português o “kanji Shin”, temos que entender que por trás da tradução simples que fazemos, no caso mente, existem outras possíveis como sentimento, coração, essência etc., logo, o sutra quando lido no seu original com ideogramas, tem mais interpretações do que em um idioma fonético.” (continua)

quinta-feira, 7 de março de 2013

O mundo total do ser



Vamos Analisar um texto de Toshihiro Izutsu, que é um mestre da Escola Rinzai. (texto)”Se analisarmos a experiência Zen, quer dizer, a realização pessoal do estado de iluminação, em termos de relação entre exterior e interior, nos deparamos com duas realidades teóricas. O interior se converte em exterior ou, a exteriorização do mundo interior e exterior se converte em interior ou, interiorização do mundo exterior. Trazemos o exterior para dentro de nós ou projetamos a nós no mundo exterior. No primeiro caso que se refere a expressão tão corrente, de que o homem se converte no objeto, se realiza rapidamente a experiência do próprio eu, perdendo sua identidade existencial e fundindo-se inteiramente no objeto exterior com o qual se identifica. O ser humano se converte em flor, o homem se converte em bambu. Essa experiência não se fundamenta, no entanto, como uma experiência autênticamente Zen, senão, quando o ser humano chega a perceber em sua própria consciência espiritual que essa flor, ou esse bambu, com os quais se identificou, contem o mundo total do ser.”

(comentário)Por exemplo, nós estamos aqui e agora e temos essas tijoletas da sala e percebermos que nós somos parte desse piso não é muito fácil, que nós somos parte disso, que ele é manifestação da vacuidade e nós também somos manifestação da vacuidade, mas é a verdade dos fenômenos, de que os fenômenos são manifestação na vacuidade. Nos somos em essência, feitos da mesma substância que as tijoletas desta sala. E se olharmos em termos físicos ou químicos, acharemos grandes semelhanças, somos feitos das mesmas substancias químicas, mas é muito mais que isso, pois as substâncias químicas são, elas mesmas, manifestações na vacuidade. E isso é o nosso eu que tanto prezamos, que tanto apreciamos e queremos que seja permanente, em torno do qual, quando estamos sentados, giram as nossas fantasias de vaidades, de orgulho, as nossas mágoas, ambições, todas são operações mentais que geram a existência desse eu, nada sólido, tudo fantasia. E estamos aqui sentados, observando a nossa mente, percebendo nosso corpo, percebendo que realmente é fantasia. Nós temos a experiência de que é uma fantasia nossa. Nesse estado o eu se estende até os últimos limites do universo, quer dizer, já não é um eu com uma identidade independente, já não é um sujeito frente à um mundo objetivo. Então, se alguém consegue identificar todas as coisas em volta como o mundo total do ser e de que ele faz parte disso, o seu eu não é mais uma identidade independente e abarca o universo inteiro. Então não é mais uma pessoinha olhando o universo, mas sim todo o universo, todo o mundo fenomênico e é, em essência, a própria vacuidade. Se usássemos a terminologia de Deus, diríamos que o homem tornou-se a própria divindade ou morreu para si mesmo e assim, morrendo para si mesmo, pode conhecer a Deus.
( Não usamos a palavra deus no zen porque está contaminada da idéia de pessoalidade, de algo separado, por isso "mundo total do ser")  

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

De que tudo está vazio?



Mesmo assim essa unidade não diz, eu sou a unidade. A unidade é vazia completamente de um eu, por isso o conceito de vazio torna-se tão importante no budismo. Porque, de que as coisas estão vazias? As coisas, todos os fenômenos, nós, somos vazios de um eu. Porque não existe eu algum, então, o vazio são esses próprios fenômenos. Se o vazio são os fenômenos, então os fenômenos são o próprio vazio. Por isso vocês todos são a vacuidade e a vacuidade somos todos nós e a miríade de todas as coisas. Por isso é necessário esquecer-se de si mesmo para ser iluminado pela miríade de todas as coisas. Essa é a essência do ensinamento budista.

Pergunta – Digamos que a mente passou pelo estágio da virtude e chegou ao estágio da compaixão. Ainda há o terceiro estágio que seria o da vacuidade. O que é necessário para passar do estágio da virtude para o estágio da compaixão?

Monge Gensho – A virtude são simples regras, como se alguém dissesse a você, “Não faça isso, pois isso causa sofrimento”, isso é o preceito, a virtude. Para passar para a compaixão é necessário um eu menor e sentir o que os outros sentem. A compaixão é perceber o que acontece com os outros seres no universo. Isso é compadecer-se. Trata-se de uma ampliação da consciência. Já o terceiro estágio da não dualidade é muito difícil, nada fácil de ser ensinado ou percebido, o estágio da não dualidade implica numa realização espiritual muito mais profunda, por isso que o sutra do coração é difícil de ser entendido. Porque ele trata essencialmente da não dualidade. Lembrem-se, o sutra do coração diz, “O vazio é forma e forma é vazio”, isso é a essência do que eu disse por ultimo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quem é você?



Pergunta – Com relação ao “eu”, eu o elimino ou me desapego dele?

Monge Genshô – O “eu” é necessário nessa vida, você o usa como um instrumento. Uma boa imagem para entender isso é a de que precisamos usar uma fantasia para exercer um papel. Eu, por exemplo, coloco minhas roupas de monge, que carregadas de simbolismo - um manto igual ao manto de Buda - me facilitam o exercício do papel de professor do dharma. Mas, quando tiro essa roupa, não posso dizer que estou ali, naquela fantasia que tirei. Eu não sou a fantasia; ela não é eu. Nosso “eu” é, essencialmente, uma fantasia. Nós precisamos usar, na vida, títulos, cargos, coisas, nomes. Mas não devemos nos confundir com nosso nome. Seu nome não é você. Seu título não é você. Por isso é tão difícil responder a essa pergunta: “quem é você realmente?” Nós precisamos de um “eu”, mas o “eu” que usamos para transitar na vida, não é quem somos, é uma fantasia. Começa no batizado, o pai diz, “o nome dele será Fulano”, e recebemos um nome que arrastamos pelo resto da vida. Mas esse nome foi-nos, tão somente, dado por nossos pais. Ele não nos constitui. “Quem é você?” Quando fazemos essa pergunta a uma pessoa, ela responde, em primeiro lugar, seu nome, pois foi essa a primeira coisa que lhe deram. Mas essa pessoa não é só um nome. Certa vez, um homem chegou até Buda e lhe perguntou: “quem é você? Um profeta, um deus, um salvador? Quem é você, afinal?” Ele respondeu que não era nenhum deles, e afirmou: “Eu estou acordado!”

Pergunta – Esta é, na verdade, uma resposta conceitual, não é?

Monge Genshô – Sim.

Aluno – Desculpe, não entendi a resposta.

Monge Genshô – Ao dizer que está acordado, Buda afirma que não possui nenhum “eu”, que está livre de todas as ilusões, que isso tudo é um sonho. Estar acordado significa, portanto, estar livre dos sonhos.

Pergunta – Isso quer dizer que Buda entendeu sua essência?

Monte Genshô – Sim. E sua essência não é ele.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A essência do despertar de Buddha


(continuação)
Todas essas considerações ocorreram a Buda. Embora ele fosse um homem rico, filho de um pequeno rei em um pequeno principado e tivesse tudo como membro da classe dominante: tinha mulheres, comida, palácio, empregados, enfim, tinha todos os confortos que  poderia ter um homem em sua posição. Mesmo tendo tudo isso, Buda se perturbou com o fato de haver velhice, doença e morte. Sabendo disso, ele se questionava sobre o significado de sua existência naquele palácio, com sua esposa, seu filho, as artes de guerra que havia aprendido. Buda era da classe Kshatriya, uma classe de guerreiros imediatamente abaixo dos Bramanes. Ele não conseguia ver significado na sua existência, em uma vida que terminava, inevitavelmente, em velhice, doença e morte, pois, sendo assim o fim, tudo o que fizermos é vão.

Foi assim que Sidharta Gautama Shakyamuni, abandonou sua família, seus pais, seu palácio, causando infelicidade a todos. Ele está então com vinte e oito anos, e vai para uma floresta procurando uma solução espiritual. Durante seis anos Shakyamuni tenta todas as técnicas de ascetismo que eram ensinadas pelos mestres iogues. Com as práticas de jejum severo, meditação e concentração, ele vai atingindo níveis cada vez mais profundos de realização psíquica, mas não vê uma solução final para as questões do sofrimento e do significado da vida; procura denodadamente, mas não encontra. Mesmo que dois mestres se sintam tão encantados com ele a ponto de o convidarem para  sucessor, ele recusa, e segue adiante. Por fim, sentindo-se derrotado fisicamente, sem energia, ele desfalece perto de um rio e uma moça chamada Sujata coloca em sua boca arroz com leite.

Ao voltar a se alimentar, Buda tem sua energia renovada. Senta-se, então, embaixo de uma figueira, que hoje é conhecida como fícus religiosus, cuja folha tem uma longa ponta , e ali fica meditando por sete dias. Ao amanhecer, quando a estrela da manhã está surgindo, Shakyamuni, de repente, acorda das ilusões, e nesse momento, torna-se O Buda, “aquele que acordou”. Ele exclama: “Que maravilhoso é! Nesse momento todos os seres e a grande Terra, junto comigo, atingem a iluminação!”

Qual a essência do grande segredo de Buda? Todas as coisas estão vazias de um “eu”. Eu não vou mais me enganar, nem uma coisa tem um eu, ninguém tem um eu, tudo é vazio de um eu. Este é o significado da palavra vacuidade, o vazio budista: nada tem um eu inerente, todas as coisas são interdependentes e interconectadas. A nossa noção de um eu - que é predominante, que todos agora, aqui sentados, sentem (eu estou aqui, eu sou, eu tenho um corpo, eu abro os olhos e vejo os outros, eu vejo o mundo) - é um engano, uma ilusão provocada pelo funcionamento de nossa mente e pela formação de nossa consciência. Essa é a essência da iluminação de Buda, todo o resto são métodos de treinamento graduais para se atingir liberação do sofrimento, melhor qualidade de vida, treinamento mental. Mas a iluminação de Buda é isso, a liberação de um eu. Enquanto não atingimos a liberação de um eu, não há a iluminação.
(continua)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Como se estivessem brincando


"Somente aqueles que não possuem um único sistema de Dharma podem formular todos os sistemas de Dharma, e aqueles que podem entender o significado (deste paradoxo), podem se valer de tais sistemas. É indiferente para os que perceberam a Essência da Mente formularem todos os sistemas de Dharma ou dispensarem todos eles. Eles estão em liberdade para ‘vir’ ou para ‘ir’. Eles estão livres de obstáculos ou impedimentos. Eles executam ações apropriadas de acordo com as circunstâncias. Eles dão respostas satisfatórias de acordo com o temperamento do buscador. Eles percebem contemplativamente que todos os Nirmanakayas são unos com a Essência da Mente. Eles atingem a liberação, os poderes psíquicos (Siddhis) e o Samadhi, que os permitem executar a árdua tarefa da salvação universal tão facilmente como se estivessem apenas brincando. Eis como são os homens que perceberam a Essência da Mente!”
Hui Neng - Sutra da Plataforma