quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Nissin Cohen


Nissin Cohen - nota de falecimento



"Lamentamos informar que o Sr. Nissim Cohen (Upasika Dhammasari) faleceu no dia 3 de janeiro de 2009 após prolongada doença. Até os últimos dias sempre demonstrou seu entusiasmo e paixão pelo Budismo enquanto trabalhava ao mesmo tempo no segundo volume de sua antologia "Ensinamentos do Buda - a Meditação Budista".
(Celso Carrera)

O Prof. Nissin Cohen foi um incansável defensor do Dhamma, atuando na área da tradução e produção de textos por muitas e muitas décadas. Natural da Turquia, em 1958 mudou-se para o Brasil, e vivia na cidade de Jacareí/SP. Sua paixão pelo Dhamma e pela língua pali o levou a publicar textos e livros artesanais, muitos dos quais guardo com carinho em minha biblioteca. Sua é a melhor tradução do clássico Dhammapada existente em português, feita diretamente do pali. E no ano passado sua dedicação culminou na publicação da obra "Ensinamento do Buda", uma antologia hercúlea dos ensinamentos do Cânon Pali com 570 páginas de ensinamentos preciosos. Um segundo volume já estava anunciado.

Possam os benefícios do Dhamma recair sobre ele que tanto se dedicou com afinco e carinho à divulgação dos sublimes ensinamentos.
Prof. Ricardo Sasaki
Copiado do blog Folhas do Caminho (Link ao lado)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

ALJAZZEERA, declaração cita os budistas.


Neste vídeo, cujo link está abaixo, de 2006, em árabe, legendas em inglês, a psicóloga árabe-americana Wafa Sultan corajosamente diz, na tv árabe, o que pensa sobre as ideologias de vingança e imposição da "verdade" sobre os outros, tudo que seu oponente consegue fazer é acusa-la de herética. Ao final do vídeo ela diz: "estátuas de Buddha foram transformadas por muçulmanos em escombros, não vimos um único budista, queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou queimar uma embaixada" não retaliar é realmente o espírito do budismo, o ódio não termina com o ódio, o ódio só pode cessar com o amor.

Veja aqui

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Joshu (778—897)


Certa vez, um homem encontrou Joshu, que estava atarefado em limpar o pátio do mosteiro. Feliz com a oportunidade de falar com um grande Mestre Zen, o homem, imaginando conseguir de Joshu respostas para a questão metafísica que o estava atormentando, lhe perguntou:
"Oh, Mestre! Diga-me: onde está o Caminho?"
Joshu, sem parar de varrer, respondeu solícito:
"O caminho passa ali fora, depois da cerca."
"Mas," replicou o homem meio confuso, "eu não me refiro a esse caminho."
Parando seu trabalho, o Mestre olhou-o e disse:
"Então de que caminho se trata?"
O outro disse, em tom místico:
"Falo, mestre, do Grande Caminho!"
"Ahhh, esse!" sorriu Joshu. "O grande caminho segue por ali até a Capital."
E continuou a sua tarefa.

(A data após o nome está certa, Joshu foi muito longevo e morreu lúcido com 119 anos)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Foco no zazen


P: Existe foco de atenção na meditação zazen? Se existe, qual?

Pode haver sim, principalmente no início. Usa-se mais de uma técnica. Pode-se começar com a técnica de atentar para o numero de respirações, contando-as, mais tarde isto deve ser abandonado em favor de um procedimento natural de respirações profundas. No caso de distrações pode-se usar sistemas como o de interromper a expiração quando a mente se dispersa, por um segundo cada vez que isto ocorre, o chamado método do bambu. Pode-se concentrar a atenção nos sons circundantes, apenas ouvindo-os sem considerações quaisquer. Em todos esses casos há um foco. Porém quando se atinge samadhi, uma concentração profunda, apenas se fica sentado sendo um com tudo, sem julgamentos e sem esforço, por esta razão a prática é sem esforço, mas isto só se atinge com esforço. Então o zazen usa foco de atenção para chegar ao ponto de não usar nenhum foco.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Sofrimento


P: Por que, ao acabar essa luta contra o ego, o sofrimento acaba?

Não é por ter lutado com o ego que o sofrimento desaparece. É por ter ampliado seu ego a ponto de não haver mais separação entre ele e qualquer outro ser do universo. O universo, na sua totalidade, é perfeito, sofrimento só existe onde há ego individual, o engano fundamental.


P: Uma idéia que me sacudiu foi a de que ninguém está supervisionando ou apreciando seu desenvolvimento. Essa verdade cortante doeu dupla e profundamente: produziu em mim uma imensa sensaçao de solidão e provou o quanto que o 'eu' aínda reina em mim, pois eu não teria tido a sensação de solidão se a minha personalidade não almejasse aceitação, apoio e aprovação. O que o senhor me diz disso?

R: Nós estamos sozinhos. Mas, de outro ponto, de vista não há ninguém sozinho no mundo; só nos julgamos sozinhos porque pensamos em termos de 'eu'. Quando nos livrarmos disso, não existirá nenhuma solidão possível, porque nossa consciência é o próprio absoluto inteiro e abrange todos os seres. Onde poderá haver solidão sem o 'eu'?


P: Como transitar pela vida reduzindo o sofrimento?

R: Seguindo o caminho do Buda, compreendendo a impermanência, a interdependência e, enfim, passando além da noção de EU. Nesse momento, há desconexão entre a ação e os desejos e apegos e, então, pode haver libertação do sofrimento, porque não haverá mais ninguem para desejar, nem nenhum eu para se apegar e sofrer com o fim de todas as coisas impermanentes.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O que renasce?


P:Se não existe nada para reencarnar, obviamente tudo se extingue após a morte. Sendo assim para que buscar a iluminação?

R: Nem tudo, o carma persiste, o que se extingue é o ilusório eu, a energia cármica, os impulsos que nos animam não podem se extinguir simplesmente, eles continuam e prosseguem se manifestando, gerando novas manifestações de vida.
Você busca a iluminação para acordar e escapar do sofrimento causado pelo fenômeno vida sem clareza em que você está aprisionado, a iluminação é a felicidade plena, e ela pode ocorrer aqui, agora.
Uma iluminação completa extingue completamente os impulsos de manifestação, por esta razão, por definição, um Buddha não retorna mais.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Luz, Paz e Amor para você


Luz, Paz e Amor para você, era a saudação de Celeste, ela está nesta foto de dez anos atrás, com a postura de sempre, olhando carinhosamente para alguém. Procurei hoje, meio dia depois de seu falecimento, alguma foto sua olhando para a câmera, mas não há nenhuma, ela sempre está olhando para os outros.
Tinha que caminhar com uma bengala e não tinha bens materiais, kardecista convicta uma vez foi assaltada por um rapaz e fez-lhe um longo sermão conseguindo interromper seu crime e arrepender-se de seu caminho. Narrei sua história muitas vezes, pois no meio de tantas pessoas que se expressam com palavrões achando isto uma moda de expressão, ela era uma ilha de termos belos, simples e carinhosos, uma fonte de beleza e afeto.
Perdeu seu filho único, alguns anos atrás, mas mesmo assim continuou achando todas as coisas maravilhosas e vendo beleza em tudo. Quando a encontrava narrava suas longas orações que incluíam a todos. Sua saudação era o exemplo de sua fala correta que nunca se expressava contra ninguém. O que mais dizer? Luz, Paz e Amor para você Celeste!

Uma pequena história de Celeste:
A levamos para conhecer o templo budista tibetano de Três Coroas, lá estava o já também falecido mestre tibetano Chagdud Rimpoche, o grande incentivador da escola Niyngma no Brasil. Nada havia sido marcado com ele, e o mestre não recebia pessoas sem agendar.
Pedimos para ele recebê-la, os auxiliares disseram que ele estava muito ocupado, ia viajar...mas mesmo assim foram falar com o Rimpoche (Jóia preciosa).
Para surpresa de todos ele a recebeu e ela emocionada foi curvar-se e beijar sua mão, mas ele se levantou antes que ela pudesse fazer isso, curvou-se e beijou a mão dela..
Ficaram sorrindo um para o outro num grande silencio e ela saiu .. feliz, com os olhos cheios de lágrimas e disse:
- Conheci um anjo! Obrigada pelo presente que me deram!

Foto de Chagdud Rinpoche

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sesshin de Carnaval



Clique na imagem para ampliar o cartaz.


SESSHIN DE CARNAVAL 2009

Estamos iniciando as inscrições para o Sesshin de Carnaval (retiro Zen) conduzido pelo Monge Genshô. O Sesshin é um retiro de meditação Zen, e dentre as atividades incluirá: o Zazen (a meditação sentada), o kinhin (a meditação andando), o samu (atividades de limpeza), o uso dos Oriokis nas refeições formais, Cerimônia formal (recitação de Sutras) e Teisho (palestras).

(Todas as atividades tem instruções para iniciantes e estes tem atenção especial e facilidades, tais como cadeiras, se tem dificuldades para meditar em almofadas.)

O retiro iniciará no dia 21 de fevereiro (sábado) às 12h e terminará no dia 25 de fevereiro (quarta) às 12h.

O pacote inclui hospedagem e refeições:

R$240,00 para membros colaboradores (que contribuem mensalmente com mais de R$50,00)
R$300,00 para contribuintes (que contribuem mensalmente com qualquer valor abaixo de R$50,00)
R$360,00 para não contribuintes (que não contribuem mensalmente)

Forma de pagamento:

ESTAMOS REALIZANDO PARCELAMENTO ANTECIPADO EM 3 VEZES.

Sendo uma parcela no mês de dezembro, outra em janeiro e a terceira na data do retiro.
Inscrição deverá ser feita através e-mail centrozenfloripa@gmail.com (Juliana Sussetsu). A confirmação da inscrição será realizada somente com o depósito até dia 18 de fevereiro.

Banco para depósito - Favor informar por e-mail o depósito.

DEPÓSITO EM CONTA CORRENTE
BANCO DO BRASIL – Instituto Educacional Todatsu
AG 4550-0
CC 5709-6
CNPJ 04.189.002/0001-21

Local do Retiro: Casa de Retiro Morro das Pedras. Florianópolis - SC

Coordenação Monge Genshô
Comunidade Zen Budista de Florianópolis
Escola Soto Zen
http://www.chalegre.com.br/zendo/

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Zen e ancestralidade em Curitiba



Em dezembro um grupo de praticantes do zen, formado em Curitiba, dedicou-se a um seminário abordando a ancestralidade (dinâmicas a cargo da Psicóloga Renata Reginato) e a prática do zen budismo, meditação, palestras e caminhadas meditativas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Pesca, diversão, remorso


Quando tinha ao redor de 8 anos, um amigo de meu pai levou a mim e meu irmão a pescar em um riacho no campo. Não sabíamos o que era aquilo direito. Com um caniço de bambu, uma rolha como bóia, aguardei o momento em que um lambari mordiscasse a isca. Conforme as instruções puxei firmemente a linha e um fragmento de prata faiscou ao sol da manhã.
Gritei eufórico, minha primeira pesca, era meu aquele peixe, minha vitória arrancada do fundo das águas, meu prêmio de predador.
Na pedra da margem examinei minha presa, o anzol, ao meu puxão, entrara na sua boca e se projetava pela sua face vazando um dos olhos. Uma sensação de horror pela minha maldade me tomou de imediato. Sentimento que me acompanha até hoje mais de cinquenta anos passados. Larguei caniço, anzol, irmão, e voltei para casa sem que me entendessem. Era irremediável meu ato, jamais poderia devolver aquele olho, nem refazer aquela vida que minha interferência destruíra. Assim construímos nosso carma, passo a passo, crueldade por crueldade.
Espero que os que me leem compreendam porque causar tal sofrimento a um ser que nadava feliz no remanso da correnteza, se tornou uma lição sobre a natureza do que os seres humanos chamam de diversão.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Yengo


"Está presente diante da tua face, e neste instante tudo te é oferecido. Para uma pessoa inteligente uma palavra basta para convencê-la da verdade, mas, apesar disso, ainda incorre em erro. O Zen se afasta muito mais de nós quando tentamos explicá-lo com papel e tinta, prendendo-o numa armadilha verbal e lógica. A grande verdade Zen é possuída de todos. Olha o teu próprio ser e não o procures através dos outros. Tua mente está acima de todas as formas, É livre, calma e suficiente. Eternamente se imprime a si mesma nos teus cinco sentidos e quatro elementos. Em sua luz tudo é absorvido. Abandona o dualismo do sujeito e do objeto. Esquece-os. Transcende o intelecto. Afasta-te dele e penetra diretamente no âmago de identidade da mente de Buda. Fora dela não há realidades." Quando Bodhidharma veio do Ocidente, a única coisa que declarou foi: "Apontando diretamente à própria alma, minha doutrina é única, e não é assolada por ensinamentos canônicos. É a transmissão absoluta do verdadeiro sinal". O Zen não tem nada a ver com letras, palavras, ou sutras. Só requer que te encaminhes diretamente ao ponto onde hás que encontrar a morada da paz. Quando a mente é perturbada e a compreensão incitada, coisas são reconhecidas, noções entretidas, espíritos fantasmagóricos conjurados, e os preconceitos crescem sem controle. O Zen será perdido para sempre nessa selva.O sábio Sekiso (Shim-shuang) disse: Refreia todos os teus desejos. Deixa crescer o mofo nos lábios. Transforma-te numa peça de seda imaculada. Deixa que teu único pensamento seja a eternidade. Procura assemelhar-te às cinzas mortas, frias e sem vida, ou sé como um velho incensório num santuário abandonado de uma aldeia!

Põe tua fé nisto e disciplina-te. Deixa que teu corpo e tua mente se tornem objeto da natureza, tal uma pedra ou um pedaço de madeira. Quando um estado de perfeita imobilidade e inconsciência é obtido, cessarão todos os sinais de vida e mesmo os traços de limitação. Nenhuma idéia te perturbará a mente. Até que, súbito, descobrirás uma luz brilhando no seio de urna alegria imensa! É como cercar-se da luz no meio das trevas. Como receber um tesouro na pobreza. Os quatro elementos e os cinco agregados não mais se assemelham a pesados fardos, tão leve e tão livre tu estás. Tua própria existência foi libertada de todas as limitações. Estás aberto, leve e transparente. Ganhaste uma visão iluminadora da verdadeira natureza das coisas, que te aparecem agora conto flores fantásticas sem realidade concreta. Aqui se manifesta o ser sem sofisticações, que é a face real do teu ser. Aqui é mostrada, em toda a sua nudez, a paisagem do teu nascimento. Há somente uma paisagem direta e desobstruída internamente. Isto ocorrerá quando entregares tudo - teu corpo, tua vida, tudo enfim que pertença ao teu ser mais intimo. Ai, sim, alcançarás a paz, a tranqüilidade na ação e deleites inexprimíveis. Todos os sutras e sastras nada mais são do que comunicações deste fato. Os sábios antigos e modernos esgotaram o seu engenho e imaginação para apontar esse caminho. É como o destrancar da porta de um tesouro. Quando chegamos à entrada, cada objeto que a vista alcança é nosso, cada oportunidade que se apresenta está disponível para o nosso uso. A caso não poderão ser obtidas todas as posses dentro do ser originário de cada um de nós? Cada tesouro aguarda apenas que o descubras e utilizes. Isto é o que significa: "Uma vez ganho, eternamente ganho, até o fim dos tempos'. Todavia, nada foi ganho. O que obtiveste não é ganho. No entanto, há algo que foi realmente ganho."

Yengo (Yuan Wu)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Divina Consolação



MEISTER ECKHART - PARTE DO LIVRO DA DIVINA CONSOLAÇÃO

“E digo mais, que todo sofrimento provém do amor àquilo de que a perda me privou. Portanto, se a perda de coisas exteriores me faz sofrer, eis aí um indício seguro de que tenho amor às coisas exteriores e, por conseguinte, de que na verdade eu amo o sofrimento e o desconsolo. Com efeito, que há de estranhável em que eu me depare com o sofrimento se amo e busco o sofrimento e o desconsolo? O meu coração e o meu amor apropriam à criatura o Ser-Bom que é propriedade de Deus. Volto-me para a criatura, fonte natural de desconsolo, e viro as costas a Deus, fonte de toda consolação. E acho estranho que entre a sofrer e a sentir-me triste. Em verdade, nem Deus nem o mundo inteiro seriam capazes de proporcionar verdadeira consolação ao homem que procura consolo nas criaturas. Mas quem na criatura só amasse a Deus e só em Deus amasse a criatura, este encontraria, em toda a parte, consolação verdadeira, merecida e sempre igual.”

Troque a palavra amor por apego, Deus por unidade, consolação por despertar e você terá um texto muito próximo a um escrito buddhista.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Sonho e Realidade


SONHO E REALIDADE
Nida Chalegre

Do sonho resta a memória

Da realidade também

Quando passa

o momento real

como no sonho

fica apenas a

lembrança


Sonhar e viver

é a mesma coisa

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Zazen


Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração. Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior. Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo interior não tem Limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos "mundo interior" e "mundo exterior", mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém, O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa "eu respiro", o "eu" está a mais. Não há um você para dizer "eu". O que chamamos "eu" é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para seguir esse movimento, não há nada: nem "eu", nem mundo, nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.

Assim, quando praticamos zazen, tudo o que existe é o movimento da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento. Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buddha. Esta consciência é muito importante porque em geral somos unilaterais. Nossa compreensão habitual da vida é dualista: você e eu, isto e aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas próprias, a consciência da existência universal. "Você" significa estar consciente do universo na forma de você, e "eu" significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e eu somos portas de vaivém. E necessário este tipo de compreensão; porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida através da prática do Zen.
Shunryu Suzuki

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O tempo e o zen


O filósofo japonês e Mestre Zen Eihei Dogen Zenji (1200-1253) em seu célebre texto Uji (Ser-Tempo), coloca uma interpenetração ou quase identidade entre “ser” e “tempo” e fala desse ponto do tempo:

“Tempo não apenas passa - ainda que mesmo então ele não seja separado do eu - mas ao mesmo tempo está contido em cada instante presente, mesmo aqui e agora em mim, e em cada um daqueles pontos do meu ser-tempo os outros tempos estão incluídos. Ainda que meu instante presente seja sempre um ponto na passagem do tempo, este ponto único inclui os outros pontos passados e futuros.”

Para um Zen Budista, o tempo e o ser têm uma indissolubilidade, cada ser-tempo vive seu ser-tempo e o tempo próprio é uma experiência única e distinta do ser-tempo de outros. E o tempo não passa como um fluir de ir e vir, ele apenas e completamente é. O ser, nos seus movimentos, muda, e não o tempo, no entanto ele é fluido. Este contem toda a experiência, incluindo um passado distorcido não importante e um futuro sobre o qual a afirmação de “provável” não tem sentido, apenas um "possível"de tamanho infinito. “Existe somente o presente imediato, no qual todo o tempo e todo o ser está englobado” (Dogen).

George Vittorio

sábado, 27 de dezembro de 2008

Cobranças


P: O que se faz quando se quer estar com pessoas amadas (pais idosos) mas os encontros são sempre queixosos , carregados de cobranças e nos fazem sentir sempre exauridos?

R: Nos exaurimos se aceitarmos que são cobranças, se os olharmos com a compreensão dos sentimentos deles e dermos o amor que temos para dar, que não é tudo que eles querem mas que é aquilo que temos, este encontro será de doação e nossos ouvidos ouvirão as queixas mas não nos sentiremos culpados por elas. Concordamos, podemos dizer: pai , mãe , este é o presente que eu tenho para lhe dar...minha presença, estou aqui por vocês...e continuarei voltando no meu ritmo possível, porém não posso levar em conta todas estas palavras pois elas são exigências que não posso cumprir pois não tenho tanto aqui para entregar, e meus filhos me demandam mais, e para eles eu darei muito mais do que eles me darão no futuro, assim como acontece aqui entre nós...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

As três peneiras

Há muitos séculos atrás, num mosteiro budista, após a cerimônia noturna, o Monge Abade se retira para o seu merecido descanso e enquanto tomava calmamente o seu chá, à luz de apenas uma lamparina de óleo. Fazendo entreabrir a porta de correr, feita apenas de madeira e papel de arroz, entra um dos monges instrutores do templo, reverenciando profundamente o mestre.

Indagado pelo Abade sobre o motivo de sua visita a essas altas horas da noite, o monge lhe diz que o motivo de sua visita é contar ao mestre sobre alguns comentários que estão correndo no templo sobre um outro instrutor.

O Venerável Abade, então, lhe diz em sua profunda sabedoria:

- Calma! Antes de me contares algo que ouviste sobre outra pessoa, gostaria de lhe perguntar: Já fizeste passar essa informação pelas Três Peneiras da Sabedoria?

- Peneiras da Sabedoria, Venerável Mestre? Espanta-se o monge.

- Sim, as Três Peneiras da Sabedoria. Tudo o que ouvires falar sobre os outros, deve passar pelas Três Peneiras da Sabedoria, antes de ser retido, acreditado e repassado. Ouça com atenção e me responda: Tens absoluta certeza de que o que te contaram é realmente verdade?

- Não, não tenho certeza Venerável Mestre. Apenas sei o que me contaram. – Disse meio sem jeito o monge.

- Então, se não tens certeza, a informação já vazou pelos furos da primeira peneira que é a da profunda investigação da Verdade. Agora ela repousa sobre a segunda peneira, e por isso eu lhe pergunto: - O que tens a me dizer é algo que gostaria que dissessem sobre ti?

- De maneira alguma, Mestre! É claro que não! Diz o monge.

- Então tua estória acaba de passar pelos furos da segunda peneira que é a da compaixão, pois nunca deverias dizer ou fazer a alguém aquilo que não quisesses que fizessem ou dissessem de ti. Agora, tua estória repousa sobre a terceira e última peneira, e por isso lhe faço a última pergunta: - Achas que me contando essa estória sobre o seu irmão e companheiro de mosteiro, ela será útil a ele de alguma maneira?

- Não, Mestre, - respondeu já ruborizado o monge -. Refletindo profundamente, sob a Luz da Sabedoria, vejo que nada de útil poderia surgir dessas estórias e boatos.

- Então, essa estória acaba de vazar pela terceira peneira, para dissolver-se na terra. Nada restou para contar. E assim, lembra-te sempre que devemos ser como as abelhas que mesmo no mais imundo dos pântanos, buscam sempre as flores para delas retirar o doce néctar e nunca como as moscas que mesmo em um corpo sadio, buscam as feridas para delas se alimentar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Pérola resplandecente


Todo este Universo
em todas as direções
através do espaço e do tempo
é uma pérola resplandecente.

Nem vasto, nem estreito,
nem quadrado ou redondo
não duas ou três,
mas apenas uma pérola resplandecente.

O corpo existe agora e a mente existe agora
igualmente, todo o Universo é uma pérola resplandecente
não se trata de grama ou árvores aqui ou ali,
nem de montanhas e rios em todos os pontos cardeais
trata-se de uma pérola resplandecente

Mesmo que a aparência do seu girar e do seu não girar
pareça estar mudando constantemente,
tudo é apenas a pérola resplandecente.

(Dogen Zenji 1200-1253)
(Cortesia Koun)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Fim de ano



I -

No mundo inteiro é fim de ano

clamores de homens e mulheres

só, em minha choça de ervas, na calma

mais perfeita

como agradecer a Buddha?

Me sento em zazen e queimo incenso



II –

O tempo passa suavemente, é fim de ano

debaixo do céu, uma escarpa severa

dez mil montanhas, as folhas das árvores

tem caído

mil sendas, quase ninguém

toda noite queimo folhas secas

de vez em quando escuto o ruído

do vento e da chuva

olhando para trás me vem o passado

tudo não é mais que um sonho


Monje Ryokan Taigu (1758 - 1831)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ordenação de Rui Ikkô



Com o nome monástico de Tai Zui Ikô (Monge Ikô), foi ordenado como noviço na ordem Soto Zen, o líder do grupo zen de Campina Grande, Paraíba, Rui Ikô. A ordenação foi feita por Monja Coen ao final do Rohatsu Sesshin em São Paulo. Noviços preparados, regularmente ordenados segundo as tradições, com seus crânios raspados como Ikô San, dão ao budismo zen a esperança de florescimento e propagação do Dharma sem que este enfraqueça.