sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A árvore sem raiz



A Árvore sem Raiz

Tantas coisas a dizer sobre koan.
Até a definição do que é koan varia.

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Sem a realização.
A pessoa não pode ser realmente compreendida.
Então,como nós realmente estudamos o self?
A fim de estudar o self
nós usamos koans.


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Os koans que usamos, são os assim chamados
Koans kosoku, pois já foram originados
por outras pessoas e colocados em uma certa ordem
para serem estudados.Dogen Zenji fala sobre koans
de maneira um pouquinho diferente, não é?
Na verdade, essa era sua objeção quando foi à China.
A prática de koan, como estudos na China naquela época,
na Dinastia Sung, ele não achava que era a maneira correta,
não achava a maneira adequada de praticar koans.
Então, depois que voltou da China, Dogen
começou a apresentar sua própria maneira de apreciar um koan.
O Shoboghenzo, na verdade, é isso.
Seus escritos mais refinados,
conhecidos como Kaji Shobogenzo, distinguindo
mais de um tipo de Shobogenzo, são uma coleção de koans.

Mas o koan que estou pensando dividir com vocês
 neste sesshin não é da coleção de koans de Dogen Zenji,
chamada de Shinji Shobogenzo, o Shobogenzo chinês,
mas de outro de seus escritos em chinês, o Eihei Koroku.
No primeiro volume esse koan é encontrado.
Na verdade ele compõe koans.É isso o que eu quero partilhar com vocês,
dividindo esse único koan em três partes.
No Eihei Koruku,Dogen Zenji cita um trecho de um sutra
e então faz um koan a partir dali.
E faz comentários a respeito.
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Conta-se que ele (Indra) fez uma chuva de pétalas
Com fragrância, em celebração.
Ele desceu até elas e lhes disse:
“Vocês são maravilhosas!
Gostaria de lhes dar algo como prêmio.
O que vocês desejam?”

Essas damas eram de famílias ricas,
nascidas em uma classe muito alta.
De modo que disseram a Indra:
“Temos praticamente tudo.
Com relação à nossa vida nada nos falta.
Temos jóias suficientes.
Não desejamos nada particularmente.
Mas se você realmente quer nos dar algo,
gostaríamos de ter três coisas,
Se puder nos dar.”
E Indra disse: “Claro, digam.”
Então elas disseram: “Primeiro, por favor, nos dê
a árvore sem raiz.
Segundo, por favor, nos dê
o pedaço de terra onde não há yin e yang.

Yin e yang aqui é como dizer positivo e negativo.(Comentário de Monge Genshô)

Nem dia, nem noite,
nem mulher, nem homem,
nenhum par de opostos.
Esta é a terra que gostaríamos de ter.
E terceiro, nós gostaríamos de ter
um vale sem eco.
Essas três coisas gostaríamos de ter.”
Então Indra disse:”Não posso fazer isso,
e mesmo shravaka e pratyekabudas, os Iluminados, Arhats,

Shravakas são aqueles que se iluminam por ouvir o ensinamento  e pratyekabudas são os que praticam sozinhos para si mesmos...são três tipos.Shravakas, pratyekabudas e budas que se iluminam para os outros.(Comentário de Monge Genshô)

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não podem fazer isto.
Apenas grandes bodisatvas sabem o que elas são,
e apenas Buda sabe como conseguí-las.
Então por que não vamos a Buda pedir a ele?”

Na tradição budista os deuses são colocados abaixo de Buda.Então, na verdade aqui tem um fenômeno cultural do budismo que surgiu e se apropriou das simbologias hindus e as colocou como inferiores.(Comentário de Monge Genshô)

Dogen Zenji interrompe a história nesse ponto
e cria um koan.
“Como Indra não respondeu, vou falar
tomando o lugar de Indra.
O que é uma árvore sem raiz?”
diz Dogen Zenji.

Aqui há uma resposta de koan.(Comentário de Monge Genshô)

“O Cipreste no Jardim,
isso é que é.”
Alguns de vocês, tenho certeza,
já devem ter ouvido falar nesse koan,
...
O Cipreste de Joshu.
De qualquer forma, essa foi a primeira resposta de Dogen.
A Árvore sem Raiz é o Cipreste no Jardim.
Ele então disse: “  Se vocês não compreendem,
eu apanho meu bastão e digo:” É isso,
a Árvore sem Raiz viva.”
O que essa Árvore sem Raiz significa?
Podemos dizer todo tipo de coisas, como liberdade, libertação,
podemos até dizer que é nirvana
não fincado em lugar nenhum.
É fácil falar, mas quão difícil é
O Cipreste no Jardim!

Um monge perguntou a Joshu:

Joshu é muito famoso mestre Zen. Joshu viveu aproximadamente 120 anos. Então, um mestre que viveu muito velho, (778–897) D.C na China.(Comentário de Monge Genshô)

“Qual é a coisa mais importante no ensinamento de Buda.
Qual o ensinamento fundamental do Desperto?”
Ele responde: “Isso é o que é O Cipreste no Jardim.”
O monge continua a pergunta:
“não, não me responda
com esse tipo de dicotomia
de relação sujeito-objeto.
Não me mostre, tratando com o objeto.”
O monge olha para as árvores em jardins como objetos.
É assim que fazemos
então Joshu disse:
“não estou mostrando a você, tratando com o objeto.”
Então o monge coloca a mesma questão:
“qual é o princípio fundamental dos Budas?”
E joshu diz:
“O Cipreste no Jardim.”
E Dogen Zenji disse:
“Essa é a Árvore sem Raiz.”

Algumas pessoas imaginam que podem responder aos koans dizendo coisas sem sentido que vem na cabeça. Isso não vai funcionar.(Comentário de Monge Genshô)

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Algumas pessoas dizem que este é um texto Mahayana,
que sequer é um ensinamento de Buda.
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Nós tomamos tudo como ensinamento de Buda.
Essa é a nossa tradição.

Na nossa tradição (zen) Buda continua falando pela boca dos mestres.É tudo ensinamento de Buda.E é bobagem dizer que só o que foi escrito naquela época é ensinamento de Buda (isto é apenas a verdade histórica não a verdade mística). Não, os sutras Mahayanas são ensinamento de Budas, surgiram da boca de Budas, mestres iluminados.(Comentário de Monge Genshô)

No Denkoroku, Transmissão da Luz,

Denkoroku é uma coletânea de 52 episódios de transmissão.Exatamente episódios de transmissão ligados aos nomes que nós recitamos na cerimônia da manhã, mestre para mestre, como aconteceu nas transmissões.(Comentário de Monge Genshô)

Denkoroku, Trasmissão da Luz,
está escrito que Shakyamuni Buda,
olhando o planeta Vênus,
atingiu o caminho e disse:
“Eu e todos os seres, a grande terra,
simultaneamente atingimos a iluminação.”
Como você entende esse koan?
É exatamente o mesmo
o que Buda está falando
e o que Joshu está falando
e o que Dogen Zenji está falando.
Eles estão falando exatamente sobre a mesma coisa.
Sobre o que eles estão falando?
Claro que estão falando sobre a Árvore sem Raiz?
O que é esse koan ?
O que é isso?
Se vocês não sabem,
eu ergo este bastão e digo:
“É isso!”

Aquele ali,  este aqui,
o que é tudo isso, afinal?
Eu, você,
meu, de outra pessoa,
o que é isso?
“É isso!”
Sobre o que Dogen Zenji está falando –
A mesma coisa ou uma coisa diferente?
Se você disser a mesma coisa
você erra.
Se disser uma coisa diferente
você também erra.
Como você cuida
dessas duas expressões diferentes
“Cipreste no Jardim”
e
“é isso!”?
De qualquer modo que o diga,
está errado.
Então, o que é que você faria?
Com sua próprias palavras,
o que é que você diria?
Se alguém me pergunta, eu digo:
“Árvore sem Raiz tem raízes maravilhosas”,
simplesmente assim.
Não uma boa resposta tão boa,
com certeza.
De qualquer modo, onde está aquela raiz?
Quão profunda e firmemente ela está enraizada?
Todos esses pontos de teste do koan
São parte da prática do koan.
É uma prática maravilhosa,
o koan.

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É isso que é o koan.
É sobre isso que eles estão falando,
e Dogen Zenji, ele se opõe à prática do koan,
no entanto ele próprio
sempre fala sobre koan.

(Extratos de Texto de Maezumi Roshi)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sofrimento, o caminho curto



Pergunta: Com dor e sofrimento devemos persistir na almofada ou procurar o conforto da cadeira?
Resposta: A resposta é assim esse sofrimento do corpo também é muito bom, tem uma espécie de tortura, mas ela faz com que realmente a gente fique aqui. Quando você está aqui o mundo lá fora, o passado ,presente, desapareceram. E por isso quando tem um grande sofrimento físico também tem progresso, se quebra o ego mais rápido. O sofrimento é o caminho mais curto para o crescimento espiritual. Grandes sofrimentos podem ser bênçãos maravilhosas. Basta ver que muitas pessoas crescem espiritualmente quando têm, por exemplo,um câncer. Eu já tive esta experiência várias vezes de falar com pessoas que me procuraram porque estavam com câncer. E aí ele sabe o que é importante na vida, ele descobre que o carro não tem importância nenhuma, o que ele queria era ver o filho crescer. Este sofrimento é maravilhoso para abrir portas para realização espiritual.

Pergunta: Numa segunda fase que o corpo está dominado e começam as músicas lá no fundo, tem que combater ou pode deixar tocando?
Resposta: Se você não colocar nenhuma tensão nelas elas vão embora. Vocês prestem atenção, por exemplo, nas coceiras. Se sente coceira no nariz não coce  e coloque toda a sua atenção na coceira, diga assim: eu vou ficar olhando essa coceira. Tente não desviar a atenção dela nenhum segundo.Fique atentamente olhando a coceira. Vocês vão descobrir que não conseguem fazer isso por um minuto,  vão se distrair e quando se derem conta a coceira não está mais lá. Aí nós descobrimos como todas essas coisas são evanescentes.
(Estes dias uma pessoa que não faz zazen disse: "se não coçar uma coceira não para", eu respondi: "se você coçar nunca saberá o que é uma coceira".)

Pergunta: E se ele entrasse na música e passasse a ser a própria música?
Resposta: Se a música existisse, se ela fosse real, mas essa música é uma fantasia.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Níveis


Pergunta: A iluminação tem diferentes níveis?
Resposta: Há diferentes níveis. Mesmo que você consiga uma realização espiritual o mestre pode dizer: você conseguiu, agora vou lhe dar esse koan. Por exemplo:você obteve uma noção clara da vacuidade  – primeiro nível. Quer dizer que você respondeu todos os koans? Não.Os koans ligados a isso você consegue responder, mas os koans ligados a outros temas você não consegue responder ainda. O Koan Mu, o cachorro de Joshu é primeiro nível. O que é mu? Mostre-me o mu. Não é nem um pouco fácil porque na frente do professor olhando para você e pedindo a resposta instantânea, normalmente você não sabe, você trava, gagueja, ou tenta achar uma resposta com a sua mente, mas não funciona. Está claro que está errado. Não é uma resposta que veio das entranhas. A resposta correta ela vem de imediato, não precisa procurar, não tem raciocínio.É resposta de quem sabe. Neste nível que estamos, qual é a cor das folhas? Vocês já sabem, é conhecido, mas se começar a pensar já sai outra coisa.


Antigamente, no modelo oriental, esperava-se que o aluno estivesse mergulhado na cultura. Quando você tem um aluno que pratica artes marciais, por exemplo, eu noto que o treinamento é mais fácil porque o aluno já se habituou com a disciplina e para quem não passou por isso é mais complicado porque precisa aprender que tem que ouvir primeiro e não ficar questionando quando está começando.O questionamento é para depois. Quando os atletas praticam esporte também fica facilitado porque eles não ficam questionando e sabem que não dá para explicar todos os detalhes. O aluno que fica perguntando é o aluno que leva mais tempo. E os professores na tradição oriental nem respondem. Um mestre como Saikawa Roshi, na posição dele como superior da América do Sul não fala, chama um monge mais graduado e manda falar com o aluno e se o aluno não aceita e diz  “quem é você para me dar dicas, eu só aceito se for o mestre”, isso complica tudo porque na tradição oriental é assim. Então neste caso o aluno é abandonado e o mestre não faz nada enquanto ele não abandonar aquele ego. Por exemplo, na cozinha tem uma tenzo. A responsabilidade dela é treinar as pessoas para trabalhar na cozinha. Se alguém não gosta da instrução dela na cozinha o que se vai fazer? Tem que ir lá para servir e esse é um grande privilégio servir os outros.(Comentário de Monge Genshô)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mestre e iluminação


Pergunta: A iluminação precisa ser provada?
Resposta: Sim,na instituição,na forma, no treinamento precisa porque a pessoa pode estar enganada...

Pergunta: A busca do reconhecimento não é o ego?
Resposta: O que acontece quando você tem um mestre é assim: você acha que obteve uma realização, acha que tem uma resposta. Ele testa a profundidade desta resposta. Ele pode dizer:ainda tem eu aí. A qualidade do mestre é muito importante neste momento. Você pode treinar com uma pessoa que não é iluminada, isso não é problema.Você vai subir uma montanha. Tem problema de ter um guia que vai levar você uns três mil metros? Não.Tem outro que leva dos três aos cinco mil. Mas tem um outro que pode levar você dos sete aos oito mil metros, este último precisa ser um mestre qualificado, com boa realização espiritual.

Pergunta: A resposta é subjetiva?
Resposta: Isso aí só pode ser respondido com a experiência. Nós podemos dizer que a meditação tem algo de subjetivo.Uma pessoa que não meditou vai dizer que é auto-sugestão. Não adianta falar com quem não experimentou. A única coisa que você pode dizer é - experimente. Se você experimentar e sentar em zazen, sofrer aí dá para falar sobre o assunto, senão  não dá. Então a resposta não é tão simples porque pode parecer subjetiva para os outros.Então só um mestre que tem uma realização espiritual, que a gente costuma chamar de iluminação, reconhece, ajuda quem está chegando lá. Só quem experimentou pode fazer isso.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Koan


Palestra Proferida por Monge Genshô
Sesshin de Carnaval: 17 a 20 de fevereiro de 2007
Título: Comentários sobre Teishôs de Taizan Maezume Roshi
Tema: A árvore sem raiz
Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô



Taizan vai falar sobre koan.
Muitas pessoas pensam que a escola Soto Zen não usa koan,isto é um engano. A diferença é que a escola Rinzai põe ênfase nos koans. E a escola Soto põe ênfase no shikantaza, a meditação sentada, e deixa o koan como uma coisa auxiliar. No entanto, os mestres Soto costumam usar koan. Aquela pergunta quem é você? Não é um koan,aquilo é umhua-t''ou (jap. watô). É outra técnica, questões que pressionam. Mesmo os praticantes que estão há anos praticando têm muita dificuldade para responder essa pergunta de forma satisfatória.
Koan significa caso público, caso registrado. É um diálogo entre mestre e discípulo, que foi registrado, sobre o qual você pode pensar e tentar responder. Por exemplo, os discípulos estavam disputando por um gato. Normalmente não existem ou não é para existir animais de estimação nos mosteiros, mas de repente aparece um e é adotado. Então, havia um grupo de monges no mosteiro disputando um gato. O mestre chegou na sala, pegou o gato, levantou-o no ar, tirou a navalha que serve para cortar a barba e disse:digam uma palavra Zen e o gato se salvará. Um monge falou: o gato é meu, o outro: compaixão! não mate o gato! O mestre cortou o gato ao meio. Isto no budismo é absurdo. Mas, ele matou, assumiu o risco de fazer isto em benefício de muitos outros seres porque até hoje estamos falando nisso. À noite chegou um monge que estava viajando. O mestre relatou a história. O monge pegou as sandálias e as colocou sobre a cabeça e saiu, e o mestre disse: se você estivesse aqui teria salvado o gato. O koan é assim: me diga o que você teria dito para salvar o gato. Até hoje eu vi uma pessoa que salvou o gato, metaforicamente. Ele levou um ano tentando,mas conseguiu. É como a resposta quem é você? Se alguém dá uma resposta que ele aprendeu filosoficamente, na hora você vê que esta resposta é uma resposta só da sua cabeça.Traga-me uma resposta das suas entranhas. E esse é um dos problemas do koan porque originalmente aconteciam  diálogos entre mestres e discípulos, na época de ouro do Zen, e eram muito fortes estes diálogos, verdadeiras as respostas. Com o tempo isto foi sendo escrito e tornou-se caso público como essa história do gato  que eu estou contando. Mas vocês não estavam lá nem estavam disputando o gato. Então não era a sua vivência pessoal. É agora uma referência a um caso passado.
O melhor koan é o koan da vida da pessoa, mas precisa um professor realmente bom para isso. Então de certa forma burocratizou-se, institucionalizou-se o koan e começou-se a ter respostas codificadas e isso foi o enfraquecimento da escola Rinzai porque precisa muito bom professor para lidar com este problema. Tem que brigar com o aluno e precisa um  aluno forte também, um aluno que pode ser esbofeteado. Quando Dogen foi para a China, ele tinha sido criado, era monge desde os doze anos de idade, na escola Tendai ou Tientai que é uma escola do Vajrayana japonês. Hoje a grande corrente Vajrayana que nós conhecemos é a Tibetana. Mas existe o Vajrayana japonês como as escolas Tendai e Shingon. Então Dogen quando chegou na China ele viu um Rinzai decadente, modificado, não gostou e foi procurando até encontrar Tendo Nyojo que representava a Escola Caodong de Zen, que é a escola Soto, uma escola que se originou do sexto patriarca (em nossa linhagem) da China. (Comentário de Monge Genshô)
(continua)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A invisibilidade de Tozan


Nos primórdios do budismo sua representação era apenas de pegadas

Pergunta: Eu percebo que quando eu pratico a forma eu pratico também a não forma do Zen. Percebo também que a minha prática é facilitada pela prática da forma. O que me fortalece é a forma no Zen. É esse o caminho?
Monge Genshô: Está correto, muito correto. Se você praticar bastante você pode trazer aquela mente para qualquer instante até o dia que você conseguir ter uma mente vazia (de passado e futuro) vinte e quatro horas por dia. Diz-se de um mestre que ele um dia sonhou que estava sem cabeça, que era um corpo sem cabeça. E a partir desse dia ele nunca mais sonhou. Conseguiram entender? Conseguiu uma mente vazia então nem mais sonhava. Havia um espírito, um protetor de templo que queria ver mestre Tozan, mas ele só era capaz de ver quem cogitava e nunca conseguia ver mestre Tosan, então ele derramou farinha no chão da cozinha e mestre Tozan vinha andando e quando viu farinha no chão...uma gravíssima falta desperdiçar alimento num mosteiro. Ele pensou: oh,como alguém pode ser tão descuidado! então neste momento o espírito guardião do templo pôde vê-lo. Evidentemente é uma história mítica, mas ela pretende expressar o que é uma mente calma, quieta. Como vocês podem ver Florência e Shodô (crianças). Eles estavam brincando, não estavam fazendo zazen. Mas os corpos deles, as línguas podem ficar quietos? Não podem porque eles estão fervilhando. Eu também sou assim. Por isto, quando olhamos o praticante, com o tempo podemos discernir quem está praticando bem, porque pequenas coisas, pequenos gestos vão mostrar onde a prática está indo, o que está sendo obtido.

Pergunta: Para o Zen não existe reencarnação?
Monge Genshô: Para todo o budismo não existe reencarnação de um eu. No entanto não existe cessação. Só existe continuidade. Para o Zen é impossível morrer porque na verdade você não nasceu. Nós sempre estivemos aqui e sempre estaremos aqui. Toda manifestação que você tem é karma. Não estamos falando sobre reencarnação. Nós não estamos falando sobre cessação. Estamos falando de continuidade. É impossível sair dessa manifestação de karma a menos que você elimine as forças que o arrastam e isso só com uma realização espiritual, senão você vai continuar manifestando formas e identidades tão sofridas quanto as de hoje.

P.Gosto muito de fazer zazen por estar constantemente observando, porque vejo que naquele momento tem alguém cuidando de mim, os vários eus. Qual é a diferença entre estar vazio e eu estar constantemente olhando para aquilo que está ali dentro?
Monge Genshô: Me responda: quem é este que está olhando esses pensamentos?



Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis
Em 27 de outubro de 2006

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Livraria Catarinense - dia 7 de agosto


Trinta bastonadas deu-lhe Obaku



Pergunta:Gostaria de saber se tem diferença no Zen entre corpo, mente, alma e espírito. Por exemplo: há diferenças entre sofrimento espiritual e sofrimento mental?
Monge Genshô: Acho que são só palavras, porque nós poderemos dizer assim: a minha alma está sofrendo, querendo dizer que estou sofrendo intimamente com falta de paz, ou meu espírito não tem paz, ou minha mente não tem paz. Todos seriam sinônimos. Mas quando se fala em alma como uma partícula indivisível de uma pessoa que sobrevive à morte aí nós estamos falando de uma outra coisa, uma partícula eterna que não existe dentro da doutrina budista. Na doutrina budista todas as coisas são impermanentes, todas, inclusive a nossa consciência. Nós queremos que permaneça, mas não é assim. É como querer que o gume de uma faca permaneça quando a faca desapareceu. O gume, fio da faca, é inerente a existência da faca. Sinto-me confuso um pouco quando alguém me pergunta qual é a diferença que o senhor vê entre mente e consciência? As abordagens do zen não são bem assim porque corpo e mente estão misturados, coração e mente estão misturados. Não adianta você dizer minha mente está muito bem mas meu corpo não, eu estou com 41o de febre. Não é verdade. Se está com 41o de febre está delirando, então a mente não está bem. Sente reto e a sua mente muda. Agora faça assim (cabeça curvada) e me diga: como é essa mente? Não é deprimida? Agora coloque a coluna bem reta, atento, é outra coisa. Se você quiser mudar a sua atitude mental, se tudo estiver embaralhado, se tudo estiver difícil num dia, pare e respire fundo, sente bem reto, vá sentar em zazen. Turbulência na mente. Problema. Respire profundamente. As coisas vão voltar para o lugar. Por quê? Porque você voltou para o básico que é respirar. Nada mais tem importância de verdade. Tem a história de um mestre a quem um discípulo disse assim: como eu posso alcançar a iluminação? O mestre olhou para ele pegou sua cabeça e a enfiou dentro de um tanque de água e segurou, ele se debateu, quando estava afrouxando o mestre retirou a cabeça da água e disse: quando você quiser a iluminação do jeito que você queria ar me procure. Porque naquela hora ele não estava pensando em mais nada.
Esse é método típico da Escola Rinzai. Na Escola Soto se é mais delicado, pelo menos no princípio. Saikawa Roshi,  conta que Rinzai,  discípulo de Obaku, foi a Obaku e fez uma pergunta e Obaku deu-lhe trinta bastonadas, ou seja, deu-lhe uma sova. Obaku era um homem de quase dois metros de altura. E Rinzai foi falar com outro mestre e disse: eu fui fazer essa pergunta a Obaku e ele me deu trinta bastonadas. E o mestre disse: que pessoa gentil e carinhosa que  Obaku é. Como ele foi gentil e carinhoso com você! Histórias do Zen.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Para aprender esqueça opiniões



Pergunta: A aceitação das formas é uma maneira de deixarmos de lado o nosso eu, o nosso ego, não?.
Monge Genshô: É verdade, é bem colocado porque quando a gente tem uma opinião a gente vai para a prática e se diz por que é assim, por que não pode ser de outra forma. Quando você está colocando opiniões elas normalmente são vaidade, orgulho pessoal e manifestação do ego. Talvez o problema que eu estou abordando aqui é que há expectativas quando a pessoa vem praticar e ela não sabe essas nuances. Ela não sabe que a melhor forma de praticar é começar a praticar e não pensar. É muito mais fácil a gente ensinar o Zen para um aluno que vem de uma prática séria de artes marciais porque nas artes marciais isso já ocorre. O aluno começa e a gente diz faça assim e não tem muita opção para ele dizer não dá para dar o soco assim, ou eu quero fazer diferente, ou eu tenho uma idéia diferente. Pelo menos no meu tempo quando o aluno dizia isso o professor dizia: muito bem, mostre. E ele rapidamente aprende que não é um lugar para ele ficar manifestando opiniões. É um lugar para ele aprender. Ele foi lá e se colocou na posição de aluno e está ali para aprender e só começa a pensar sozinho depois de bastante tempo. Só quando ele tiver realmente um cabedal de conhecimentos é que vale a pena começar a cogitar. É como aprender piano. Um aluno vai à aula de piano e o professor diz assim: esta nota aqui é dó,dó-ré-mi. O aluno diz: mas eu não gostei, porque não é ré-dé? Vai levar muito tempo para ensinar esse aluno.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A expressão na vida diária



Algumas pessoas  se afastam por entender que a prática do Zen não era o que elas esperavam. Elas esperavam o que leram nos livros, coisas complicadas, koans, não dualidades, pensamentos muito complexos sobre o Zen. Não estão errados estes pensares, mas eles não são o verdadeiro Zen porque o verdadeiro Zen se expressa em pequenos detalhes e não se expressa através do conhecimento verbal, do raciocínio. Ele se expressa em outras coisas. Para nós vermos um bom praticante do Zen nós não o ouvimos, nós sentamos com ele, olhamos as suas costas. E ao olhar as costas do praticante nós sabemos: é um praticante sério. Não importa o que ele disser. Importa como ele pratica, como ele anda, como ele coloca os seus chinelos, como ele faz a oferenda de incenso, como ele faz cada coisa porque é na expressão da vida diária que nós vemos a verdade.
Não adianta fazer belos discursos sobre o Zen e depois ter um ataque de raíva. Esse não é o Zen. Não é o Zen falar bonito e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, mas viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas  quando estamos fazendo coisas no zendô, com todas as regras, aí nós erramos. Quando nós erramos, nós rimos, porque todos erramos. Mas quando nós erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente no zazen e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.
Não vale a pena praticar se você não compreende isso. É melhor então procurar uma prática em que você não sente este conflito. Mas eu fico pensando quantos desses enganos provêm de falhas minhas como professor. De explicar claramente o que é isso porque na tradição do oriente não se explica. Então simplesmente se faz e se espera que as pessoas consigam compreender sozinhas. Mas no ocidente como chegou a tão pouco tempo o Zen, acho que o professor tem que explicar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pela forma atingir a mente



Nós fazemos, por exemplo, o rakussu. Os praticantes antigos vão fazer votos, tomar os preceitos e para isso fazem os seus rakussus. Na nossa escola nós pedimos: faça o rakussu você mesmo, costure com agulha e linha. É difícil, detalhado, complicado, lento, impossível de fazer bem feito, mas você faz, ponto a ponto, semanas trabalhando para fazer um rakussu. Esse trabalho é forma? É forma sim. Esse trabalho é um trabalho espiritual? É um trabalho espiritual se você colocar o seu espírito nele. Significa dedicação para fazer o rakussu, lavar bem as mãos, acender incenso ,ir costurar com espírito atento ao que está fazendô, tomar isso como se faz uma meditação. E ao fazer isso esse pedaço de pano fica impregnado do nosso espírito ele ganha um significado, ele ganha um poder, porque nós, através da forma, criamos um poder no kesa e ele começa a nos influenciar.
O trabalho espiritual tem o sentido de, pela forma, procurar atingir o espírito. Então é um profundo engano entender a prática do Zen como: isso é orientalismo, isso é niponismo etc, porque se nós fossemos lá para o Japão onde começou a prática Zen, nós veríamos as pessoas dizendo, como aconteceu muitas vezes na prática japonesa, que isso era prática estrangeira porque a religião japonesa era o Xintoímo e o Zen não era japonês, era chinês. Essas tradições tinham sido trazidas da China, de mestres chineses.
Agora viajemos até a China e vamos ver a história do budismo e veremos os imperadores chineses e líderes chineses taoístas perseguindo o budismo porque era religião estrangeira, não era chinesa porque tinha vindo da Índia. E essas idéias eram estranhas à China. Ou seja, essa discussão é antiga demais, velha demais e engano que ressurge nas mentes há milênios. Há dois mil anos já havia esse tipo de problema. Então nós não podemos nos confundir com esse tipo de coisa. Temos que entender qual o sentido do Zen.  Por que no Zen se bate um sino de determinada maneira, porque é tão difícil. Sodô que agora está batendo há tanto tempo (o sino) conseguindo fazer três batidas bem parecidas. Quanto tempo levou para conseguir bater três vezes bem parecido. É bem difícil. Por quê? Porque é muito simples, mas expressa algo porque só uma mão calma pode bater igual. E como uma mão vai expressar essa calma? Só com uma mente calma. Então toda a forma que nós temos no Zen tem um sentido.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A forma no zen



O Zen diz que o apego à forma e aos rituaís é uma dificuldade. Do outro lado quando nós entramos num mosteiro Zen, ou num centro de prática do Zen, nós vamos ver que há muita exigência quanto à forma. Mais do que em qualquer outro lugar. Pedimos que os sapatos sejam colocados lado a lado e retos, não sejam jogados de qualquer forma. O que isso significa? Significa: quem tem uma mente desarrumada a expressa de forma desarrumada. Então se alguém chega num lugar e joga os seus sapatos de qualquer jeito isso expressa uma mente não respeitosa, não disciplinada, não reverente. Então a forma expressa essa mente.
 Então no método do Zen nós começamos com uma expressão formal correta esperando que através da expressão formal nós venhamos a modificar a nossa mente. É o caminho oposto. Nós sabemos, por exemplo, que quando alguém fica tenso, nervoso, contrai os músculos das costas. Então não adianta chegar para a pessoa e dizer assim: se acalme, relaxe. E a pessoa: mas eu estou nervoso. E as costas estão doendo de dor, contraídas. Nós sabemos que não adianta apenas fazer isso. Então nós pegamos essa pessoa e fazemos uma massagem nas costas, fazemos shiatsu, acupuntura, um bom banho bem quente e as costas relaxam e a mente relaxa. É claro, nós podemos começar por qualquer um dos lados e obter o resultado desejado. Podemos começar pela mente e obter o resultado no corpo, na forma. Mas nós também podemos iniciar na forma para tentar alcançar um resultado na mente.
Na verdade no Zen as abordagens dos dois lados existem simultaneamente. Sentamos em zazen para tentar criar uma mente pacificada. Mas como sentamos em zazen? Com uma forma e esta forma é altamente disciplinada, simétrica, apoiada, sólida, pacificada. Nossa mente pode ser uma tempestade, mas nós sentamos como budas, como estátuas de buda. E o professor diz: respire como um buda profunda e calmamente e deixe uma respiração natural se instalar. Fazemos um mudra como o de Buda, apoiamos três pontos no chão: os joelhos e as nádegas de maneira a ficar solidamente estáveis. Estabilizamos o corpo. Tornamos a coluna reta. Ao fazer isso nós influenciamos a nossa mente. É por isso que a forma é assim. Algumas pessoas não entendendo a forma olham para a escola Zen e dizem que isso é ritual e que é apego à forma. Não é apego à forma. Apego à forma seria se apenas sentássemos e brigássemos com as pessoas: você não está sentado certo. Você está sentado curvado. Você está sentado torto. Não pode sentar numa cadeira. Você tem que sentar em posição de lótus. Se nós fizéssemos isso seria apego à forma. Não é isso. Os mestres sabem que existe um sentido na forma e a forma é praticada para mudar a mente. É por isso que  trabalhamos assim.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Buda Mahavairochana


Kanzeon, a que ouve os lamentos do mundo


Qualquer coisa, todas as coisas são uma manifestação
de Mahavairochana Buda.

Maha vocês sabem é grande, Vairochana é um dos Budas transcendentes, Buda de sabedoria normalmente é apresentado fazendo gesto de sabedoria. Literalmente Mahavairochana quer dizer como um sol. Aqui é bem uma questão etnocêntrica. A gente fala Mahavairochana Buda e as pessoas dizem: quem é este Buda? Como é a estátua dele? Ele é devoto de Mahavairochana Buda, por exemplo. Mas é apenas um dos aspectos de manifestação de Buda, não é um ser em particular.(Comentário de Monge Genshô)

Isso é Mu-Ji.
Isso é dharmakaya.
Por isso é que entoamos
puro darmakaya  Vairochama Buda.
Nós não estamos apenas balbuciando palavras.
Elas têm implicações muito claras!
Darmakaya, isto é, Um.

Darmakaya é toda essa manifestação absoluta. É darmakaya se manifestando e esse é também um dos aspectos de Buda. Nós recitamos na oração das refeições – Darmakaya Vairochana Buda.(Comentário de Monge Genshô)

E Mu parece ser
o Buda Mahavairochana,
e Mahavairochana Buda parece ser
uma centena de gramas,
e cachorros também.

É por isso que Dogen Zenji diz, no Fascículo de Kannon, que o
Bodisatva Avalokiteshvara
É o Thatagata com o nome de Sho-Bo-Myo,
Iluminação do Dharma Correto.

E de fato, todos vocês
tem a sabedoria e compaixão de Kanzeon.
Isso é o que apreciamos juntos
e fazemos mais e mais iluminados.
Iluminados, não de um modo brilhante, pomposo,
mas iluminados através da nossa ação!
A maneira como fazemos uma reverência,
a maneira como fazemos gassho,
a maneira como andamos,
a maneira como servimos.

(Maezumi Roshi)


Pergunta: Mas Monge, como sabemos se estamos agindo da maneira correta?
M. Genshô: É simples. Quando você pensa a partir de si mesmo é uma ação egóica, quando você pensa nas necessidades dos outros seres você pensa na unidade. É como a relação entre amigos, como você sabe quem é um verdadeiro amigo? Aquele que estiver ao seu lado quando tudo estiver contra você, quando a sorte ou a fortuna o abandonam, estes são os reais amigos. Os que estão com você quando tudo está bem, quando há glória ou recursos abundantes são amigos da glória e do dinheiro. Então  a ação correta é aquela que não parece fácil e óbvia. 


(Palestra em sesshin, decupada da gravação por Denkô San em 2007)