sábado, 7 de fevereiro de 2009

Vida, morte, sofrimento.




P: Existe diferença entre matar um animal para comer, ou colher uma alface?

Procure mudar o foco para o sofrimento e não apenas para a palavra matar, que tem um significado mais simples, ligado à vida. Quando você corta cabelos, ácaros podem se alimentar deles, bactérias idem. Você sofre quando seus cabelos cortados são consumidos? Não, porque não possuem um sistema nervoso como outras partes do corpo. Seria muito diferente se lhe cortassem um dedo para ser cozinhado. Assim, existe diferença entre uma folha alface e um ganso de foie gras, torturado para produzir uma iguaria. Assim, considerando a dor que seus atos causam, você pode ver melhor as marcas cármicas que eles produzem.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Soto Shu na Europa


Foto de 2007 da comemoração dos 40 anos do zen na Europa. La Gendronniere.

Durante 40 anos o zen se desenvolveu na Europa, durante um bom tempo trilhou um caminho independente, e , sob a égide de Mestre Deshimaru cresceu de forma a impressionar a todos. Como diz, no vídeo abaixo, um dos mestres atuais, doenças da juventude (jeneusse) fizeram alguns acreditar que o verdadeiro zen era libertário, avesso as instituições e a sede central, já com 750 anos, no Japão.
Criam estes que o "verdadeiro" zen estava no coração dos seus seguidores e que não era necessária nenhuma organização. Esta visão, algo anarquista e idealista, criou forças centrífugas, e os grupos começaram a se dividir e enfraquecer, cada um defendendo idéias próprias e métodos diversos.
Após esta enfermidade "nova era", o zen amadureceu, e em sua maioria, os monges mais velhos passaram a se filiar a Soto Shu, viajar até a sede, até o momento atual em que majoritariamente o zen francês tornou-se oficial e sua sede de La Gendronniere passou a ser o centro da Soto Shu na Europa.
Um vídeo, em francês, pode ser visto aqui com a comemoração dos 40 anos do zen na Europa e a presença de grandes mestres da Soto Shu, entre estes Aoyoma Roshi (abadessa do mosteiro feminino de Nagoya) e Saikawa Roshi (Sookan para América do Sul)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Opiniões


P: Não é verdade que, se não discutimos nossos pontos de vista, cada um fica com o seu e não se chega a lugar algum? Não estaremos condenados a repetir a opinião alheia, mesmo que seja a de um mestre? Por que não se deve defender opiniões no Zen?

R: É axiomático no Zen que a discussão, a linguagem e quaisquer meios similares não permitem ao homem achar o fim dos meandros da falsidade, da verdade etc. O método é silenciar e meditar. Do ponto de vista filosófico, o que você expressou está muito bem defendido por J. Barzarian em seu livro dialético sobre 'A verdade'. Mas o Zen não partilha dessa posição filosófica; estaria mais próximo a Hume e seu empirismo. Na verdade, o Zen é avesso à filosofia em si, embora eventualmente a use para alcançar alguns passos iniciais do caminho. Ou seja, no início é aceitável usar esses meios, mas logo a seguir devemos nos distanciar deles. As opiniões, mesmo dos mestres, são úteis apenas relativamente. Não serve falar sobre o sal, ele deve ser posto na boca; a verdade não será encontrada no discurso ou nas opiniões sobre o sal, e quem o prova não pode explicá-lo completamente aos outros. Cada um deve prová-lo por si. Assim, é a prática a essência do budismo e não o discurso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Shiksha - Budismo, filosofia ou religião?


Monja Isshin comenta em seu blog (link ao lado)

"Encontro muitas discussões - e ninguém consegue chegar a uma conclusão definitiva - questionando se devemos considerar o Buddhism como uma religião ou uma filosofia. Mas isto é como tentar colocar uma peça redonda num buraco quadrado - não dá certo, pois os conceitos “religião” e “filosofia” são conceitos ocidentais e o Buddhismo não nasceu no ocidente.

Mesmo chamar a nossa prática de Zazen de “meditação” não é uma boa tradução, pois o termo original, “bhavana”, significa cultivo ou desenvolvimento. Assim, temos as práticas de metta-bhavana (cultivo de bondade amorosa), panna-bhavana (cultivo de sabedoria ou desenvolvimento de compreensão) e samadhi-bhavana (cultivo ou desenvolvimento de concentração), samatha-bhavana (cultivo da tranquilidade) e vipassana-bhavana (cultivo de “insight”), entre outros.

A palavra “meditação” pode induzir praticantes ao erro de pensar que a Iluminação é simplesmente o resultado do praticante ter alcançado um determinado nível de compreensão mental. Mas o Mestre Dogen é muito claro em nos instruir que precisamos “Aprender a Verdade com Corpo e Mente” (Shobogenzo, “Shinjin-gakudô”). Talvez seja por isso que a “forma” é tão importante no Zen japonês. Através do cultivo (”bhavana”), não somente a mente, mas também o corpo se ilumine e realizamos (tornamos real) o Caminho de Buddha.

Mesmo a palavra “zen”, que vem da palavra “ch’an” que foi a transliteração chinesa do termo dhyana (sânscrito) ou jhana (pali), frequentemente é mal-traduzida, como a meditação zen-budista. Mas, zen-ch’an-jhana-dhyana significa “absorção mental” e representa a base fundamental para o desenvolvimento da Concentração Correta."


Em seguida, compartilho um texto do Blog “Ox Herding“:

Hoje em dia, as pessoas se perguntam como devem chamar o Buddhismo. Muitas se referem ao Budismo como uma religião, outras o chamam uma filosofia, visão de mundo ou até mesmo um estilo de vida.

Estes conceitos teriam provocado estranheza nos Buddhistas antigos.

Os primeiros textos Buddhistas se referem aos ensinamentos de Buddha como um “sistema de treinamento” - shiksha, em Sânscrito. O treinamento Buddhista tem resultados específicos, tais como: generosidade, sabedoria, compaixão, bondade, e outras qualidades. E, obviamente, o despertar completo para a Natureza-Buddha inerente.

Os primeiros professores Buddhistas dividiram os praticantes em dois grupos: os que estavam ainda engajados no treinamento (shaiksha) e aqueles que haviam completado o treinamento (ashaksha).

Como comenta o tradutor Red Pine, “O Buddhismo é melhor compreendido como uma habilidade ou uma arte a ser treinada e aperfeiçoada e não como informação ou conhecimento a ser aprendido e acumulado.”

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ideologias


P: O budismo pode tomar posições políticas ou ideológicas?

R: Creio que a questão aí está nas palavras " budismo" e no conceito de "grupos budistas". O budismo em si não é uma instituição e não se confunde com nenhuma das centenas de escolas existentes nem nos milhares quiçá milhões de grupos diferentes com suas próprias idéias. Grupos que se autodenominem budistas podem ter as mais diferentes posturas e cada budista também pode faze-lo, porém o budismo não pode por definição se envolver com proposições do mundo relativo, as pessoas budistas é que o fazem. Assim minha postura é me recusar a defender ou apoiar no grupo de prática as
discussões que envolvam posicionamentos políticos ou ideológicos. Mas evidentemente outros grupos podem resolver agir diferentemente, isto em nenhum momento deveria ser confundido com o budismo em si, o próprio Buda numerosas vezes recusou-se a sequer responder perguntas que continham tais armadilhas.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ilusão e delusão


P: Qual a diferença entre ilusão e delusão?

R: São dois conceitos realmente diferentes, veja:

Ilusão: Você vê e sabe que é, ex: cinema é uma ilusão de ótica, você sabe como funciona (24 quadros por segundo etc...). Existe uma realidade subjacente da qual você tem conhecimento, você pode escapar dela por mero raciocínio.

Delusão: Você vê mas não consegue perceber a realidade subjacente. A delusão engana a experiência e impede qualquer outro raciocínio. Ex: Uma pessoa "vê" um fantasma, era um fogo de santelmo mas ela corre e se desespera, mesmo que se explique a pessoa não consegue se acalmar. A realidade que vemos é assim, mesmo que expliquemos que são nuvens de átomos, impermanentes, interdependentes, a ilusão nos toma completamente e não conseguimos nos livrar dela, é o caso do EU, você sabe que é construído, mas não adianta, ele está sempre tomando conta de você. Isto é delusão, é muito mais seriamente enganador.

sábado, 31 de janeiro de 2009

No último momento


P: Seria possível uma pessoa se iluminar no fim da vida, mesmo tendo vivido uma existência desregrada?

R: Teóricamente sim, a morte é um grande momento, uma oportunidade, mas precisa-se estar preparado para ela ou seremos arrastados pelos nossos condicionamentos cármicos tal como sucede nos sonhos. Na prática seria muito surpreendente alguém se libertar sem haver diligentemente elaborado isso. Construímos uma mente durante toda a vida, como modifica-la radicalmente em um instante?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

"O Centro Dentro de Nós"


"O Centro Dentro de Nós"

do Rev. Sensei Gyomay Kubose
Sensei Gyomay Masao Kubose foi discípulo do Rev.Haya Akegarasu e fundou o Buddhist Temple of Chicago, sendo seu líder espiritual até sua morte, em 29 de março de 2000, com 94 anos de idade. Foi citado muitas vezes por sua obra no âmbito da comunidade buddhista e das relações comunitárias e em 1970, recebeu o World Buddhist Mission Cultural Award. Durante toda sua vida o Rev. Kubose enfatizou e ensinou a todos o Buddha-Dharma não-sectário.
Você pode pedir um exemplar aqui

LAVE OS PRATOS (uma história zen famosa comentada em um trecho do livro)

Um noviço aproximou-se de seu mestre e disse: “Por favor, ensina-me Buddhismo”. O mestre perguntou: “Você já comeu?” O noviço respondeu: “Sim”. O mestre disse: “Então, lave os pratos”.

Esse diálogo é famoso. Após comer, é natural lavar os pratos e limpar o resto. Este modo natural é o modo buddhista. Quando a ajuda é necessária, vá e ajude naturalmente - sem nenhuma sensação de obrigação ou dever.

Nuvens aparecem no céu de acordo com causas e condições. Elas se movem como devem se mover. A água flui de um plano superior para um inferior. O homem é parte da natureza. Por que não vivemos naturalmente? Quando nosso ego aparece, há tanta artificialidade e pretensão! Sim, a vida algumas vezes é dura - muito dura. Mas a vida deve ser vivida. Não podemos escapar. Ficamos doentes. Sem ninguém para ajudar. É a vida. Encare a realidade de frente e não seja derrotado. Não seja arrogante. Quando for difícil, agüente. Ajude os outros e seja ajudado. Esta é a forma natural.

Quando fazemos coisas, por menores que sejam, que possamos fazê-las cem por cento. Não cometemos muitos enganos nas coisas grandes da vida; cometemos nas coisas pequenas. A vida, no final das contas, é composta de coisas pequenas colocadas juntas. Cada ação deve ser feita cem por cento, de modo que, no final do dia, não haja arrependimento. Uma vida buddhista é uma vida sem arrependimentos.

Lavar seus pratos após ter comido é algo comum, uma coisa natural. O Buddhismo não é algo especial. Viva como o vento; viva como a água que flui. Faça tudo sincera e completamente - sua vida se tornará perfeita. Perfeita sem comparações, pois não há algo como um critério geral. Cada um vive sua verdadeira vida. Isto é o que o mestre queria dizer quando falou: “Depois de comer, lave os pratos”.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Dharma com Pipoca - O Curioso Caso de Benjamin Button


O sonho de rejuvenescer sempre se mostra tão insatisfatório quanto o fato de envelhecer. A alegoria do filme vira o tempo no sentido contrário e esta impermanência produz sentimentos surpreendentes na platéia.

A Comunidade Zen Buddhista de Florianópolis convida a todos para participarem do "Dharma com pipoca no cinema", com o filme O Curioso Caso de Benjamin Button - que será exibido na sala 3 do Shopping Iguatemi, nesta quinta-feira (29/01), pontualmente às 19hs. Após o filme haverá um bate papo informal com o monge zen buddhista Meihô Genshô, sobre passagens pertinentes do filme.

O Curioso Caso de Benjamin Button
Warner Bros
The Curious Case of Benjamin Button - 2009
EUA / 167 min / 12 anos / Drama / Legendado
Direção: David Fincher.
Elenco: Brad Pitt, Tilda Swinton, Cate Blanchett, Elle Fanning, Elias Koteas, Julia Ormond, Jason Flemyng.

Sinopse: Baseado em um romance homônimo de F. Scott Fitzgerald, escrito na década de 20, o drama conta a bizarra história de um homem que nasce com 80 e poucos anos e começa a rejuvenescer. Bejamin Button nasce em 1918, no final da I Guerra Mundial, e com o passar dos anos torna-se cada vez mais jovem, ultrapassando os anos até chegar ao século 21.

Aguardamos todos na quinta-feira, às 18:30h em frente a sala 3.

Qualquer dúvida manter contato por e-mail ou pelo tel. 9982.1969 com Michel Seikan.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Venerável Uttaranyana Sayadaw em São Paulo



O Conselheiro do Colegiado Buddhista Brasileiro
Venerável Uttaranyana Sayadaw ensinará em São Paulo

Jan 24th, 2009 by salvarez

Palestra e Workshop Buddhista: Meditação Vipassana e o Caminho do Meio

No dia 13/02/2009 - Palestra das 20h às 21h30 - O que é o Buddhismo?

No dia 14 e 15/02/2009 - Workshop das 9h às 17h. - Instruções e práticas de Meditação Vipassana e ensinamentos sobre o Nobre Caminho Óctuplo.

* Contribuição Sugerida: sexta, sábado e domingo: R$120,00; Sábado e domingo R$ 110,00; apenas sábado ou domingo R$ 70,00.

* Contato: (11) 9309-6400 (Noriko) noriko@superig.com.br; ou (11) 8485-9458 (Fernando) emporio56@uol.com.br

*** O Evento será realizado no Espaço Projeto Oásis - Rua Michigan, 333 - Brooklin Paulista.

Sobre o Venerável:

O Venerável Uttaranyana Sayadaw é Conselheiro do Conselho Consultivo do Colegiado Buddhista Brasileiro e é o atual abade do Birmingham Buddhist Vihara. O Bhante nasceu em Myanmar em 1949, e desde sua infância é monge theravada. Além de sua formação monástica, dedicou-se ao estudo acadêmico, tendo recebido em 1998 seu PhD. Atualmente é professor da International Buddhist University, onde leciona Gramática Pali, Majjimanikaya, Abhidhamma e Meditação Vipassana.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Yamagataken



Este é um mapa que mostra a província de Yamagata no Japão. Neste local está o templo zen de Saikawa Roshi, o Superior da Soto Shu para a América Latina (Sookan). Cedendo seu templo, para registrar os monges brasileiros oficialmente, Saikawa Roshi obtem uma unificação rara no ocidente, da qual o Brasil se torna paradigma, e que deve se consolidar em julho/2009.
Pertencendo a mesma organização central, a Soto Shu, os monges brasileiros, de todas as linhagens, passam a ser irmãos no Dharma, partilhando os mesmos templos, obtendo uma irmandade pacificadora, e acesso a treinamento padronizado internacionalmente. A união dos mestres que propiciam esta iniciativa é a lição principal para os alunos, que assim aprendem o ensinamento básico da busca da harmonia.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Reações


P: Não resisto a responder e devolver as palavras ásperas que ouço, minha prática de meditação é incipiente e tendo a insultar. O que devo fazer?


R: Há que considerar que existem pessoas que, tendo muitos maus sentimentos dentro de si, os expressam tentando provocar reações. Isto é uma falta de disciplina mental e um grande impedimento ao progresso espiritual, são estes os incendiários do mundo, eles só podem dar aquilo que possuem, se tivessem em seu coração amorosidade e compaixão seria isto que sairia de sua boca.
Você que deseja praticar não deve entrar no seu jogo, as pessoas que tem raiva ou ódio são como atiradores de brasas, são os primeiros a serem queimados quando tentam joga-las em alguem, quando houver oportunidade devemos desperta-los para isso, mas isto não é possível reagindo da mesma forma. Brasas se consomem sozinhas se não colocarmos mais combustível junto a elas. Se você as olhar como flores e ajuda para seu progresso, as brasas serão como lotus em suas mãos.
A ordem das ações é pensamento-fala-ação, assim o que você deve fazer é tentar que o pensamento de reagir não surja, ouça apenas, como isso é difícil você tem a oportunidade de, embora surgindo pensamentos e emoções, fechar firmemente sua boca e nada dizer, faça o propósito firme de agir assim e se ponha em teste, quanto mais vezes conseguir mais fácil ficará, depois comece a tentar mudar seus pensamentos, vigie-os e não deixe que eles sejam seus senhores, seja você o senhor de sua mente.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Entrar em um mosteiro zen


P: Como se entra em um mosteiro zen? A organização provê o sustento? O monge recebe algum estipêndio? Como se aprende o Dharma? Que facilidades terei se quiser isso?

R: Quanto a aprender o Dharma vou contar a antiga tradição para ser admitido em um mosteiro zen no Japão, nada tem a ver com dinheiro mas muito quanto as questões, constrangimento, facilidade etc..que são preconizadas pelos novos praticantes:

O postulante deveria ficar três dias sem comer em frente ao portão do mosteiro, sem se afastar, urinando por ali mesmo. Após estes três dias, sem que ninguém lhe perguntasse nada, o porteiro o interroga, pergunta o que quer, o postulante diz que deseja ser monge, o porteiro diz que o mosteiro é muito ruim para uma pessoa como ele, fina assim, que vá a um lugar melhor. Se o postulante insiste é então levado a uma sala, chamada Tangaryô, que nada tem exceto lugar para meditar e uma porta aberta que dá para a rua, o porteiro lhe leva uma tigela de arroz com um picles e água. Durante sete dias ninguém fala com ele, o postulante deve ficar meditando sentado em frente a parede todo o tempo, caminhando em meditação em volta da sala para relaxar as pernas. Se após este tempo, não tiver saído pela porta, pode entrar no mosteiro, durante um ano será subordinado de todos os veteranos, sem nunca protestar.
(O sistema da sala Tangaryô é usado até hoje nos mosteiros zen do ocidente)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Rituais que papel tem no buddhismo?


Os rituais foram na realidade desenvolvidos com o tempo, em diferentes culturas de forma diversa e representam auxílios a prática, no entanto elas não são o coração da prática do Buddha, podem ser adequados a uma pessoa e estranhos a outra. Os professores procuram enxergar isso e adaptar a cada aluno o que é mais correto para ele dentro da escola que tem tantos aspectos diferentes. Tudo para dizer que zen significa literalmente meditação, e que o cerne da prática em nossa escola é o zazen, à medida que vamos convivendo na comunidade vamos aprendendo outras técnicas da escola e nos tornando proficientes em alguns outros pontos, o professor observa e troca os alunos de atividade dando a eles oportunidades de se expressar e mostrar na ação o que a meditação está produzindo internamente. Quanto aos métodos de outras escolas eles certamente foram desenvolvidos em contextos que os exigiram e são os melhores para certo tipo de pessoas, assim como os do zen são para os alunos que se sentem atraídos por este, não são superiores ou inferiores, corretos ou incorretos, somente riqueza e diversidade do budismo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Manifestação/ renascimento


P: Qual o motivo de nascermos com determinadas características?

R: Numa imagem metafórica, é como perguntar por que uma onda de água, ao bater num rochedo, reflui para o mar com igual força. Isso ocorre porque um "quantum" de energia tende a se propagar, e se manifestar com a mesma força e mesmas características básicas do fenômeno que o antecedeu. Percebemos, assim, que o "eu", sendo um fenômeno temporário, uma construção aparente, não pode ser permanente, e,
portanto, não pode se manifestar novamente como o mesmo eu. Apesar disso, sua energia acumulada, sua onda "cármica", esta sim, manifestar-se-á de novo, com características semelhantes. Logo, não existe "um mesmo ser" ou "um eu" para reeencarnar. Prefiro mesmo a palavra "manifestação" a "renascimento", o "re" leva à crença em um nascimento que se repete, do mesmo indivíduo, tese do filósofo Senika que Buda refutou.

Uma imagem normalmente usada no Budismo: uma semente de manga produz uma mangueira que produzirá mangas do mesmo tipo (Nagasena responde assim ao rei Milinda). Não são as mesmas mangas, mas são uma continuidade semelhante, determinada pelas características anteriores. Nesse entendimento podemos dizer que um "eu" particular não renasce, pois sua existência é uma delusão. Porém, a carga cármica de cada ser manifesta-se novamente, mantendo sua força e características anteriores. No Zen Budismo, praticamos para alterar o carma e, até mesmo, a extingui-lo, voltando ao seio de nossa natureza última, não distinta nem perturbada por marcas particulares, nem pela crença em um "eu" separado, que é a ignorância fundamental.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em que nos concentramos no zazen?


Se EU ficar concentrado, como é que me libertarei deste EU? Se há alguém observando quem é este que observa? Como nos libertaremos do eu se estamos reforçando-o lhe dando um papel?

Eis porque o zazen não tem foco nem concentração em nada, porque isto serve como âncora para um eu se solidificar.

Naturalmente, no início da prática várias técnicas são usadas para ajudar a obter estabilidade, tais como contar respirações, no entanto este ainda não é o zazen propriamente dito. Abaixo um texto de 750 anos atrás explica melhor. (Atualmente o termo Hinayana não é mais usado por não haver mais nenhuma escola sobrevivente a que ele possa ser aplicado, a palavra Hinayana reflete um conflito existente 2000 anos atrás entre diferentes propostas de prática budistas. Dogen indica também que o zen não se enquadra como método Mahayana )

"Dogen Zenji (1200-1253) diz no Eihei-koroku (Coleção Formal de Discursos e Poemas de Dogen Zenji), vol.5: “Em nosso zazen, é de fundamental importância sentar-se na postura correta. A seguir, regular a respiração e se acalmar. Na Hinayana, há duas formas básicas (para a prática do iniciante): uma é contar as respirações, e a outra é contemplar a impureza (do corpo). Em outras palavras, um praticante Hinayana regula sua respiração ao contá-la. A prática dos budas e ancestrais, porém, é completamente diferente da prática Hinayana. Um mestre ancestral disse: ‘É melhor ter a mente de uma raposa enganosa do que seguir o caminho de auto-controle Hinayana’. Duas das escolas Hinayana (praticadas) no Japão hoje são a Shibunritsu (a escola dos preceitos) e a Kusha (a escola baseada no Abhidharma-kosa).

Existe também a maneira Mahayana para regular a respiração. E essa é saber que uma respiração longa é longa, e que uma curta é curta. A respiração atinge o tanden e se inicia ali. Apesar da inalação e da exalação serem diferentes, ambas passam pelo tanden. Quando você respira através do abdômem, é fácil perceber a transitoriedade (da vida), e harmonizar a mente.

Meu falecido mestre Tendo disse: ‘O ar inspirado atinge o tanden; porém, não é que esse ar venha de algum lugar. Por esse motivo, ele não é curto, nem longo. O ar exalado sai do tanden; porém, não é possível dizer para onde esse ar vai. Por esse motivo, ele não é longo, nem curto’. Meu professor explicou dessa forma, e se alguém me perguntasse como fazer para harmonizar a repiração, eu responderia dessa maneira: apesar de não ser Mahayana, é diferente da Hinayana; e apesar de não ser Hinayana, é diferente da Mahayana. E se eu fosse questionado mais além em relação ao que é em última instância, eu responderia que inalar ou exalar não são nem longos, nem curtos.”

Mais detalhes no site oficial da Soto Zen aqui

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O que é Samadhi ?


“Samadhi é o estado de profunda concentração. É obtido na prática de meditação. Com o corpo imóvel, a respiração profunda e inicialmente observada, a expiração lenta sob tensão do abdomen, a musculatura relaxada, o corpo como uma estátua, a mente 'como um leão prestes a saltar', em completa atenção, longe de qualquer fantasia, criam-se as condições para o samadhi. Quando ele surge nada mais é observado, a mente se torna livre de pensamentos obsessivos e invasivos, de seqüências associativas, a percepção do mundo em torno fica cada vez mais nítida.”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O zen tem o cânone como base?


Sim, o cânone, o Triptaka, reunião das escrituras mais antigas, originalmente registrada em língua Páli,consolidada 300 anos após a morte de Buddha, que tem várias versões e traduções, é básica para o budismo zen. Também usamos muitos sutras posteriores mahayana, como o Sutra do Diamante , (na foto acima) e ainda os escritos de grandes mestres zen.
Porém o zen se considera uma transmissão "mente a mente" além das escrituras, assim essas tem o valor relativo de um mapa, não são o caminho em si, esse cada um tem que trilhar, com o auxílio de um mestre, seguindo os preceitos, cultivando a mente compassiva. É melhor andar do que ser erudito dos textos.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Posso contatar a Realidade Suprema ?


Não existe uma "realidade suprema" só uma realidade... as coisas são como são, não devemos nem mitifica-las nem nega-las. A iluminação nada tem a ver com crenças, estas não sobrevivem a sabedoria...

P: Surge-me medo quando medito, por que?

R: Medo normalmente provem de sentimentos de aniquilação do ego, há erro na meditação, o ego é necessário para viver e transitar no mundo, não precisa ser destruído. Descubra: de onde vem este medo?

P: O que o senhor pensa sobre o Sutra do Lótus?

R: O Sutra do Lótus é um sutra tardio, escrito provavelmente séculos após a morte de Buddha, deve ser lido com espírito crítico. Ele também é lido em cerimônias zen budistas, mas considere que no zen todas as escrituras são relativamente irrelevantes, pois são o conhecimento de outros e o que importa é nossa experiência pessoal não a discussão sobre escrituras.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Misturas de trilhas


P: O Sr. acha impróvavel que alguém consiga a liberação tendo influências mistas? Falo de um buscador sincero que entenda que muitas tradições ensinam o desapego e a existência de uma "outra perspectiva". No meu entendimento, o Cristianismo (quando realmente compreendido) e o Hinduísmo (Advaita Vedanta) também ensinam o Dhamma. Gostaria de saber sua opinião.

R: Acho mais provável quando a senda que a pessoa segue não é uma “salada” de diferentes coisas, a moda atual de pegar o que se gosta de cada lado criando uma mistura sem coerência filosófica, a imagem é que subir uma montanha se faz por uma trilha, não seguindo pedaços de trilhas, e, sim, tenho certeza que pessoas no cristianismo e no vedanta , por exemplo, podem atingir a iluminação.
No entanto tenho sérias dúvidas sobre pessoas que pegam pedaços de cada coisa e fazem sua própria colcha, ou de divulgadores pop que fazem do caminho espiritual um show. Sim, o Dharma não é exclusividade do budismo, se fosse os Budhas não o achariam por si. Veja que não nego a posssibilidade da seriedade de buscadores que criam seu próprio sistema alcançarem a liberação, mas a experiência mostra demasiadas imposturas entre esses.