terça-feira, 27 de maio de 2014

Perdão


Grupo zen em Goiânia

Pergunta – Tudo no Zen é perdoável? No Cristianismo existe a máxima de perdoar setenta vezes sete ou que o perdão é ilimitado. No nosso plano humano existem coisas imperdoáveis.

Monge Genshô – Essa é uma máxima bíblica que diz: “Não perdoe uma pessoa apenas sete vezes, mas sim setenta vezes sete”. Mas este tipo de afirmação com números também acontece nos textos budistas, por exemplo, dizem que Buda deu oitenta e quatro mil ensinamentos. Esse número é apenas uma maneira de dizer “muitos”.  Se remontarmos ao budismo, veremos que não existe um conceito como pecado ou desobediência. Nas religiões teístas existe uma divindade que dá mandamentos e você, ao desobedecê-los, comete um erro passível de ser punido, mas também de ser perdoado por alguém superior à você.

Já no budismo o que existe é o conceito de ação e consequência, que é o carma.  Você comete uma ação que terá consequências inescapáveis, pois não há ninguém que irá perdoá-lo de maneira que você não sofra as consequências. As consequências virão. O que você pode fazer é minimizá-las, tratando de praticar ações que melhorem seu carma, como é o caso de ofender alguém e pedir desculpas, mas sempre fica um resíduo nesse pedido. Em caso de ocorrer uma nova ofensa, a outra pessoa está pronta para responder de forma mais explosiva, ou seja, o carma não é eliminado inteiramente em razão de uma desculpa.

Temos que considerar que o conceito de perdão que limpa, não existe no budismo, mesmo o conceito de pecado inexiste no budismo. Mas no terreno humano, que está por trás desta escritura que você citou, sua capacidade de desculpar tem que ser infinita, porém, o caminho para que ela seja infinita não é “eu perdôo”, mas sim, “eu compreendo realmente como funciona a mente daquele que me ofende e sei perfeitamente que eu também sou assim, que ele e eu somos idênticos”, esse é o caminho da compaixão.

Sem dúvidas um caminho muito difícil, pois muitas vezes simplesmente não aceitamos e por não nos colocarmos no lugar do outro, não o perdoamos. Falamos com muita facilidade de compaixão, mas compaixão com nossos iguais é muito fácil, agora ter compaixão com um criminoso que mata seu filho? Isso é muito difícil.

Pergunta – Porque existem ações com consequências muito graves e outras nem tanto, sendo que são da mesma natureza? Por exemplo, matar um Monge ou como na história do assassino Angulimala, que se tornou Monge.

Monge Genshô – A história de Angulimala, que era um assassino que foi convencido por Buda que poderia mudar, fala que o resgate é sempre possível. Você pode sair do mais profundo erro e tornar-se uma pessoa boa. Porém, Angulimala não escapa da consequência de seus atos. Depois de tornar-se monge, um grupo de pessoas que o odiavam e não o perdoavam pelo mal por ele praticado, se reúnem e lhe batem até quase o matar. Buda lhe diz apenas: “Aguente Angulimala, aguente. Foi você que provocou todo esse ódio”. Certamente durante muitas vidas ainda haverá consequência pelos seus atos. Muitas vezes nos perguntamos porquê uma pessoa que aparentemente é inocente sofre tanto. Talvez não tenha feito nada para merecer o sofrimento nessa vida, mas esse é um carma antigo. Mesmo Buda, uma vez ele se encontrava doente com fortes dores de cabeça e alguém lhe pergunta: ”Mas como que o senhor uma pessoa desperta sofre com dores?” e Buda lhe responde: “Agora, mas em uma vida passada eu matei um peixe e este carma está aqui”.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Para conversar procuremos as similaridades


Pergunta – Me identifico muito com o budismo, por isso estou aqui, mas é possível seguir o budismo tendo outra religião?

Monge Genshô – As técnicas de meditação sim. Mas se formos aprofundando a prática e os conhecimentos, vai ficando incompatível, por exemplo, o budismo não considera a existência de um deus criador. Em determinado momento a pessoa terá que escolher. Do ponto de vista místico ou virtuoso, as diferenças são poucas. Se você comparar os mandamentos bíblicos com os preceitos budistas, eles são em espírito praticamente os mesmos, com algumas diferenças, é claro, por exemplo, o budismo não vê no sexo um pecado, o preceito é “não usar sua sexualidade de forma a causar sofrimento”. Se você, como forma de castigar sua esposa ou marido, se recusar a fazer sexo com ela ou ele, está causando sofrimento, e é errado.

No cristianismo, por exemplo, todos nascem com um pecado original e necessitam ser batizadas para tirar esse pecado. No budismo não existe o conceito de pecado, muito menos de um pecado original. O budismo vê ação e consequência, cada ato seu terá retorno e não há um deus que irá lhe castigar, você é quem terá que lidar com seus erros, pois também não há ninguém para absolvê-lo de seus atos errados. Outro conceito inexistente no budismo é a visão eternalista da alma, no budismo nada eterno existe. Está em suas mãos mudar tanto essa vida como as outras que virão, mas que não será você mesmo. São muitas diferenças.

Pergunta – Na verdade eu pensava mais na questão das transmissões de Jesus sobre o amor, como amar à Deus sobre todas as coisas...

Monge Genshô – Pois então, aí já começa uma diferença aguda, não amamos um deus lá fora e que pode nos salvar ou algo parecido. Temos que amar à todos os seres e pessoas e sermos compassivos, não poderia haver um povo escolhido com direito a matar e conquistar outros, na realidade, como falei antes, “eu” e “outro” não existe. Se eu ando com um amigo cristão e conversamos superficialmente sobre as similaridades do budismo e cristianismo, nos daremos muito bem.

Pergunta – Uma sensação que tenho é que no inicio de minha prática parecia que havia uma grande evolução e agora pareço estacionado sem avançar muito, isso é normal?

Monge Genshô – Isso acontece com quase todas as pessoas quando iniciam sua prática do Dharma, tudo parece maravilhoso e que há um grande progresso. Depois parece que há uma parede de ferro na sua frente e é impossível avançar um passo sequer. É preciso entender que é assim mesmo, caso contrário nos sentiremos desmotivados para continuar. É muito bom quando você fala para seu mestre que não sabe mais porque senta, uma vez que não consegue mais avançar, mas continua mesmo assim, é sinal que você desistiu dos seus objetivos.

Pergunta – Às vezes a gente percebe que uma pessoa fala tolices por falar, mas outras vezes as coisas ditas podem prejudicar a sangha, o que devemos fazer?

Monge Genshô – Você pode contestar essa pessoa e dessa forma todos terão a oportunidade de aprender, é como falei no começo, a sangha é como arroz no pilão. A sangha é um lugar de harmonia, mas isso não significa que não deva haver atrito, isso tem que existir. Para que existir sangha se todas as pessoas fossem maravilhosas? É como ir ao hospital e ler na fachada, “Casa de Saúde” e você perguntar como pode ser casa de saúde se todos aqui dentro estão doentes? Todos que vêm à sangha têm sofrimento, senão não viriam.  Se vocês estão aqui é porque não são iluminados. Parece-me lógico que tenhamos conflitos e atritos. Mas isso deve ser feito com sentimento de compaixão e amorosidade e não com raiva.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um bom mestre pode ter alunos ruins, um mau não


Pergunta – Existem coisas que eu fazia, até por conta da minha profissão, mas que já não as faço mais. Em que isso pesa no meu carma?

Monge Genshô – Eu penso às vezes em coisas que fiz no passado e chego à conclusão de que é um carma muito ruim, nem sei quantas vidas vão levar para que esses meus atos e palavras se resolvam. As coisas ficam voltando, às vezes são ruins, outras vezes são boas. A primeira vez que vim à Florianópolis dar uma palestra eu falei que havia sido um jovem ignorante. Nessa palestra havia uma pessoa que levantou o braço e disse que me conheceu quando eu tinha 15 anos, tinha sido meu colega de escola e disse que eu estava sendo duro comigo mesmo, pois tinha muito boa lembrança de mim, e ali estava por causa disso. O carma fica repercutindo e se você fizer coisas boas isso retorna, assim como as más.

Pergunta – O senhor fala em fazer coisas boas, mas algumas pessoas fazem isso esperando algo em troca.

Monge Genshô – Mesmo que você faça algo bom esperando um retorno, isso trará bons resultados. Mas se não for desta forma, é melhor, pois você não terá feito com uma mente aquisitiva, uma mente que procura recompensa. Mas não fique pensando no passado e sentindo-se culpada, o melhor que você faz agora é cultivar bons pensamentos, boas ações e boas palavras. Tudo começa por um bom pensamento.

Um problema que acontece com frequência nas sanghas é a convivência com outras pessoas. Costuma-se falar que a sangha é como um pilão com grãos de arroz e conforme vamos socando o pilão e os grãos vão se esfregando, vão perdendo suas cascas. É através do atrito de um grão com o outro que eles vão perdendo seus defeitos. Todas as pessoas os têm, mas muitas vezes observamos somente o outro e o criticamos. Essa é a ignorância básica, não vemos que o outro somos nós mesmos. Enquanto olhamos para o outro e o vemos como errado, o vemos como separado de nós, não observamos que isso é nosso ego. Meu “eu” é quem observa e critica os atos e palavras do outro. Meu “eu” é quem vê as coisas separadas.

Há uma história de um mestre que tinha um aluno muito ruim e que roubava da sangha. Os outros alunos foram até o mestre e pediram que expulsasse o ladrão. O mestre então mandou que todos fossem embora e disse que ficaria somente com ele como aluno. Os alunos não entenderam a decisão do mestre e, inconformados, perguntaram o porquê de sua decisão. “Ora, vocês são bons e perfeitos, não precisam de mim, ele sim precisa”.

Em outra história semelhante um mestre possui também um aluno problemático e resolve escolher justamente ele para seu sucessor e diante do espanto dos outros alunos ele explica, “Sim, ele é cheio de problemas e defeitos, mas ele eu o conheço bem, vocês disfarçam e escondem os seus, eu não os conheço o suficiente”.

Pergunta – O que podemos fazer para entender um mestre, por exemplo, quem já viveu muitas situações às vezes olha e pensa: “Como esse mestre escolheu essa situação?” Será que realmente nossos olhos que só vêem o errado ou aquela pessoa é mesmo errada e só o mestre que não percebe?

Monge Genshô – Esses mestres que eu citei, foram grandes mestres, não é o meu caso, por isso eu perco facilmente a paciência. Um grande mestre pode ter alunos ruins, como eu não pertenço a esse grupo, preciso de alunos bons.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dilemas morais


Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta mil vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz tem que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente é primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo.

Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências. Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assassino serial. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe nos sutras uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar os pais, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Modos de vida


Pergunta – O isolamento, como o do eremita ou em monastérios, não seriam então ato de bodhisattvas?

Monge Genshô – Retirar-se do mundo torna as coisas mais fáceis e é comum uma pergunta entre esse tipo de praticantes que é: “Será que ainda tenho os desejos e apegos”? Como ele está afastado do mundo não existe a oportunidade destes sentimentos surgirem.  Há a anedota do eremita que certo de sua libertação desceu até a cidade, na praça do mercado um homem lhe pisou o pé o que o deixou furioso, no mesmo instante percebeu que havia apenas se isolado, não havia mudado sua mente.

Pergunta – Quando fazemos retiro, o ambiente que estamos vivendo faz surgir um sentimento de pureza muito grande que não permite que surjam esses tipo de sentimentos, digamos, mundanos.

Monge Genshô – Exatamente, como não existe inclusive a comunicação em razão do voto de silêncio, tudo vai desaparecendo, o desejo sexual, a gula, os atritos, mas isso é um mundo criado para o retiro, é uma vida artificial.  Isto não quer dizer que um eremita não possa ser um bodhisattva.

Pergunta – O que o senhor entende por um modo de vida correto?

Monge Genshô – É um modo de vida que não cause sofrimento aos outros seres. Uma profissão que não cause destruição e sofrimento. Profissões como caçador ou magarefe não podem em geral ser consideradas modo de vida corretos. Um modo de vida que ajude os outros seres é um modo de vida correto e que não seja um impeditivo à iluminação.

Pergunta – Esse era o sentido de minha pergunta, trazendo as escrituras para os dias atuais, eu que trabalho na UFSC, não me sentiria à vontade desenvolvendo um projeto para uma indústria química, por exemplo, que causa em geral, muitos estragos à natureza e consequentemente à todos os seres humanos.

Monge Genshô – Você é que deve decidir. Não tenho uma resposta pronta para resolver essa questão para você. Pode ser que você realize um grande projeto que muda a visão e o modo dessa empresa atuar. Quando Oppenheimer ajudou a desenvolver a bomba atômica, a idéia era de que fossem sacrificados talvez cem mil japoneses e o Japão se rendesse, poupando a vida de milhões de soldados americanos e mais alguns milhões de soldados japoneses. Tendo isso em mente, a bomba parecia algo bom. Depois de jogada a bomba, Oppenheimer pediu demissão. Pairava sempre a dúvida da real necessidade do uso da bomba desta forma, por exemplo, poderiam ter feito uma demonstração do potencial da bomba evitando que pessoas inocentes fossem mortas.

Outro fato que ocorreu após isso, foi uma corrida dos países para construir suas próprias bombas. Você teria que se colocar no lugar de Oppenheimer e se questionar sobre várias coisas, por exemplo, e se a Alemanha tivesse desenvolvido a bomba antes dos americanos? É muito difícil de responder, ou melhor, parece fácil dar as respostas, pois quando se está de fora, tudo parece mais simples. Mas é preciso conhecer todas as variáveis. Você, dentro na universidade, desenvolvendo seus projetos terá que pensar o que fazer e mesmo assim, você nunca terá certeza absoluta que sua decisão foi acertada.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Bodhisattvas e santos


Pergunta – Gostaria de saber o significado dos instrumentos.

Monge Genshô – Você deve ouvi-los e descobrir por você mesma. Talvez eu possa explicar o instrumento com forma de nuvem. Ele é tocado sempre antes das refeições. Você deve prestar atenção e ver o que significa para você, se eu explico, algo se perde, você deve sentir o significado. Para o Zen a explicação tira do aluno a oportunidade do insight.

Pergunta – Um Monge é um Bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. Na tradição Tibetana, por exemplo, Lama é professor e não necessariamente um monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e cinquenta anos, os monges passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor leigo nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o talento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o Bodhisattva, é?

Monge Genshô – O Bodhisatva em uma tradução literal significa “ser de compaixão”. Satva significa ser, e Bodhi compaixão. Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Jesus Cristo foi um Bodhisattva?

Monge Genshô – Sim, podemos chama-lo assim de um ponto de vista budista.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um Bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

Pergunta – Esses poderiam ser os homens santos?

Monge Genshô – Não necessariamente, pois santidade não significa iluminação. Você pode ser muito puro, virtuoso, não ferir ninguém, ajudar as pessoas e ser um santo, porém, não ter nenhuma clareza. Ainda está preso a uma grande ilusão e espera obter algum tipo de recompensa, por exemplo, espera que com seus atos esteja agradando algum tipo de divindade com o fim de obter um lugar em alguma espécie de paraíso. Como está preso numa situação de fé, ainda não é lucidez.

O Zen não pretende formar santos, existe até um ditado que diz que “a santidade cheira mal”. Um Bodhisatva não tenta ser santo, ele quer ajudar os outros seres que sofrem. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sofrer junto



Pergunta – O senhor sempre fala das construções, não é? Eu tenho sempre que olhar para dentro de mim pra ver que construção é essa que eu faço, se é boa ou não. Tenho que ter sempre essa preocupação?

Monge Genshô – Nós precisamos ter clareza e lucidez para poder observar que tipo de construção é. O importante é não se agarrar a nada. Há pessoas que sofrem por causa de coisas e outras por causa de pessoas, isso é mais fácil de entender, mas o absurdo é sofrer por bandeiras. Se conseguirmos descartar os apegos, os sofrimentos diminuirão. Temos que conservar o amor. Essas coisas que são construções da mente não têm importância.

Pergunta – Mas é difícil observar coisas como o sofrimento de outras pessoas e imaginar que isso não tenha importância.

Monge Genshô – Claro, isso é importante. Se você vê o sofrimento de outros seres e se compadece, vai sofrer junto. Isso é muito bom. Não sofrer quando uma pessoa que você gosta sofre, seria muito estranho. Parece que o treinamento do Zen faz com que as pessoas fiquem insensíveis mas é exatamente o contrário.

Pergunta – Mas como lidar com isso em situações que não há nada a ser feito?

Monge Genshô – Sofra junto. Se você não pode fazer nada, apenas chore junto. É claro que não há como comparar o que você como monge ou médico sente e se compadece, com o que sente a pessoa mais intimamente ligada a quem sofre. De certa forma você sofre, mas mantém certa distância, pois logo em seguida virá outra pessoa sofrendo e se você se mantiver em constante estado de sofrimento, facilmente perde a sanidade. Muitas vezes para mante-la você deve sair de dentro de você e perceber o que você está fazendo em relação ao outro. Eu tenho um neto com leucemia e observo que mesmo sendo meu neto, meu sofrimento é muito menor que o da minha filha. O que ela fez foi observar todas as mães que sofrem e tentar mudar o contexto. Ela está olhando para além do próprio sofrimento, isso é que é importante.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tudo dentro da mente


Pergunta – Tenho uma amiga, estávamos conversando e a tartaruga dela tinha morrido porque um ovo ficou preso - coisa muito comum, segundo o veterinário - de acontecer com tartarugas. E ela me perguntou o que o budismo dizia sobre isso, por que isso aconteceu. Minha resposta foi de que isso é carma, é apenas uma condição natural das tartarugas, elas põem ovos e estão suscetíveis a terem ovos entalados e morrerem. Mas para ela isso era apenas um bug da natureza. 

Monge Genshô –  A natureza tem bugs mesmo, ela não é perfeita e porquê seria? Mas essas são leis da seleção natural. Carma é só ação e consequência, isso pode ser bom ou ruim. Temos marcas boas que nos levam para coisas boas e marcas ruins que nos carregam para coisas negativas. Se não fôssemos pessoas com coisas boas e ruins não estaríamos aqui. A natureza não foi “criada” do ponto de vista budista, por isso ela tem imperfeições mesmo.

Pergunta – O Senhor falou das construções tanto para o bem quanto para o mal, isso me soa como se fosse uma carta de baralho que a gente escolhe ou como um programa de computador que a gente programa o que quer. Mas do jeito que o senhor fala parece que é mesmo como uma carta de baralho, os caminhos estão aí e é só escolher...

Monge Genshô – No início é assim. É como ter uma cor preferida ou time de futebol. No começo é mesmo como uma carta de baralho, você simplesmente escolhe. Você lembra quando escolheu o seu time preferido? Normalmente tem os amigos ou parentes que gostam de um time, você sente o clima e faz sua escolha, que no início é muito fraca, pouco convicta. Mas com o tempo essa escolha vai se solidificando até chegar o momento em você irá brigar com outra pessoa por ela torcer por um time diferente do seu. Essa construção que no começo era quase nada, se solidificou a ponto de causar sofrimento e dor. O mesmo acontece com os relacionamentos amorosos, o que começou com um olhar torna-se algo forte na medida em que vamos nos envolvendo, conhecendo a família e os amigos, mas assim como o futebol e as cores, os relacionamentos amorosos também estão somente dentro de nossa mente e por eles vamos viver momentos de grande felicidade e alegria, assim como momentos de grande tristeza, sofrimento e dor. Se fôssemos capazes de escolher nada, não teríamos nenhum tipo de construção, nenhum tipo de ligação. Veja a história da humanidade, é toda construída desta forma, quanta guerra e sofrimento por causa de uma bandeira ou uma fronteira. China, Japão e Taiwan estão envolvidos num conflito por um amontoado de pedras no meio do oceano onde não mora ninguém.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Viver no mundo sem ser do mundo



Pergunta – Como é que a gente faz para viver num mundo e conviver com pessoas com as quais sabemos que não nos identificamos mais? Sei que isso é o ego que julga e separa tudo. Mas eu olho para essas pessoas e para a vida do passado e sei que não pertenço mais a isso mas, ao mesmo tempo, não possuo um esclarecimento não intelectual. Como fazer para viver exatamente no meio, entre a vida que não reconhecemos mais como nossa e aquilo que imaginamos ser nosso objetivo, uma clareza de espírito?

Monge Genshô – As identidades que temos ao longo da vida são criadas pela mente. Nós sustentamos situações que vamos criando, vamos codificando e criando. Mesmo quando falamos sobre o Zen em nossa vida, também sustentamos identidades. Criamos nomes, forma, amigos, roupas e começamos a ter um modo de vida. O que temos que perceber é que todas as circunstâncias são criadas nas nossas mentes, mesmo a de ser monge. Roupas, formas, identidades, nome e até a convicção das pessoas que os cercam, todo esse conjunto de coisas sustenta algo que, como todas as outras coisas da vida, é ilusório.

Todas as nossas identidades e relacionamentos são construídos. O que temos que pensar é: “construímos o que queremos ou fazemos apenas algo que nos é condicionado”. Muitas pessoas vêm me falar que estão num relacionamento e numa vida que não desejam. No entanto, foram elas que construíram todas as circunstâncias que sustentam suas vidas. Quando você troca para outra circunstância, essa também é uma construção. Deveríamos olhar lucidamente para nossa liberdade, que é capaz de manifestar tudo. Temos uma mente liberta que é capaz de manifestar qualquer coisa.

É você quem escolhe a condição que deseja manifestar, por exemplo, uma pessoa que deseja ser monge, que faz seus votos e que agora recebe a oportunidade de treinar no Japão, foi ela quem procurou essa vida. Isso pode ser fantástico, maravilhoso, pois quando ela estiver morrendo poderá olhar para trás e dizer que construiu uma vida ideal. Qual a vida que nos permite olhar para trás e dizer que não importam as formas ou pessoas, eu construí e sustentei a vida que eu realmente desejei? Essa liberdade fundamental é que é o nosso grande ganho. Quando estamos presos à uma forma, identidade ou profissão, não temos essa liberdade. Somos como água e podemos manifestar qualquer forma, mas todas as manifestações de nossa vida são de certa forma legítimas, pois são possíveis, mesmo as piores.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Vivemos representando papéis


Pergunta – A compreensão perfeita do “não-eu” ?

Monge Genshô – Isso. A compreensão da vacuidade, dessas características da existência, “não-eu”, “anatta”, a impermanência, “anittya” e a característica cíclica da vida, “dukkha”. Se tiver uma perfeita compreensão disso, já destruiu o sofrimento. Existem muitos textos sobre esse assunto, você deve ler sobre o Dharma, pois ele não é simples, essa é uma forma da entender e praticar, a outra é sentar para meditar e outra ainda é praticar na sua vida diária, quando lavar a louça, quando estiver conversando com alguém, no dentista, enfim, no seu dia-a-dia. Quando você está em uma discussão e assume um erro, ou dá razão à outra pessoa, seu “eu” enfraquece e isso é muito bom.

Pergunta – Em alguns momentos parece muito fácil de entender, mas no segundo seguinte tudo muda. Essa questão do “EU”. Estar em casa e educar os filhos é algo que exige um “EU” permanente, eu até já fui mais flexível, mas hoje não mais. Não consigo mais ver de outra forma, existe nesse momento um forte “EU” que precisa estar presente para que eu consiga educar meus filhos, caso contrario eles tomam conta.

Monge Genshô – Mas isso é carinho. Qual sua convicção ao fazer isso, não é o desejo de obter o melhor, você não faz isso por amor? Nos mosteiros não é muito diferente.

Essa educação que você pratica é libertadora, mas muito difícil, se você sentar uma criança na mesa e perguntar o que ela quer comer, ela dirá que nada do que tem na mesa é bom o que ela quer é batata frita. Mas não confunda o fato de você ser severa na educação com ter um “EU”. Você tem que usar um “EU” para transitar no mundo. Para que eu fale para vocês preciso de um “EU” de professor do Dharma. Em alguns lugares eu sou Petrucio, em outros, sou Chalegre e aqui sou Monge Genshô. Nesses momentos é que você vê que seu “EU” é uma construção. Não se confunda, você não é esse “EU” de mãe, isso é só um papel que você está exercendo. Vivemos representando papéis e nenhum deles somos nós de verdade. A verdadeira pergunta é “quem somos nós”?

terça-feira, 13 de maio de 2014

O sofrimento vem do apego, não do amor


Pergunta – O que é ser verdadeiramente homem?

Monge Genshô – Uma pessoa perguntou à Buda o que os Monges faziam? E ele respondeu: “acordamos, trabalhamos, oramos, comemos, dormimos”. “Mas isso todo mundo faz”, disse o homem e Buda respondeu: “Não é verdade, as pessoas não fazem isso integralmente”. Então muitas pessoas quando deitam para dormir ficam pensando nos problemas que têm quer resolver no outro dia ou, hoje em dia, comem na frente da TV ou lendo um jornal para saber das notícias. Um homem verdadeiramente homem, senta para comer e saboreia a comida sem pensar em mais nada, sente o gosto de cada garfada colocada na boca. Isso é o contrário do que normalmente as pessoas dizem, “eu quero me divertir” ou “eu quero me distrair”. Isso é como se desligar da vida e não pensar, ou como ter que ter um som de música ou TV para não ficar sozinho consigo mesmo. Esse não ficar consigo mesmo é um sintoma de uma doença. A sanidade é você conseguir sentar e pensar apenas naquele momento, no dia maravilhoso, no cheiro das flores, nos pássaros que passam por você ou um latido de um cachorro. Estar ciente da maravilha que é você poder escutar, ver e sentir as coisas ao seu redor.

Pergunta – Em alguns textos de Buda ele fala de construtores, não li o texto original em Páli, mas ele fala “ó construtores”. O que seriam esses construtores? Ele também fala que encontrou o fim do apego,  isso porque seria o apego o final dos doze elos?

Monge Genshô – Não, o primeiro é ignorância e o ultimo é morte.

Pergunta – Mas por que ele fala então em se cortar esse ciclo?

Monge Genshô – Veja bem, onde você sofre? Não é no amor, as pessoas dizem que o amor é sofrimento, não é o amor em si um sofrimento, mas sim o apego. Quando você corta a ignorância que é o primeiro elo, também acabaria com o sofrimento, pois porque há ignorância é que se gera o apego.

Com relação à primeira pergunta, o construtor do sofrimento é a mente que ignora e em razão disso constrói um “eu” e porque construiu uma identidade, esse “eu” construído, criando-se um grande engano, é que dá-se a origem ao sofrimento. Você tem apego porque tem um “eu”, mas se você percebesse que todas as coisas são vazias de um “eu” inerente, não haveria, para você, início ou fim de alguma coisa. Não haveria nascimento ou morte, isso é dimensão histórica das coisas, na dimensão absoluta não existem nascimento e morte.

Pergunta – Nesse caso os doze elos são impermanentes?

Monge Genshô – Não existe nada que não seja impermanente. Mas você está preso num ciclo e não consegue sair, pois passa de uma coisa para outra. Você tem nascimento, morte, ignorância e a ignorância gera novo nascimento e o ciclo se repete. Se você obtém uma compreensão perfeita desse ciclo, remove a raiz do sofrimento.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Seres sencientes


Pergunta – Hoje tive uma sensação diferente com os instrumentos, é como se todos tivessem o mesmo sentido, o de uma continuidade e que nos conduziam para o mesmo lugar, o que isso significa, o que senhor pode me falar sobre esse sentimento?

Monge Genshô – Nada.

Pergunta – Mas existe algo de concreto no meu sentimento, digo, é correto?

Monge Genshô – Claro, mas se você me dissesse que são separados e cada um tem um significado eu daria a mesma resposta. Está certo. Fique com seu sentimento, mas não use sua mente racional para tentar explicar, é neste ponto que nos perdemos. Apenas sinta. Isso se parece com aqueles relacionamentos em que está tudo maravilhoso até que um dos dois, geralmente a mulher, quer discutir a relação. Pronto, é começo do fim. Está tudo maravilhoso até que tentamos explicar, apenas sinta.

No Zen estamos à procura de um sentimento puro, límpido, que não precise de explicações. Há a história de um grande mestre zen que era um erudito, sabia muito sobre a história do Zen e sempre lia muito, conhecia as escrituras e sabia todos os sutras de cor. Um dia ele chega para seu professor e diz que iria desistir, não havia conseguido alcançar a iluminação e por isso iria se retirar para um eremitério na montanha. Largou os estudos e apenas dedicava-se a fazer seus trabalhos diários. Um dia varrendo o chão, uma pedra foi arremessada pela vassoura e bateu num bambu produzindo um som característico. Neste instante ele despertou. O despertar é muito simples, difícil, mas muito simples.

Pergunta – O que são os chamados seres sencientes?

Monge Genshô – Seres quem sabem que existem. Seres cientes de si.

Pergunta – Então os animais não são?

Monge Genshô – Sim, por que não? Um chimpanzé se reconhece no espelho. Isso é muito interessante, as pessoas querem colocar tudo do lado de fora, quando tudo está do lado de dentro. Algumas pessoas dizem que não são felizes por esse ou aquele motivo. É como alguém que vai à frente do espelho e vê seu rosto sujo, então pega um pano e limpa o espelho. Vemos dificuldades e problemas lá fora, até nos darmos conta que temos que limpar o rosto e não o espelho. Isso é decorrente da questão “sermos cientes de nós mesmos”. Muitos de nós parecemos seres sencientes, mas não somos, só olhamos para fora o tempo todo. Isso dá sentido à frase de Saikawa Roshi, “peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, só os homens não são verdadeiramente homens”. Eu fico imaginando se eu fosse um pássaro e tivesse a mente que eu tenho, nunca conseguiria pular do ninho para voar pela primeira vez. Ficaria sempre cogitando sobre minha capacidade de voar.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Mudar o carma


Pergunta – É possível mudar nosso carma?

Monge Genshô – Sim. Nos dois sentidos. Vamos supor que você seja uma pessoa maravilhosa, que tenha feito muitas coisas boas para muitas pessoas, mas faz o mal, comete um crime e sua vida começa a decair. Você tinha um bom carma e o transformou em mau carma. Por outro lado, você tinha feito coisas muito ruins, mas começa a mudar sua mente e realizar bons atos, isso vai gerar bom carma. Mas isso é muito difícil, a maioria das pessoas está metida numa espécie de enredamento com seu carma e acaba repetindo sempre as mesmas coisas. Se você não cuida de sua mente, quando morre, é com essa mente que se manifestará uma nova vida, seus impulsos, desejos e apegos é que serão seu carma para a próxima vida e para um novo eu, que não se lembrará do porque, embora sofra as consequências.

Pergunta – Como trazer o zazen para a vida prática?

Monge Genshô- Essa mente construída no Zazen, de não se preocupar com passado ou futuro, deve ser levada para a vida diária. O zazen é somente a base da prática, não é a prática em si. Quando estiver varrendo o chão, somente varra o chão, esteja ali presente. Quando for lavar a louça, mente do zazen. Uma excelente oportunidade é no seu trabalho, sempre que surgir uma discussão, observe e perceba seu ego presente na sua necessidade de manifestar opinião, na necessidade de estar certo, na necessidade de ser o melhor. Torne-se consciente de você mesmo. Essa é a verdadeira prática espiritual, não é acender velas, incensos ou fazer cerimônias. Esse tipo de coisa serve para exercitar uma mente atenta, que deverá ser transferida para o resto de sua vida, até o momento de sua morte.  É muito importante ter uma boa mente no momento de sua morte. Uma mente tranquila, sem desespero, equânime, compassiva e uma mente capaz de perdoar, não somente aos outros, mas a si mesmo.  Seus impulsos no momento da morte é que serão levados para a outra vida, por isso é muito importante saber morrer.


Pergunta – Sempre que o senhor fala de vaidade e ego, pega exemplo ruins. Falar sobre coisas boas, como por exemplo, estou me sentindo ótimo, estou apaixonado...

Monge Genshô – Isto também é ruim. Quando fazemos os votos do Bodhisattva, o que falamos? Delusões são inexauríveis, faço voto de extingui-las, todas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Costumes


Pergunta – O que o Budismo fala sobre monogamia?

Monge Genshô - No Budismo não há uma posição definida a esse respeito. As sociedades se organizam de acordo com as conveniências. Em civilizações mais antigas esse tipo de relacionamento não está bem definido ou está, dependendo do ponto de vista, inclusive os filhos são da tribo. Não existe o sentido de posse como em nossa civilização, por isso mesmo uma traição não é vista da mesma forma.

Em sociedades agrárias, por volta de dez mil anos atrás, as pessoas começam a ser donas de pequenas propriedades de terra e desejam que isso siga na família passando para os seus filhos. Começa, então, a se exigir fidelidade por parte da mulher. Em algumas sociedades de hoje existe a pena de apedrejamento para mulheres adúlteras. Mas não para os homens, por quê? Porque quem adultera a linhagem é a mulher, não o homem. Em sociedades judaicas é considerado judeu o filho de um ventre judeu, portanto de uma mulher, não de um homem.

Em algumas sociedades da Ásia ou mesmo no Tibete, o homem tem que comprar a esposa, ela é um bem vendido pela família. As vezes acontece de uma família pobre com dois ou três irmãos, não ter dinheiro para cada um comprar sua mulher. Os três compram uma única mulher que fica então, com três maridos, a poliandria. Em nenhuma destas situações o budismo jamais se meteu. E em sociedades budistas jamais houve apedrejamentos ou algo do tipo. Isso que estamos falando é puramente cultural.

Veja como são essas coisas, hoje vi na internet um concurso de mulatas, todas de biquíni, muito bonitas, e muitos comentários criticando essa exploração da imagem das mulheres como objetos sexuais etc.. O que existe por trás disso na realidade é um pensamento discriminativo, porque rostos bonitos podem ser expostos sem que haja protestos e outras partes como seios ou glúteos não. É só outra parte do corpo, isso é cultural e está na mente das pessoas. Nós enxergamos problemas onde na verdade eles não existem.  Hoje no Brasil não vivemos mais no sistema de monogamia.  Temos na verdade um sistema de poligamia serial. O que é isso? As pessoas trocam constantemente de relacionamentos, parece que mais de 50% das pessoas trocam de relacionamentos.

Pergunta – Sobre o naturismo o Budismo segue a mesma linha de pensamento?

Monge Genshô – Claro, se todas as pessoas resolverem andar sem roupas e isso é aceito, não há problemas. Começa a haver conflito quando na sociedade a que você pertence isso seja um problema e você resolva andar nu. Eu morei um tempo na Holanda, que é considerada uma das culturas mais liberais do mundo. E lá, há trinta anos, era possível uma prostituta ser convidada para ir à um canal de televisão e, sem precisar tapar o rosto, falar sobre sua vida. Na Tailândia, por exemplo, o homossexualidade sempre foi muito bem aceita. Existe um caso de um transexual que depois de anos voltou para sua cidade e se elegeu prefeito. A Tailândia é um país budista.

Existe uma história Zen contada por Taisen Deshimaru Roshi, de Naraka Gueixa que era praticante budista que obteve a iluminação e começou a ensinar o Dharma para seus amantes em sua cama. E teve muitos discípulos. Era uma grande mestra. O budismo tem uma visão um pouco diferente do que estamos acostumados a ver em nossa sociedade.

Há um diálogo muito interessante que aconteceu durante uma palestra do Dalai Lama. Um jovem perguntou à ele qual a forma de sexo que produz menor carma negativo. “Acredito que seja com uma prostituta”, respondeu Dalai Lama. Percebendo a consternação do jovem, o Dalai Lama continuou: “Essa pode ser uma relação muito construtiva se você a tratar com respeito e dignidade e lhe der carinho. Ela pode ser uma pessoa que necessite de dinheiro, mas pode ser uma troca muito bonita que gere uma amizade e ser compensadora para ambos os lados”. ( Ele desconsiderou outras formas da manifestação da prostituição, indústria, exploração etc...)  O rapaz então perguntou, “E masturbação”? “Masturbação é um ato muito egoísta, é você com você mesmo, não está ajudando ninguém”. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nada para se agarrar


Pergunta – Por e-mail recebo alguns trechos de textos budistas e gostei muito do último que dizia que “a infelicidade, depois que você começa a praticar o Dharma, é um indicador da evolução do seu caminho”. Gostaria que o senhor esclarecesse isto.

Monge Genshô – O Dharma, ao invés de dar algum consolo, retira da pessoa todos seus apoios, de tudo o que você pretende agarrar-se, deuses, anjos, etc.., tudo isso o Dharma tira. Muitas vezes as pessoas, ao viver esta desconstrução da fé, ficam muito perdidas e há um choque. Eu acho este choque muito bom, mas sei que carrega sofrimento. “Tudo que eu tinha o senhor tirou”. Esta é a tarefa do professor no Zen. Caso alguém não se sinta confortável com isso, deve talvez procurar um outro lugar mais confortável.

Sei que isto não é tranquilizador, mas sei que despertar e acordar das ilusões é muito feliz. Sei que isto não é fácil e exige grande esforço. Então, no início pode ser assim, infeliz. Mas pode não ser. Você pode chegar aqui, ouvir todas essas barbaridades que eu disse, e sentir uma sensação de grande alívio. Eu tive isso quando ouvi um Monge Zen a primeira vez.

Pergunta – Fui educada dentro de uma religião e o Zen para mim foi um grande alívio. Pensar em pecado, juízo final, purgatório, traz uma sensação de uma saga sem fim.

Monge Genshô – O conceito de pecado não interessa para o budismo. Na realidade nossas ações tem consequências. E nossa vida baseia-se nisso. Você tem que tentar fazer o bem, e isto vai automaticamente lhe trazer felicidade. Não há ninguém lá fora nos julgando não. Mas os resultados das nossas ações são muito mais implacáveis do que se houvesse alguém para nos perdoar. Se fizermos algo errado, teremos que consertar. É assim que o budismo pensa. Despertar das ilusões.
Temos um método, com raciocínios claros e não estamos dispostos a sermos enganados. Não estamos confiando em crenças. Um monge não tem a verdade para vender e ninguém precisa acreditar nele. Desejo que as pessoas tenham grande dúvida e nunca percam sua independência mental. Por isso, o trabalho do professor do Zen é difícil, pois os alunos sempre estão trazendo perguntas, dúvidas. E isto é muito bom, significa ter alunos de verdade. Quando alguém apenas tem fé e acredita sem questionar, acho que não passa de um tolo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Posso fazer um pedido?


Pergunta – Buda, quando se iluminou, viu todas as suas vidas passadas. Sempre acho que isto é uma questão de fé. Mas, na realidade, ele conseguiu ver todo o fluxo da vida. Isto faz mais sentido para mim.

Monge Genshô – Você consegue perceber que você foi uma estrela? Isto é enxergar. Pensar literalmente no que está escrito muitas vezes é besteira. Os mestres Zen encaram isto de outra forma. Lembram no Hanamatsuri, da cerimônia na qual as pessoas derramam chá sobre uma estátua de Buda? Aquilo ocorre porque, segundo a lenda, quando ele nasceu, choveu sobre ele uma chuva doce. E ele apontou para o céu com uma mão e para o chão com outra, dizendo: “Entre o céu e a terra eu sou o mais honrado”. E um mestre Zen disse: “Se eu estivesse lá e ouvisse isto o teria matado a pauladas”.

Este é o Zen. Pessoas constroem coisas muito fantásticas, mas como acabei de explicar, não precisamos de coisas muito fantásticas. Não precisamos de um Buda menino falando este tipo de coisa logo depois de nascer. São coisas feitas com intuito de divinizar Buda. É claro que fazemos as cerimônias, pois as pessoas gostam e tem emoção. Em uma das ocasiões uma senhora perguntou: “Posso derramar o chá sobre a estátua de Buda?”, eu disse: “Pode”. Ela então indagou: “E posso fazer um pedido?”, eu disse: “Pode”. Então veio a pergunta: “E ele atende?”, eu disse: “Não senhora”. Quem pode resolver nossos problemas somos nós mesmos. Eu gostaria, naquela situação, de ensinar e dar uma oportunidade para o Dharma. Se fosse mais compassivo diria: “Sim, claro, ele atende, faça com fé”, mas isso não é o Dharma. Portanto, olhe para os aspectos religiosos do budismo com olhos despertos. E isto não é aula para iniciantes.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Uma gota que se acha especial


Pergunta – Vazio é fácil de entender, assim superficialmente. Mas a forma, eu pensava em “redondo, quadrado”, uma visão limitada. Agora o senhor fala em forma para além da palavra.

Monge Genshô – Isso, entendemos forma como manifestações. O vazio também não é uma “coisa”. Vazio é tudo, pois tudo que existe é interdependente e interconectado. Nada existe por si mesmo. Aquela porta ali, ela não existe por si mesma. Nós a chamamos porta, porque tem dobradiças, é retangular, tem uma fechadura. Mas na realidade, a porta é constituída de carbono, ferro, etc… O carbono, por sua vez, também é uma substância, que não nasceu junto com a terra. Tampouco o ferro. Também não nasceram com o Sol. Nosso Sol é muito jovem e não produziu ferro nem carbono ainda. Aquela porta ali é constituída de átomos que foram produzidos em uma geração de estrelas anteriores ao sol.

Quando uma supernova explode, no fim da vida, ela colapsa e produz átomos mais pesados. Destes átomos mais pesados, o primeiro é o carbono, o último é o ferro. Então, esta porta são restos de uma estrela de bilhões de anos atrás. E todo nosso planeta é assim, e vocês também são assim: restos de antigas estrelas, ou seja, lixo estelar. Nós estamos aqui em volta de uma estrela novinha, o sol, com 5 bilhões de anos. Mais 5 bilhões e ela começa a morrer. E este planeta Terra, esses átomos, serão espalhados.

Somos compostos de uma quantidade incrível de átomos, de fato neste momento estamos respirando muitos átomos. Alguns dos átomos que podemos respirar podem ter sido do corpo de Buda, de Cristo, de César, de Faraós, de todos os seres que viveram tempo suficiente antes de nós. Nós partilhamos os mesmos átomos com eles. Isto é cálculo matemático, podemos fazer com uma calculadora, e com isso ainda pensamos que somos independentes, pensamos que somos separados, mas não, somos misturados com este universo inteiro. Então nosso grande engano é pensar “eu sou”. Todas as coisas são vazias de um eu. Este eu é que um grande engano. Eu Genshô, eu Márcia. Este eu é ilusório. Nós não somos isso. Mas nós somos o próprio universo. É tão tolo pensarmos que nascemos e morremos quanto olharmos para uma nuvem e pensarmos que a nuvem nasce e morre, ou uma gota d´água. Ela chove, entra em uma aquífero, depois é extraída, flui para o mar, chove, etc Sempre em um fluxo. Ela está sempre aqui. A água do nosso chá esteve sempre aqui, já foi urina de camelos. E nós estamos tomando-a aqui. Nós não enxergamos esta unicidade. É como uma gota que se ache especial. E ver isto é acordar.

Buda quer dizer “desperto”, não quer dizer Deus, profeta, salvador, nada disso. Buda foi um homem, como nós. Nós pensamos que existe algo sobrenatural, mas isto que estamos vivendo aqui é sobrenatural. 12 pessoas, sentadas em uma sala, falando sobre o Dharma, pisando no chão, bebendo chá, partilhando átomos de estrelas. Cada um com a sensação de uma persona, isto é tremendamente sobrenatural. As pessoas é que procuram algo mais sobrenatural que isto, mas isso é muito mágico. Nós não vemos essa magia, e esta é uma grande cegueira. Budismo é isso, nada de especial, mas tudo muito diferente.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Colocar os olhos de Buda


Aluno – Achei a cerimônia de hoje muito bonita…

Monge Genshô – Esta é a cerimônia de Uposata. Vem dos Upasakas e Upasikas, os praticantes leigos. Esses são os votos que esses praticantes deveriam fazer. Os votos são muito bonitos. Se você prestar atenção, seguí-los é praticamente impossível. Muito difícil! “Cuidar de todas as formas de vida”. Não só dos seres humanos, mas de todos os seres. Se você for realmente responsável e começar a pensar no sofrimento de todos os seres envolvidos, verá que tem que ser muito cuidadoso. Cada um daqueles votos, são eticamente muito profundos. O que nós conhecemos como mandamentos religiosos são muito leves, perto dos votos. São, de fato, muito significativos.

Pergunta– Gostaria que o Senhor comentasse um pouco sobre o Sutra do Coração.

Monge Genshô – “Oh Shariputra, forma é vazio e vazio é forma. Vazio nada mais é do que forma, forma nada mais é do que vazio”. Este é o centro do Sutra do Coração da Sabedoria. Se você entender esta frase, promete o Sutra, livra-se de toda dor e sofrimento. Nesse texto (publicado no blog), eu expliquei que toda vida é um ciclo, um fluxo. Nós olhamos inícios, mortes, etc., mas na verdade a vida é um ciclo. Nós morremos, viramos adubo, crescem plantas, plantas viram frutos, comemos o fruto, etc… Nós olhamos uma floresta e vemos um reciclar contínuo. Quem olha os eventos particulares vê nascimento e morte. Em uma floresta há muita morte acontecendo, certo? Troncos apodrecendo, animais que nascem e morrem. No entanto, nós olhamos a floresta e vemos sua beleza. Da mesma forma a vida humana, nós vemos os inícios e fins. Por não observarmos a continuidade das coisas, vemos tudo começando e terminando, e tudo tão sofrido, logo, achamos que a vida não vale a pena. Perdemos, de fato, a visão do todo.

Seria como uma pessoa na floresta chorando a folha que cai, ou outra na beira da praia chorando as ondas que quebram. A beleza nada tem a ver como começos e fins, a beleza da vida está na continuidade. Então o vazio de um eu é forma, as formas são todas manifestações da vacuidade. A vacuidade é ausente de um eu, logo, não há eu em coisa alguma. Só existe o vazio, que é belíssimo, pois é o próprio céu azul. Despertar é trocar nossos olhos e colocar os olhos de Buda. Aqueles que colocam os olhos de Buda, vêem o nirvana, que é aqui. A diferença não está no mundo e sim nos olhos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Uma xícara de café



7) O que exatamente faz um Bodhisattva, como é sua vida?

Monge Genshô- Temos o Sutra de Vimalakirti que fala que os bodhisattvas são comerciantes, generais, soldados, imperadores, ou seja, qualquer pessoa que aja com mente compassiva. “Satva” quer dizer “Ser” e “Bodhi” “Mente Compassiva”. bodhisatva é aquele ser de mente compassiva que age no mundo para diminuir o sofrimento. Um bodhisattva pode viver uma vida inteira para um único ato. Há uma história de que gosto muito que se chama “Um café em Istambul”. Um bodhisattva nasceu, estudou, fez faculdade e tornou-se garçom de um Café em Istambul. Um dia um homem entra no café e dirigindo-se ao balcão e pede uma xícara. O nosso garçom então prepara o café, leva para ele e o olha profundamente nos olhos. Naquele momento o homem olhando nos olhos do bodhisattva percebe toda sua profundidade, o que lhe desperta um grande e bom sentimento que será transformador de sua vida. O olhar bondoso do garçom. O homem vai embora e o bodhisattva depois de alguns anos morre. Toda sua existência foi para dar aquele olhar.

Esse é o ato e a vida de um bodhisattva. Eu ouvi a história de um homem que foi conversar com uma prisioneira. Todos a tratavam com grande desprezo. Este homem preparou então dois cafés e foi conversar com ela. Ele era carcereiro. Ao receber o café, a prisioneira começou a chorar e disse: “Espere um pouco”, ela foi então ao canto de sua cela e trouxe os cacos de uma xícara que ela havia quebrado e com os quais iria cortar os pulsos. Uma simples xícara de café ou um olhar podem mudar uma vida. São exatamente o conteúdo do ato de um bodhisattva.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Em uma vida passada...


5) O senhor poderia falar um pouco mais sobre as reencarnações de Buda?

Monge Genshô – Lembrem-se que no budismo não usamos a palavra reencarnação. Eu prefiro as “manifestações do carma” que formaram Buda. Temos muitas histórias, muitas delas infantis, bem como alguns sutras que narram as vidas passadas de Buda. Vidas passadas é uma explicação fácil, na verdade cada vida dessas teve um “eu” que nasceu, morreu e esqueceu, permanecendo apenas uma onda de impulsos e desejos. Uma onda cármica com uma personalidade que se manifesta em um novo corpo que ele mesmo, na sua condição histórica, no país e família diz para si mesmo: “eu sou”. É uma vida passada, mas não é o mesmo “eu”.

Numa vida passada eu era uma pessoa muito agressiva. Me lembro bem de uma ocasião em que peguei dois homens bêbados que entraram no escritório que eu trabalhava insultaram uma funcionária e os joguei escada abaixo, nessa época eu praticava karatê. Me lembro também de ter chutado a porta de um carro porque o motorista não parou para eu passar na faixa de pedestre. Nessa atual vida passada, meu nome era Petrucio Chalegre. Passados alguns anos de prática do Zen, recebi o nome de Genshô e nessa nova vida e personalidade é inimaginável que eu chute portas de carros ou jogue pessoas escada abaixo. Agradeço essa oportunidade de, numa mesma vida, mudar de nome e personalidade. Somos capazes de mudar nossas vidas e dessa forma mudar nosso carma.

6) Dá para dizer então que nas manifestações anteriores de Buda ele tenha sido um bodhisattva?

Monge Genshô – Em alguns sutras ele diz, “Em uma vida passada quando eu ainda era um bodhisattva...”. A prostração que fazemos ao colocarmos as mãos com as palmas voltadas para cima ao lado do rosto é uma alusão à uma história de Buda. Conta-se que numa vida passada havia um buda chamado “Buda Dipankara” e este vinha caminhando quando se deparou com uma poça de lama, um jovem então agachou-se e encostou a testa no chão elevando suas mãos com as palmas voltadas para cima ao lado do rosto para que o Buda pudesse apoiar-se nele e atravessar a poça. O Buda Dipankara voltou-se para o jovem e disse: “Daqui a quinhentas vidas você será um buda”. Esse jovem era Sidharta Gautama. Essa é a lenda da prostração e quando a fazemos, é para que Buda caminhe sobre nós para ajudar os outros seres, somos pontes para os passos de Buda. É interessante a ligação entre todos os conceitos das religiões, por exemplo, o Papa Católico é chamado Pontífice, que significa construtor de pontes. No caso deles, construir pontes entre os homens e a divindade.