segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Samsara e Nirvana



A maneira de transformarmos o mundo é transformando a mente de cada um. Não importa qual o sistema, transformando as mentes, qualquer um funcionaria maravilhosamente bem - uma monarquia funcionaria maravilhosamente bem, uma ditadura também, um sistema totalitarista como o comunista funcionaria bem igualmente, a democracia funcionaria. Somente seriam necessárias pessoas, todas elas, com mentes compassivas, honestas, maravilhosas, dedicadas ao bem dos outros, abdicando de si mesmas, e o mundo seria perfeito. A raiz da mudança do mundo está nas mentes. É por isso que o budismo volta-se para o treinamento e a modificação da mente do homem, para, dessa forma, produzir o nirvana, um mundo onde a mente que olha transforma o samsara, que é o mundo da perambulação, do sofrimento, um mundo onde transitamos de um lugar para outro buscando a felicidade. Assim, mudamos de um amor para outro, de um emprego para outro, e vivemos sempre cheios de “se”: se eu ganhasse na loteria, se eu fizesse isso, se eu fosse amado, se eu tivesse um filho. Esses “se” são colocados como o que nos permitiria ser felizes.

Esse é o mundo da perambulação, o samsara, o mundo da procura e da insatisfação permanentes. Esse é o significado de dukka, a primeira nobre verdade. “A vida é dukka”, ou seja, a vida é insatisfatória, porque nela, embora haja momentos maravilhosos ou tristes, nenhum deles será permanente, sólido ou estável. A mudança é parte integrante da natureza das coisas. E assim, achando sempre insatisfação ao fim de qualquer processo de qualquer tempo, sofremos. Sofremos por não podermos agarrar e ficar com uma felicidade e satisfação permanentes. E o nirvana? O mesmo mundo, o mesmo lugar, mas onde os ventos dos impulsos não nos empurram e onde, por causa disso, não existe necessidade de perambular, porque onde estamos encontramos a completa felicidade e plenitude. 

Dizemos no Zen que quando estamos sentados em meditação, isso é nirvana, é iluminação, porque, naquele momento, você imita Buda e imitando Buda você é nada mais do que Buda. Dizemos isso também para desarmar, porque em outro sentido você não é Buda, você sabe que não é, sabe que não está desperto, que não é um iluminado. Mas se você se senta com o desejo de ser um Buda, de se iluminar, de se libertar, de ser feliz, esse próprio desejo é samsárico, pois ele produz uma busca, uma insatisfação. A pessoas se perguntam, então: “para que estou praticando, se não alcanço nada, sou assim sempre, sou mau?” Pensar desta forma é estar em samsara sentado em meditação. Esse mesmo ser, no instante em que não é levado por nenhum impulso, por nenhum desejo e que não pretende alcançar nada, ele vê no próprio samsara o nirvana. Porque não há nenhuma diferença de lugar nessas duas coisas, a diferença está na mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A mente que constrói o mundo



Portanto, eliminando-se todas as manifestações, não há vacuidade para surgir. Por isso o famoso sutra do Coração e da Sabedoria diz “forma é vazio e vazio é forma”. Toda vacuidade é forma e toda forma é vacuidade porque a vacuidade só se manifesta assim. Mas cada objeto surge com seus significados por causa de nosso olhar. É nosso olhar que produz os significados que a coisa tem. Sem nosso olhar, as coisas podem existir como manifestações, mas não são nada daquilo que um homem veria.

 É como a madeira, que é material de construção para nós, mas para um cupim, é comida. Sendo comida para o cupim, para ele é apenas um manjar, não é material de construção. Para o fogo, alimento de chamas. Para um ecologista, a madeira é um seqüestrador de carbono da atmosfera, e assim por diante, segundo cada olhar. Com o olhar surge o significado do mundo, por isso, podemos dizer que quando morre um homem, morre um universo, ou seja, o universo dele, carregado dos significados que ele atribuía às coisas e seres. 

Neste sentido, mesmo que eu pegue esse relógio e diga que para mim ele é diferente do relógio que cada um está vendo, porque ele tem determinadas marcas e significados para mim, pode ser que alguém aqui tenha, alguma vez, recebido um relógio na testa, logo, o relógio terá para ele outro significado. Alguém pode ter recebido um relógio de seu pai falecendo; para essa pessoa, então, o relógio terá um significado outro. Desta forma, um mesmo objeto é construído por nós em seus vários significados, e assim construímos um mundo com nossa mente. Por isso, essa mente construtora do mundo é a mente transformadora do mundo. Essa é a razão de treinarmos a mente, porque essa mente treinada modifica todo o mundo, instantaneamente. Uma mente cheia de compaixão vê um mundo compassivo e digno de compaixão. Uma mente cheia de ódio vê um mundo odioso e raivoso. Não há como escapar.
(continua)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Vazio e a forma


O vazio, é um conceito muito difícil de ser agarrado. Essa palavra é muito raramente encontrada no canon e atribui-se a Nagarjuna, no primeiro século depois de Cristo, a primeira explanação extensa sobre o tema da vacuidade. Esse vazio também não pode ser descrito e a ele também não podem ser dados atributos, mas dele surgem todos os fenômenos e manifestações dos seres, de todos nós. Tais fenômenos ocorrem na superfície da vacuidade, e eles são a própria vacuidade.

 Nós somos o vazio, a vacuidade se manifestando. A única maneira possível para que a vacuidade surja é através das manifestações fenomênicas dos seres, do universo, de todas as coisas. Mas essas manifestações em si, do ponto de vista do budismo Zen, não passam de manifestações cármicas e, nesse sentido, vazias (de um eu inerente) , pois são interdependentes, impermanentes e não existem por si mesmas. Só existem porque elas precisam se manifestar por força dos impulsos cármicos que as geram. 

Como as ondas são geradas na superfície do mar pelos ventos, assim também nós somos gerados na superfície da vacuidade ( a analogia falha no ponto de que a vacuidade não é um ente por si mesma) pelos ventos de nossos próprios impulsos. É por isso que estamos todos sentados nessa sala, e nada mais somos do que seres de apegos e desejos.

(continua)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O único que entendeu



O budismo Zen surge, tradicionalmente, de um sermão de Buda em que ele levanta uma flor e a mostra para a platéia sem nada dizer. Ao fazer isso, um dos assistentes, Mahakashyapa, que viria a ser o sucessor de Buda após sua morte, sorri. Buda diz – Mahakashyapa foi o único que entendeu. Essa tradição de origem do Zen fala sobre o fato de que o Zen verdadeiro, o Dharma verdadeiro, é transmitido além das palavras. As palavras não fazem jus ao Dharma, não fazem jus à verdade dharmica. O conhecimento e a experiência são tão profundos, tão distintos, que não podem ser descritos com palavras. 

Por isso, sempre que possível, uma palestra sobre o Zen deve ser iniciada com a experiência da meditação, sem a qual não podemos saber sobre o que falamos. É necessário calar nossa mente, nossa boca, imobilizar nosso corpo, para que haja espaço para sentirmos algo mais profundo que permeia tudo. As pobres palavras não fazem sentido porque não permeiam tudo. Também não há nenhum “algo” aqui. Isso lembra a teologia apofática, presente no cristianismo, em que se declara que não se pode falar sobre a divindade porque quando se fala sobre Deus estamos lhe dando atributos, e ao dar atributos o estamos diminuindo. O budismo em si nem fala sobre uma entidade divina ou sobre um Deus criador.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Abrindo os olhos



Pergunta – Como a meditação ajuda no despertar. O que difere o sentar do ficar quieto?

Monge Genshô – Boa pergunta. Se você sentar e ficar quieto, mas sua mente continuar funcionando, você continua no sonho. Se você sentar e for apagando com a imobilidade do corpo, todas as informações para a mente, como a sua noção de ter um corpo, começam a diminuir as percepções e a atividade mental. Seus pensamentos começam a esmorecer e suas memórias, no momento de samadhi - de concentração - desaparecem. Nada mais surge. 

Quando nada mais surge, você está presente e ouve os sons do presente, como o canto dos pássaros, os carros que passam, o rumor do seu coração. Percebe-se, em seguida, uma sensação de grande contentamento, pois toda agitação desapareceu. Esse é o primeiro passo da meditação, e é preciso ir além, cada vez mais profundamente. Por isso estou colocando no site uma palestra antiga sobre os dez passos do boi, que narra os dez passos da iluminação. 

O que acontece? Como é que se faz? A meditação é a maneira para conseguirmos nos libertar dessas noções, pois elas são alimentadas pelo funcionamento da mente. A noção de um “eu” é produzida pelas formações mentais. É tudo muito simples, mas é bastante difícil. Na verdade, não é nenhum grande segredo, mas a dificuldade de executar é muito grande. Sentar-se, esquecer-se de todo o passado, não alimentar nada, nem uma memória, não seguir nada, não ir para futuro, estar aqui e agora, o que não significa não pensar, mas, sim, pensar além do pensar em não pensar. 

Quando você estiver, aproximadamente, metade do tempo do zazen numa situação assim, experiências significativas começarão a ocorrer. Não são mágicas, mas são extraordinárias e lhe permitem criar uma outra visão, uma outra sabedoria. Todo mundo muda e todo o mundo se altera. Não porque o mundo mudou, mas porque seus olhos se abriram verdadeiramente. É isso.

Fim

Palestra decupada da gravação por Ápio San e revisada por Eleonora San.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Maya - a ilusão



Pergunta – Não devemos estar atentos aos nossos sonhos?

Monge Genshô – Um sonho lúcido. Pode acontecer. Depois de um bom sesshin, você pode voltar para casa e perceber que todas as pessoas que estão em sua vida são como sonho, que você está  num mundo onírico. Poderia estar vivendo outro sonho, mas está vivendo esse, escolheu esse. 
Mudou-se para essa cidade, casou com essa mulher, teve esse filho. Tudo é um sonho construído.

 A ilusão é muito interessante. Havia um monge que meditava isolado. Encontrou uma divindade e lhe perguntou: “O que é Maya?” A divindade lhe disse: “entre neste  lago”. Ele entrou, e foi andando até que a água lhe cobriu o rosto, então ele virou-se e começou a sair da água. Enquanto saía, ele olhava para si e se percebeu uma mulher lindíssima. Nesse momento, passou uma caravana nela havia um príncipe que se apaixonou imediatamente por aquela mulher saída como do nada.
 Pegou-a pela mão e levou-a consigo. Foram para o reino do príncipe e casaram-se, para a felicidade de todo o povo. Ela teve filhos, estava encantada com a vida. Palácio, vestes, amor. Mas aconteceu uma guerra e seus filhos foram lutar. De repente, toda a vida maravilhosa se transformou: seu reino havia perdido a batalha, os corpos de seu marido e filhos vinham carregados, todos seus sonhos estavam destruídos. 
Os corpos de seus filhos amados, do seu marido, entre lamentações, foram jogados em uma fogueira onde ela, não suportando a dor da perda, enlouquecida, jogou-se. Enquanto o fogo consumia seu corpo, ela caiu e sentiu-se dentro de uma água fria. Então, andando, saiu do lago, olhou para si e viu-se um eremita, um pobre monge. A divindade lhe disse: “isso é Maya, a ilusão!”. 

Enquanto vocês estavam sendo conduzidos pela história, puderam mergulhar nela. E sonharam junto. Mas todo o sofrimento era um sonho ilusório. Nada aconteceu, ele nunca foi uma mulher linda, nunca se casou, nunca teve filhos, não houve guerras nem mortes. Assim é a ilusão, assim são as nossas vidas. Vocês estão sonhando agora e não conseguem acordar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Estar realmente presente



Pergunta – Acordado é atento?

Monge Genshô – Não.

Pergunta – É concentrado?

Monge Genshô – Não. Porque estar atento, estar concentrado, ainda é uma atividade do “eu”. Ela é útil, por exemplo, para o treinamento da plena atenção, o que permite estar atento a tudo o que se está fazendo. Isso é um passo para acordar, porque, frequentemente, somos tomados por sentimentos e fazemos coisas em estado de desatenção. Estar realmente presente onde você está, sem  lembrar do passado, nem pensar em nada do que fará amanhã, não é muito fácil, mas, se conseguir, esse já é um passo em direção ao despertar. Cria uma mente pacificada que prepara o terreno para insights. Por isso treinamos no zazen o ficar aqui, esquecer passado e futuro. Treine, e cada vez que você se distrair, o que deve fazer? Voltar para o momento presente. Temos que treinar a volta ao momento presente durante a vida toda.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quem é você?



Pergunta – Com relação ao “eu”, eu o elimino ou me desapego dele?

Monge Genshô – O “eu” é necessário nessa vida, você o usa como um instrumento. Uma boa imagem para entender isso é a de que precisamos usar uma fantasia para exercer um papel. Eu, por exemplo, coloco minhas roupas de monge, que carregadas de simbolismo - um manto igual ao manto de Buda - me facilitam o exercício do papel de professor do dharma. Mas, quando tiro essa roupa, não posso dizer que estou ali, naquela fantasia que tirei. Eu não sou a fantasia; ela não é eu. Nosso “eu” é, essencialmente, uma fantasia. Nós precisamos usar, na vida, títulos, cargos, coisas, nomes. Mas não devemos nos confundir com nosso nome. Seu nome não é você. Seu título não é você. Por isso é tão difícil responder a essa pergunta: “quem é você realmente?” Nós precisamos de um “eu”, mas o “eu” que usamos para transitar na vida, não é quem somos, é uma fantasia. Começa no batizado, o pai diz, “o nome dele será Fulano”, e recebemos um nome que arrastamos pelo resto da vida. Mas esse nome foi-nos, tão somente, dado por nossos pais. Ele não nos constitui. “Quem é você?” Quando fazemos essa pergunta a uma pessoa, ela responde, em primeiro lugar, seu nome, pois foi essa a primeira coisa que lhe deram. Mas essa pessoa não é só um nome. Certa vez, um homem chegou até Buda e lhe perguntou: “quem é você? Um profeta, um deus, um salvador? Quem é você, afinal?” Ele respondeu que não era nenhum deles, e afirmou: “Eu estou acordado!”

Pergunta – Esta é, na verdade, uma resposta conceitual, não é?

Monge Genshô – Sim.

Aluno – Desculpe, não entendi a resposta.

Monge Genshô – Ao dizer que está acordado, Buda afirma que não possui nenhum “eu”, que está livre de todas as ilusões, que isso tudo é um sonho. Estar acordado significa, portanto, estar livre dos sonhos.

Pergunta – Isso quer dizer que Buda entendeu sua essência?

Monte Genshô – Sim. E sua essência não é ele.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não existe efeito sem causa





Pergunta – Se o “eu” de fato não existe e a gente deve buscar eliminar o sofrimento, por que toda essa prática e não, simplesmente, acabar com a vida?

Monge Genshô – Acabar com a vida não resolve nenhum problema. O seu “eu” é provocado pelo carma, uma onda de energia no universo. Você surge porque existe carma atrás de você. Por isso essa manifestação, “você”. Não existiria você se não houvesse carma anterior, se não houvesse movimento anterior no universo. Houve movimento e esse movimento redunda em você, pois não existe efeito sem causa. Se você se mata nesta condição em que está agora, tudo o que vai conseguir é uma nova manifestação, com os mesmos problemas e alguns anexados, porque você cumpre um ato bastante egoísta se matando, pois seus pais, amigos, parentes serão impactados pelo seu ato e sofrerão. Além disso, tal atitude não soluciona nada; você só consegue repetir tudo. Existe a possibilidade do suicídio altruísta, para salvar outros por exemplo em situações limite, mas não é o caso que estamos examinando.

Existe um filme bem interessante, "O feitiço do tempo". O personagem central se vê preso ao mesmo dia, que se repete incessantemente. Todos os dias ele acorda e vive o mesmo dia com os mesmos acontecimentos, porém, só ele sabe disso. Depois de alguns dias, cansado, ele resolve se matar, e todas as vezes que ele se mata acorda novamente no mesmo dia. É um filme bem interessante que reflete a experiência humana. Nós repetimos vidas. A cada vida, há um novo “eu”. O pior de tudo, é que ninguém se lembra de suas vidas passadas. É como alguém que corta um dedo quando criança: apesar de ter feito isso de forma ignorante e inocente, a conseqüência fica com ele. Você não tem o dedo quando adulto porque uma vez, na infância, mesmo que sem querer, mesmo que não se lembre de como aconteceu, você cortou o dedo. O quer que você faça, o carma gerado gravará e manifestará em novas vidas, mesmo que você não lembre o porque de seus méritos ou deméritos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Porque as ideologias fracassaram

                               China impõe seu conceito de "felicidade" aos monges tibetanos



Pergunta – Esse “eu” a que o senhor está se referindo é, digamos, quem produz nossa personalidade humana, a parte humana material que existe dentro da gente, uma vez que ainda não atingimos a parte espiritual...

Monge Gensho – Esse “eu” é tudo isso. Tudo isso são atributos deste “eu”. Mas não existe um “eu” para atingir algo. Quando afirmamos: “Meu ‘eu’ vai atingir a espiritualidade”, também isso é um engano. É justamente por acreditar no meu “eu”, que não me tornarei espiritualizado. Esse é um erro até econômico, como vimos no século vinte, onde grandes ideologias surgiram tentando levar o homem a uma espécie de felicidade.

Inevitavelmente, todas as tentativas de criar felicidade através de um sistema ou de uma ideologia, fracassaram. Porque o que sempre vimos foi que quando um pequeno grupo de pessoas conseguia o poder e acumulava privilégios, ficando em melhor situação que os outros, este grupo começava a ter coisas que os outros não tinham. Essa é a historia dos nossos últimos cem anos. Esses grupos que tomavam o poder sempre degeneraram no uso de todos os artifícios possíveis para conservarem seu privilegiado status quo. Essa é a história dos sistemas de felicidade, não importando serem de direita ou de esquerda, ou de qualquer outra ideologia; não existe exceção. Só o que houve foi a criação de nomenclaturas, aristocracias, partidos únicos, partidos dominantes e ditadores cruéis, todos querendo manter o poder para seu grupo a qualquer custo, mesmo de corrupção. Essa é nossa história, porque os “eus” e o egoísmo superaram sempre todas as ideologias e sonhos. O budismo diz há dois mil e seiscentos anos que “a solução para a felicidade começa dentro do homem, e não fora dele”. Na verdade, qualquer sistema funcionaria maravilhosamente bem se não fosse o egoísmo.

A esse respeito, me foi enviada uma notícia muito interessante que falava de um grupo de idosos japoneses que se ofereceu para limpar Fukushima, que está radioativa. Como a radiação provocará câncer e morte em vinte anos, eles se ofereceram para limpar a cidade, pois morrerão, muito provavelmente, antes disso. Tenho dito desde aquele acontecimento do tsunami, que a influência do budismo no Japão transparece nos valores da sociedade. Foi essa larga influência que criou um comportamento diverso. Pessoas em fila, em ordem, sem tumultos, todos aceitando sua cota, sem saques ou roubos. Ao invés dos preços aumentarem nos mercados, os donos decidiram baixá-los para que todos pudessem adquirir alimentos e bens essenciais. Essa é a confirmação de que uma sociedade com menos egoísmo funciona melhor. Não importa qual seja o sistema, importam as atitudes individuais. Em outros países em que já aconteceram desastres semelhantes, a primeira coisa que ocorre são os saques, pessoas correndo com televisores nas costas, arrebentando vitrines e carregando o que podem. Ainda levaremos bastante tempo para educar estes povos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Só uma ferramenta para transitar no mundo


(continuação)
Após sua iluminação Buda começa a ensinar, vai até seus companheiros e ensina, faz o primeiro discurso das quatro nobres verdades: a vida é insatisfatória e sofrida, para isso existe uma causa, a qual, sendo removida, não produz mais sofrimento. Qual é a causa do sofrimento? O apego a todas as coisas, os desejos, a mente aquisitiva. Mas o que está abaixo das quatro nobres verdades?

Podemos dizer que sofremos porque temos apego. Somos apegados a amores, a roupas, a carros e quando não temos isso tudo, sofremos. Temos mil apegos. Diz-se que toda a riqueza do mundo é insuficiente para a ambição de um só homem. Por isso o homem pode procurar a felicidade em um apartamento de seis milhões de reais e fazer qualquer coisa para isso. O mundo ao seu lado pode desabar, mas ele pensa que a felicidade está ali e que qualquer manobra é legitima para acumular riqueza. Por isso se enreda em sofrimento. 

Mas qual o alicerce do apego? Quem é aquele que tem apego? O “eu”. Quem é aquele que deseja? “Eu”. Quem quer possuir pessoas, coisas e riquezas? “Eu”. Quando não houver mais “eu”, não haverá mais apego. Podemos até pensar que sofremos por sermos apegados, mas nos livramos dos apegos? Como se livrar dos apegos? Os raciocínios que nos fazem afirmar que tudo é impermanente, que tudo vai embora, a ideia de que não podemos nos agarrar a nada nem colocar nossa felicidade nas coisas, pode ser útil para amenizar a dor e nos ajudar a ser mais desapegados e felizes. Mas ainda não atingiríamos a iluminação, pois, para isso, seria necessária a eliminação de todo o “eu”, assim poderíamos engolir o universo, ser um, com todas as coisas. Não há mais, neste contexto, a noção de “meu”, “minha”, “teu”, “tua”. Não existe mais energia de desejos e apegos para produzir frustrações, expectativas e sofrimento.

O eu é uma ferramenta para transitar no mundo, útil como uma roupa, mas não somos nós mesmos.  Esse é o segredo fundamental. As motivações e sofrimentos de Buda foram como os nossos, a diferença entre ele e nós, é que ele se libertou de seu “eu”, e a partir desse momento, a única coisa que lhe interessou foi ensinar. Jamais voltou a ser príncipe, sua única missão passou a ser libertar as pessoas do sofrimento. Ele dizia: “Tudo o que eu ensino é o que leva à liberação do sofrimento”.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A essência do despertar de Buddha


(continuação)
Todas essas considerações ocorreram a Buda. Embora ele fosse um homem rico, filho de um pequeno rei em um pequeno principado e tivesse tudo como membro da classe dominante: tinha mulheres, comida, palácio, empregados, enfim, tinha todos os confortos que  poderia ter um homem em sua posição. Mesmo tendo tudo isso, Buda se perturbou com o fato de haver velhice, doença e morte. Sabendo disso, ele se questionava sobre o significado de sua existência naquele palácio, com sua esposa, seu filho, as artes de guerra que havia aprendido. Buda era da classe Kshatriya, uma classe de guerreiros imediatamente abaixo dos Bramanes. Ele não conseguia ver significado na sua existência, em uma vida que terminava, inevitavelmente, em velhice, doença e morte, pois, sendo assim o fim, tudo o que fizermos é vão.

Foi assim que Sidharta Gautama Shakyamuni, abandonou sua família, seus pais, seu palácio, causando infelicidade a todos. Ele está então com vinte e oito anos, e vai para uma floresta procurando uma solução espiritual. Durante seis anos Shakyamuni tenta todas as técnicas de ascetismo que eram ensinadas pelos mestres iogues. Com as práticas de jejum severo, meditação e concentração, ele vai atingindo níveis cada vez mais profundos de realização psíquica, mas não vê uma solução final para as questões do sofrimento e do significado da vida; procura denodadamente, mas não encontra. Mesmo que dois mestres se sintam tão encantados com ele a ponto de o convidarem para  sucessor, ele recusa, e segue adiante. Por fim, sentindo-se derrotado fisicamente, sem energia, ele desfalece perto de um rio e uma moça chamada Sujata coloca em sua boca arroz com leite.

Ao voltar a se alimentar, Buda tem sua energia renovada. Senta-se, então, embaixo de uma figueira, que hoje é conhecida como fícus religiosus, cuja folha tem uma longa ponta , e ali fica meditando por sete dias. Ao amanhecer, quando a estrela da manhã está surgindo, Shakyamuni, de repente, acorda das ilusões, e nesse momento, torna-se O Buda, “aquele que acordou”. Ele exclama: “Que maravilhoso é! Nesse momento todos os seres e a grande Terra, junto comigo, atingem a iluminação!”

Qual a essência do grande segredo de Buda? Todas as coisas estão vazias de um “eu”. Eu não vou mais me enganar, nem uma coisa tem um eu, ninguém tem um eu, tudo é vazio de um eu. Este é o significado da palavra vacuidade, o vazio budista: nada tem um eu inerente, todas as coisas são interdependentes e interconectadas. A nossa noção de um eu - que é predominante, que todos agora, aqui sentados, sentem (eu estou aqui, eu sou, eu tenho um corpo, eu abro os olhos e vejo os outros, eu vejo o mundo) - é um engano, uma ilusão provocada pelo funcionamento de nossa mente e pela formação de nossa consciência. Essa é a essência da iluminação de Buda, todo o resto são métodos de treinamento graduais para se atingir liberação do sofrimento, melhor qualidade de vida, treinamento mental. Mas a iluminação de Buda é isso, a liberação de um eu. Enquanto não atingimos a liberação de um eu, não há a iluminação.
(continua)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A busca do significado da existência



Vamos falar um pouco sobre as motivações originais de Buda, porque suas motivações originais são as motivações de todos nós. Quando paramos para pensar, aqueles que pensam mais profundamente se perguntam se a vida é só isso. Uma vez vi uma criança perguntar “Por que eu caí nesse mundo?” Se refletirmos um pouco, nos daremos conta de que precisamos de um sentido e de um valor para a vida; se achamos que nossa vida não tem um significado, nos sentimos perdidos e deprimidos. Parece que a depressão é um dos grandes males de nossa era, porque, repentinamente, a pessoa tem a impressão de que sua vida não tem significado e que não faz sentido viver.

Nós não podemos ser somente uma máquina de processamento de alimento, uma fábrica de adubos. Este não pode ser esse o único sentido da existência. Surge, então, a necessidade de divertir-se, de distrair-se ou de entreter-se. Estas expressões são usadas a todo o momento, como se isso desse sentido à vida. Saímos, vamos a festas, bebemos e conversamos, para nos transformarmos em pessoas alegres, e de alguma maneira, nos sentirmos vivos. Isso pode ser embriagador durante algum tempo, mas, depois, vem um grande sentimento de vazio, de solidão; nos sentimos perdidos. 

Procuramos então amores, para buscar dar significado à vida. De novo, em vez de o significado da vida estar dentro da pessoa, ele está no outro. Como procuramos em outra pessoa o significado da nossa vida, em algum momento, inevitavelmente, haverá sofrimento e infelicidade. O outro não pode ser suficiente, pois ele também tem suas demandas, e também os amores acabam, e na melhor das hipóteses, a morte nos separa.
(continua)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Terapia psicológica e o zen budismo



Pergunta – Retomando o “eu”. Tenho feito, paralelamente, um trabalho de autoconhecimento através da psicologia. Tenho lido e refletido a respeito de o que dentro desses conceitos é chamado de “eu superior” e “eu inferior”. Sem percebermos, vamos colocando máscaras, pela própria necessidade social, e ao tentar chegar a essa compreensão de o que é realmente “eu”, temos também que nos posicionar de diferentes formas e maneiras. Eu poderia me aproximar um pouco dessa explicação que o senhor está passando sobre o budismo com conceitos da psicologia?

Monge Gensho – Limitadamente. Porque o método da psicologia está baseado na noção do eu, sem jamais considerar o vazio inerente a todos e o fato de que todas as coisas são vazias de um “eu”. A psicologia opera tentando adaptar o homem e fazê-lo funcionar melhor nesse mundo. O budismo não tem esse método.

O budismo descarta todos os métodos filosóficos e mergulha numa experiência direta, mas isso não significa que exista uma oposição entre psicologia e budismo. Seus objetivos é que são muito diferentes. Os objetivos da psicologia são de integração, adaptação, compreensão, classificação, através de uma mente classificatória e discriminativa. O budismo quer descartar esse tipo de mente, descartar uma mente conceitual, pois quer mergulhar numa experiência direta com a unidade. Se você quiser usar palavras cristãs, poderíamos dizer que o budismo deseja que o homem tenha experiência divina direta. Podemos dizer, então, que a psicologia opera até determinado nível com determinado objetivo e o budismo corre em paralelo com outro objetivo muito diferente, a iluminação. Não interessa ao budismo adaptar o homem ao mundo, pelo contrário, ele pretende transformar o homem num outro ser, internamente num outro indivíduo - que aos olhos do mundo pode parecer perfeitamente louco. Tenho consciência de que muitas pessoas que me conheceram no passado como executivo de empresa, hoje têm certeza de que enlouqueci. No nosso mundo moderno já existe um entendimento disso, não é a mesma coisa de cinquenta anos atrás.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Um pragmatismo dialético de métodos psicológicos



Pergunta – Existe algo que não seja um teste?

Monge Gensho – Que não seja um teste, você quer dizer, que não seja um método? Tudo no Zen é um método, tudo no budismo é um método. Por isso é difícil dizer que o budismo seja uma religião ou uma filosofia.



Pergunta – Na nossa vida diária tudo tende a ser um teste. A gente vive para as experiências, não é?

Monge Gensho – Se você experimenta e testa, você pode saber o que funciona bem para você. Mas não precisa acreditar que o que é bom para você é bom para os outros.

Pergunta – Essa é então uma existência ilusória, um teste ilusório?

Monge Gensho – Não, nossa existência não é uma ilusão, nossa existência é uma existência. As coisas são como são. Não se trata de um teste, não existe ninguém lá fora nos testando. Não existe nenhuma organização lá fora fazendo um teste conosco, não é assim. Ilusão é o eu.

Pergunta – Então, somos nós mesmos testando nós mesmos?

Monge Gensho – Se você quiser... Eu prefiro só viver.

Pergunta – Mas então, como chamamos o budismo? Não é religião, não é filosofia, como o definimos então?

Monge Gensho – Edward Conze deu uma declaração interessante: “O budismo é um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”. Pragmatismo, porque é prático. Dialético, porque seu método é discursivo e argumentativo. Métodos psicológicos, porque todos os métodos de prática do Zen são formas que têm efeitos psicológicos. O zazen é assim, um método para o aumento do conhecimento sobre nós mesmos, por exemplo, um método para descartarmos a ilusão de um eu separado de tudo. Chamar o budismo de religião é tentar enquadrar o budismo dentro de um conceito bastante ocidental.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Zen em Goiânia



ZEN BUDISMO em Goiânia, um novo grupo de estudos inicia dia 31 de outubro. Começaremos com meditações semanais, que acontecerão todas as QUARTAS FEIRAS ÀS 20:00 HS. O início será dia 31 de outubro. As meditações serão abertas a todos os interessados, o endereço será:

Rua 56, nº 18, esquina com Rua 58, 1º andar, Jardim Goiás (É no início da Rua lateral ao Parque Falmboyant). A coordenação é de Monge Genshô.

http://zengoias.blogspot.com.br/2012/10/novo-espaco-para-sangha-de-goiania.html

Uma fantasia não é você



Pergunta – Chegará o dia em que todos alcançarão a iluminação?

Monge Gensho – Cada universo um dia findará e então, simplesmente, um novo dia cósmico acabará iniciando. Como citei no início, tudo é cíclico. 

Pergunta – Fiquei meio confusa, gostaria que o senhor desse um exemplo prático sobre a eliminação do “eu” para poder ter uma vida equilibrada e sobre termos que retornar diversas vezes para poder ajudar as outras pessoas.

Monge Gensho - Mesmo que o “eu” seja ilusório, você não consegue trabalhar e operar no mundo sem usar seu “eu”. O “eu” é uma ferramenta. O problema é que você acredita nele. Por exemplo, você tem uma echarpe no pescoço e a usa para uma determinada finalidade hoje, por aparência. Ao chegar em casa, você a tira e a coloca no guarda-roupa. Apesar de tê-la usado para sua aparência, ela é você? Não, não é. O “eu” também é assim, também é uma aparência da qual você precisa. Se você dirige uma empresa, tem que usar de autoridade, tem que afirmar: “Eu estou dizendo para fazer assim!”. Não adianta reunir as pessoas e dizer, “O universo deseja que vocês ajam...”. É preciso dizer: “Eu quero que façam dessa forma, caso contrário, não poderemos trabalhar juntos”. Então você tem que usar o “eu”. O “eu” é uma ferramenta para ser usada quando for útil. De nada adianta chegar em casa, entrar no box do banheiro e dizer ao chuveiro, “Eu ordeno que você verta água!” pelo menos atualmente.

Quando o “eu” não é útil, não adianta. Isso me lembra uma piada que meu filho me contou sobre Chuck Norris. Existem muitas piadas sobre Chuck Norris; uma delas diz que ele não faz flexão de braços, ele empurra a Terra. Ou, Chuck Norris não precisa abrir a torneira, ele encara o chuveiro até ele chorar. Isso é acreditar muito no seu “eu”. Eu (Chuck Norris) não faço flexão de braços, eu empurro a Terra. É uma piada muito interessante, uma piada sobre um grande “eu”. Então, o “eu” é útil, é uma ferramenta para ser usada, mas é uma fantasia. Eu estou usando roupas de monge, eu sou monge, e digo, “Me chamem Monge”. E as pessoas dizem “Senhor”, e temos toda uma etiqueta. Mas eu sou monge, ou monge é uma fantasia útil para a prática do Zen? Monge é uma fantasia útil para a prática do Zen cheia de profundos significados, com seus mantos, cabeças raspadas, tudo isso formando uma metodologia para a prática. Mas ela toda é funcional, pois todo o método Zen é um funcionamento. Trata-se de um método, não de uma verdade. É apenas um método útil, muito efetivo, muito bem testado: mais de dois mil anos de teste.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Vento que nos leva, fogo que se extingue



Pergunta – O carma é uma energia?

Monge Gensho – Carma é uma palavra que significa ação. Vipaka significa frutos, na verdade em sânscrito dizia-se carma vipaka, os frutos da ação. Quando você faz uma ação intencional ela cria carma e esse carma adere à sua identidade. Mas é ele, o conjunto de movimentos que você tem, que faz com que sua onda permaneça. O seu redemoinho gira em razão de seus desejos, apegos e impulsos. Esse é seu redemoinho. Por isso, nirvana: Nir, não, vana, ventos. Nirvana quer dizer “sem ventos”. Sem os ventos das paixões. Outra tradução é “fogo extinto”. Quando se extinguirem os fogos das paixões, esse fogo extinto, não queima mais.

Pergunta – No budismo, além da meditação, existe outra prática que a gente possa fazer para manter o equilíbrio?

Monge Gensho – Muitas. Mas a meditação é a principal, pois ela cria estabilidade e um conhecimento de sua mente. Então, você pode retornar a essa mente do zazen quando o mundo criar movimento. No zazen, se você estiver realmente, como um espelho, refletindo todas as coisas, sem fazer quaisquer considerações, sem passado ou visitas ao futuro, você não está produzindo carma. O zazen corta o carma. Se você conseguir, em algum momento de sua vida, através de plena atenção, da prática das ações, da prática do caminho óctuplo, que são as oito práticas ensinadas por Buda - ação correta, fala correta, meio de vida correto etc., se você fizer essas práticas, elas extinguirão seu fogo. Haverá, em primeiro lugar, mais calma e serenidade, o que, depois, poderá conduzir você cada vez mais profundamente, até um grande esclarecimento. 

Quando você vir sua verdadeira natureza, quando vir, com clareza, a vacuidade de todas as coisas, quando enxergar o vazio de seu próprio eu, você não poderá mais ser ofendido. Se você vir tudo isso, ainda sentirá compaixão por todos os seres, porque todos os seres se percebem como “um”. Sendo assim, você será incapaz de fazer coisas que causem sofrimento, e isso se chama mente de Bodhicitta. Se você criar esse tipo de mente e fizer esse tipo de prática, vindo a alcançar um grande esclarecimento, chamaremos esse esclarecimento de iluminação, e essa iluminação é o fim de toda dor. Se você extinguir as energias cármicas que movem você, seu redemoinho cessará e você não será obrigado a voltar, a menos, evidentemente, que queira. Mas só existe um motivo para querer, que é a própria mente de Bodhicitta, compaixão pelo pesadelo dos outros seres, o desejo de acordá-los. Por isso, a palavra buda vem da raiz bud, “desperto”, e Buda significa “aquele que acordou”. Se você acordar, acordará do sonho e desejará acordar do sonho os outros que gemem e sofrem.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Redemoinho como analogia



Pergunta – Fazendo uma comparação com o espiritismo: quando morremos, o que acontece com nossa “alma” ou “espírito” até que tenhamos outro corpo?

Monge Gensho – No budismo não falamos em almas nem em espíritos. Não falamos em uma existência corpórea separada, o que seria nós mesmos, separados de um corpo. Essa é uma noção grandemente originária no ocidente do Platonismo. Mas a noção de uma alma separada do corpo, por exemplo, não é uma noção existente no judaísmo primitivo. No Cristianismo, vem por influência grega e o Kardecismo é um herdeiro dessa tradição. É um sincretismo entre idéias hindus, budistas e cristãs. Na verdade, o budismo apenas declara que o carma, que é um movimento no universo, provoca nascimento. Mas não fala de uma alma que conserva seu “eu”, embora possamos encontrar conceitos um pouco mais próximos disso no Bardo, que é o ensinamento pós-morte do livro Tibetano dos mortos. Ele se aproxima dessa noção de uma consciência, de algo que está carregando, de uma entidade que irá renascer. Mas a explicação melhor dentro do Zen seria: olhe para um redemoinho, ele tem movimento, energia e forma e quando você olha para ele, vê um eixo em torno do qual tudo gira, mas esse eixo existe, é algo? Não. O movimento por si mesmo cria a noção de um eixo, mas não é necessário que o eixo exista para que algo seja apegado a ele. É o próprio movimento que provoca o renascimento.

Pergunta – Sei que isso é limitado, precisamos criar uma imagem para podermos entender, mas seria como ondas no oceano?

Monge Gensho – A onda continua, mas a água não se move com a onda. As ondas passam através da água. Quando eu falo o ar vibra, há ondas sonoras, mas o ar não se move para que o som chegue até seus ouvidos, só há vibração, que é pura energia. Não se moveu nada essencialmente, no entanto, o som chegou até aí. Acho que o redemoinho é uma imagem muito boa, porque permite a idéia de uma entidade e coloca tudo num movimento. Você, agindo na sua vida, provoca movimento. Há movimento, há formas de energia, impulsos, desejos e apegos - esses formam o carma. O que renasce? O que provoca o renascimento? O carma.

O carma tem um “eu”? Não. O carma provoca um nascimento e o nascimento diz a si mesmo, “eu sou”. Então, é o carma que provoca o surgimento de identidades, não são as identidades que carregam carmas. Essa é a essência desse pensamento, que é um pouco mais sutil. É mais fácil pensar num espírito que carrega uma mochila de carmas nas costas, não é verdade? Mas não é assim. É o carma que provoca o surgimento de identidades. Nós somos identidades que surgiram por causa de carmas, nossas identidades são ilusórias. Somos um sonho.